Desejos e monstros em Animais noturnos

Textos discutem filme dirigido por Tom Ford

AS CONTRADIÇÕES DO DESEJO
Eli Vagner Francisco Rodrigues

A última obra de Tom Ford para o cinema é ambientada em um clima de cinismo cultural e contradições de comportamento. Tal ambiente é claramente representado pela recorrente referência à galeria de arte contemporânea e por relações sociais flagrantemente absurdas exploradas pelo humor cínico do diretor. Já no prólogo fica claro que o diretor está interessado em explorar as contradições entre a natureza dos desejos e as decisões afetivas culturalmente condicionadas. Para isso Ford toma a personagem Susan, uma mulher de família rica e tradicional, com formação cultural superior, que rompeu com o conservadorismo em nome de ideais liberais, como modelo e experimento. No primeiro ato, Susan reencontra um amigo de faculdade e inicia uma relação. Ambos estão cursando a pós-graduação, suas perspectivas e seu status cultural, portanto, se ampliam. Edward tem ambições artísticas, pretende ser escritor, mas sua competência para tal fica sob suspeição durante todo o filme. Neste primeiro ato Susan faz uma escolha afetiva, elege Edward, homem moderno, com seu ideal sutil de masculinidade, como seu parceiro. A decisão de Susan se dá, simbolicamente, quando ele demonstra a sensibilidade pouco esperada dos homens diante de temas de comportamento na sociedade atual. Edward é sofisticado, sensível, atualizado. Pouco tempo depois Susan perde seu interesse por Edward e o abandona, seus projetos de se tornar um escritor estão dando poucos resultados e suas vidas estacionam no deserto da cotidianidade. Após o rompimento, traumático para Edward, o que lhe impõe uma superação, Susan casa-se novamente com um homem bem-sucedido, retratado por Ford como um típico narcisista contemporâneo. Edward se empenha em um projeto literário que será enviado a Susan. A partir desse momento temos uma segunda camada narrativa.

No segundo ato (ficcional) ocorre o sequestro de uma mãe e de sua filha (Susan e sua filha com Edward). Em uma viagem noturna, de carro, a família é atacada por três homens bárbaros que violentam e matam as duas mulheres. Edward, muito civilizado para reagir violentamente, não consegue evitar o crime apesar de ter várias chances de fazê-lo. Por não ser violento, hesita a todo momento e não toma em suas mãos o destino de sua família. No terceiro ato, como veremos, acontece a redenção de Edward. O modo como Edward se redime é o ponto alto da obra de Ford. Entre o início e essa redenção o diretor explora, com a contraposição entre a trama real e a ficcional, a contradição entre desejo e cultura. Mais do que isso, o diretor apresenta o mundo contemporâneo através de uma fábula de cinismo e mascaramento. O pressuposto de Ford é o de que, em um ambiente social determinado por diversos fatores culturais condicionantes, civilizatórios, os indivíduos podem pensar querer o que “naturalmente” não desejariam. Para Ford, o que Susan, no início do filme, procura é algo que ela naturalmente não quer, o que fica evidenciado pelas falas da mãe de Susan, que identifica o erro da escolha da filha e faz o alerta – Logo você não vai mais desejá-lo! Seu desejo teria sido moldado por uma imagem do amor e por uma imagem de um homem ideal, no caso o homem civilizado, dotado de uma sensibilidade artística, refinado e afastado da violência e da crueldade pela cultura de seu tempo.

O ideal romantizado de homem sensível contrasta com a imagem do homem sedutor, um tipo construído pela própria tradição cinematográfica

Se este é o problema tematizado no filme, não deixa de ser um dos problemas de toda a nossa cultura. Na interpretação de Ford impõe-se um aspecto feminista, a mulher, vista pela cultura conservadora como a filha mais legítima da natureza, sente o desvio do processo civilizatório de maneira mais absurda, pois é culturalmente induzida a querer o que naturalmente não quereria, o homem fraco. Este tipo cultural é visto por muitos, inclusive pelos homens, mais como um provedor do que como um homem dotado de força física e capacidade de proteção (a proteção agora é papel do estado). Este tipo, portanto, tem formação (estudo) e um trabalho sofisticado, intelectual, técnico, científico, artístico. Este homem, por ter estudado, passou por instituições que o domesticaram, o tornaram um homem mais sensível aos problemas e perspectivas dos outros. Este é um tipo desejável para a sociedade, para uma ideia de família, para toda instituição que precisa de um sistema de valores que mantenha um nível de estabilidade. O ideal romantizado de homem sensível contrasta com a imagem do homem sedutor, um tipo construído pela própria tradição cinematográfica. A caracterização de Edward contrasta com a construção do personagem Ray Marcus protagonista do crime (jeans e camiseta, comportamento desregrado, criminalidade e impulsividade). Ray Marcus lembra as imagens de Marlon Brando e James Dean em O selvagem e Giant, é um homem jovem, forte e bonito, por outro lado é o personagem que vai representar o perigo e a crueldade (Aaron Johnson – globo de ouro de melhor ator-coadjuvante). Edward (Jake Gyllenhaal) é pequeno, comedido, intelectualizado, hesitante. Tom Ford carrega na caracterização do personagem Ray exatamente para estabelecer o contraponto entre Edward e o aspecto selvagem da masculinidade, Ray Marcus é um animal noturno. Outra clara contraposição a Edward no filme é a figura do xerife que, pragmático, durão e ignorante, tenta fazer Edward se vingar pela força e crueldade. O xerife, no entanto, está com câncer, para Ford, é um tipo em extinção.

O teste, para Susan, a armadilha emocional supostamente civilizada na qual ela caiu, inicia-se no encontro com o homem domesticado e sensível. O nexo entre sexo, violência e crueldade se torna, então, a chave para a interpretação do filme. Tom Ford trabalha com duas imagens da mulher. Em uma imagem a mulher é sedutora em outra ela é frágil pois se torna mãe e precisa da proteção da força (natural ou do estado) e não de seres sensíveis, fracos, para proteger a filha (prole). Com o seu poder de sedução, Susan é um animal noturno à procura de uma opção afetiva, a escolha é dela, Edward se esforça para se enquadrar na faixa de referências daquela que ele deseja. Fecha-se assim o segundo ato.

A resposta redentora pela arte é, obviamente, preferível à resposta do homem comum, da brutalidade natural

Para Ford, a confusão de Susan é resultado de um sistema de valores que nega a natureza e afirma uma outra forma de sobrevivência da prole, o contrato social, o processo civilizatório. Para este projeto, quanto menos perigoso for o homem, melhor para a sobrevivência de todos, o ideal é o homem domesticado. O desejo, no entanto, fica confuso, como se o corpo tivesse sido moldado para querer algo que saiu de moda. O desejo opta pela imagem da força, do saudável (contrária à degeneração), pois ela promete uma prole com saúde e proteção. Essa imagem, no entanto, carrega consigo o perigo da disputa e da violência da força. A cultura indica o tipo civilizado, o comportamento obedece à cultura, mas o corpo deseja o que a natureza depositou em seu instinto, a atração pela força e pelo risco, que molda a representação da sedução.

No último ato, Tom Ford demonstra a força do ressentimento para o universo da criação e nos apresenta uma vingança do subsolo, da força pessoal e do próprio recolhimento de Edward. A resposta redentora pela arte é, obviamente, preferível à resposta do homem comum, da brutalidade natural.

Edward se cura de seu enfraquecimento cultural criando uma vingança artística, o livro-manuscrito, enviado em primeira mão a Susan. A certa altura do filme Susan está diante de um quadro em sua galeria que estampa em letras enormes a palavra “Vengeance”. Ao contemplar o quadro pergunta a sua funcionária de onde teria surgido aquela obra, pois não se lembrava de tê-la comprado. A resposta, ancestral, de sua auxiliar é direta: “Você a comprou e se esqueceu”.

A vingança de Edward é intelectual e artística, no final, segundo Ford, quem tinha o talento era ele e não ela (Susan se mostra medíocre e infeliz no trabalho), a força que ela buscava (realidade) e buscou nele (ficção), uma força física e de caráter traduzida em proteção, foi substituída pela força de sua criação literária. Edward só revelou seu talento porque foi até o fundo de seu ressentimento. Pelo abandono, mudou sua natureza, de sensível e fraco aprendeu a lição da crueldade, aprendeu, talvez, o valor da crueldade na sedução, o elemento de violência no desejo e na atração, uma lição definitiva no mercado dos desejos. Neste, para Tom Ford, o perigo e a crueldade ainda jogam um papel importante. Isso ficaria evidente nas “preferências do corpo” pela juventude, pelo crime e pelo risco. A transgressão, o crime, a crueldade e a violência, como fator de sedução, abriram inúmeros “negócios” no universo da cultura. Suas marcas estão nos corpos e nas telas. A tatuagem (antigamente associada ao mundo do crime no Ocidente), as armas (perigo, poder, violência), as drogas (perigos físicos, transgressão moral), a liberdade sexual (autonomia em relação ao corpo) e o mundo do crime (negação do poder instituído) se constituem como um elemento completamente assimilado pela iconografia da cultura pop, relacionando a transgressão a elementos desencadeadores de desejo para jovens e adultos.

A cena final mostra Susan se preparando para encontrar Edward. Agora, ela está novamente atraída por ele pois, no manuscrito que somente ela leu, ele se redime de sua fragilidade civilizada. Será que ele vai ao encontro?

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TEXTO POR: Eli Vagner Francisco Rodrigues é professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

 

Susan (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro. (© Divulgação/ Universal Pictures)

 

O ENCANTO DOS MONTROS
Oscar D’Ambrosio

A abertura do filme Animais noturnos merecia um prêmio. O filme de Tom Ford traz, em seus momentos iniciais, mulheres nuas ou seminuas dançando para a câmera com uma sensualidade toda própria. São movimentos coreografados em que sua gordura aparentemente grotesca se torna bela.

As imagens se ligam à personagem central, Susan, vivida por Amy Adams. Ela atua numa galeria de arte contemporânea,e esculturas dessas mulheres estão no espaço em que ela trabalha. Os “animais noturnos” do título do filme são essas obras de arte, assim como um grupo de rapazes que cometerá terríveis atos de violência no romance do primeiro marido da protagonista.

A própria Susan, que mal consegue dormir, é um “animal noturno”. São todos, de uma forma ou de outra, predadores dos outros e de si mesmos, numa atmosfera em que o esconder vale mais do que o revelar. O feio e o monstruoso têm seu encanto. O violento pode adquirir a forma do belo e do sensual. Depende do momento e de quem pratica a ação e de quem a recebe.

Não há respostas fáceis para a abertura de Animais noturnos. Apresenta indagações que dizem respeito à percepção que cada um tem da arte. Conceitos como o “belo”, tão debatido, ocorrem concomitantemente à discussão sobre o “feio”. Nesse aspecto, as mulheres que dançam são representações dos medos de todos nós. E não é que esses monstros têm o seu encanto?

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TEXTO POR: Oscar D’Ambrosio, doutor em Educação, Arte e História da Cultura e mestre em Artes Visuais, atua na Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp.

FOTO DE ABERTURA: Da esq. para a dir., Edward (Jake Gylenhaal), primeiro marido de Susan (Amy Adams) na trama. Michael Shannon no papel do xerife Bobby Andes. E o estilista e diretor Tom Ford. (© Divulgação/ Universal Pictures)

 

 

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