Sobre rappers e narradores

As características industriais simplesmente destruíram a figura do narrador, pois dilaceraram as relações sociais

Todos nós, algum dia em nossas vidas, ouvimos alguém, geralmente pessoas mais velhas, contar algum “causo”, algum provérbio, dito “popular”, de conhecimento geral. Esse tipo de pessoa adquiriu diversos nomes ao longo da história, sendo chamado muitas vezes, pela cultura ocidental, de “contador”, “prosador”, entre tantos outros nomes. O filósofo Walter Benjamin, analisando a obra de Nikolai Leskov, o chamou de “narrador”.

Essa figura costumava habitar, principalmente, o ambiente rural, ou o de pequenas cidades, e seus ditos serviam como lições de moral, pois estavam repletos de experiências. Como diz Benjamin: “A arte de narrar tem como objetivo conservar o que foi narrado, sagrar a experiência. A memória é a mais épica das faculdades”. Reflete a imagem de uma experiência coletiva. Górki afirma sobre a ligação do narrador com os populares: “O grande narrador tem sempre suas raízes no povo”.

Entretanto, o mesmo Benjamin, que elege o narrador como o grande responsável pela consagração da experiência, também disse que este personagem estava desaparecido da sociedade ocidental. Afirma o filósofo: “Por mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente em nós, em sua atualidade viva. Ele é algo distante, e que se distancia ainda mais”. Continua Benjamin: “A arte de narrar está definhando porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção”.

Contextualizando, o narrador triunfou na sociedade ocidental até meados do século XVIII. Benjamin aponta razões para o seu desaparecimento em terras europeias. Para ele, o início da desvalorização do narrador está na “evolução secular” das forças produtivas: “A Revolução Industrial seria uma das causadoras da decadência na experiência comunicativa, afinal qual é a experiência transmitida dentro do ambiente fabril?” Ao impactar sobre a família e o círculo de amigos com as altas jornadas de trabalho – 14 h a 16 h diárias – solapou as relações entre os pais e os filhos e, inevitavelmente, as amizades. Afinal, até o século XIX, as fábricas não excluíam sequer as crianças das tarefas. O árduo trabalho consumiu todas as forças humanas. E, em virtude da lógica capitalista, o ambiente fabril não permitia a comunicação entre os trabalhadores, pois qualquer distração pode comprometer o processo produtivo. Lembremos do filme Tempos Modernos, criado por Charles Chaplin, que mostrou o trabalho repetitivo e sem criatividade.

As características industriais simplesmente destruíram a figura do narrador, pois dilaceraram as relações sociais. O tempo industrial consumiu o tempo do entretenimento, do bate–papo, da troca de experiências. Explica Benjamin: “Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas”. Benjamin coloca como última causa da decadência da experiência a 1.ª Guerra Mundial: “Está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história… Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes… em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano”. Dessa forma, para Benjamin, a experiência transmitida pela figura do narrador estava, naquela época, o chamado período entre-guerras, em ruínas.

Benjamin concebeu sua análise somente na perspectiva da História europeia. Não levou em conta, por exemplo, outras possibilidades, como nas civilizações africanas. Lá teria percebido a existência de um importante agente cultural, o griot, correspondente ao narrador a que ele se refere em seus textos. Ele é transmissor do conhecimento, da sabedoria, interferindo em todos os assuntos tribais. É aquele que conta todos os acontecimentos para os integrantes da sociedade, normalmente pertencente a uma sociedade de costumes orais e não escritos. Se aplicarmos a perspectiva de Benjamin ao território africano, talvez cheguemos à conclusão de que a existência do griot, ainda hoje, no território africano se deve, entre outras coisas, à não industrialização de grande parte do continente e à preservação de tribos totalmente desconectadas do capitalismo global.

Originalmente, o rap, “ritmo e poesia”, é uma manifestação política, uma expressão da identidade negra

Essa tradição de oralidade representada pelo griot foi trazida para a América por meio da Diáspora Africana, que retirou do continente milhões de seus filhos. Por essa última característica, hoje se fala muito entre os estudiosos do Hip Hop que o rapper herdou características do velho griot, tornando-se um “griot urbano”.

O movimento surgiu nos EUA, especificamente na periferia negra de Nova York na década de 1970. Para o seu advento, contribuí-ram elementos da cultura latina, jamaicana e africana, criando as batidas que serviram de base para a contestação das desigualdades raciais e do sistema capitalista. Originalmente, o rap, “ritmo e poesia”, (um dos elementos do Hip Hop, juntamente ao bboy, grafite e o DJ) é uma manifestação política, uma expressão da identidade negra.

O rapper, conhecido também como MC (Mestre de Cerimônia), representa a continuidade da oralidade africana. Dá sequência às características do griot ao contar suas histórias nas letras do rap. Ele se torna um narrador, ao passo que o rap se transforma em uma narrativa. E essa narrativa transmite uma série de experiências: as histórias evidenciam a vida daqueles que estão fora do sistema, desassistidos pelo Estado. Afinal, o rapper, por meio da canção, é o porta-voz daqueles que não são ouvidos; denuncia as tragédias da favela, resgata a autoestima do morador da periferia, afirmando a sua identidade, fazendo-o refletir sobre e superar seu universo repleto de dificuldades.

 

Grupo de rap Racionais MCs, da esq. para dir., Edi Rock, Ice Blue, KL Jay e Mano Brown. (© Klaus Mitteldorf/ Boogie Naipe Produções)

 

No Brasil, tem como grande representante os Racionais Mcs, formado por Mano Brown, KL Jay, Edi Rock e Ice Blue, que cantam em Rio Preto, hoje, as experiências acumuladas durante 25 anos de trabalho. Suas letras estão repletas de narrativas da realidade de milhões de brasileiros que vivem à margem do sistema. Serviram de inspiração para muitos grupos, inclusive para rio-pretenses, que se destacam na cena do Hip Hop nacional e internacional, seja na dança, com Marcão, Pelezinho, Raffa, DTR e Ricka, no rap, com Taroba, AlienMan, MC Gra e os DJs Bocka e Basim, no grafite, com Pecks, Stan, Edson Art 165, junykp! e PJota, entre tantos outros.

Ao longo da carreira, os Racionais narraram aquilo que a sociedade criou e para o que depois fechou seus olhos, como o Diário de um detento massacrado no Carandiru, o Negro drama, vítima do racismo estrutural, e as inúmeras dificuldades dos milhões de Manos da porta do bar, desempregados, imersos em uma realidade de drogas e violência. Portanto, o rapper, ao narrar, consolida a experiência de uma determinada comunidade, a da periferia, a da Selva de pedra, como cantam os Racionais em A vida é desafio, onde “se espera tempo bom, mas o que vem é só tempo ruim”. Sendo assim, dão continuidade à atividade do griot, consolidando a experiência comunicativa de um grupo social tão marginalizado e tão esquecido pela sociedade capitalista, tornando o rap e a sua maneira de narrar uma forma de resistência, de orgulho racial, uma identidade de superação das adversidades cotidianas, ou, como diriam os Racionais Mcs, da afirmação daqueles que estão “na vida loka, mano”!

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TEXTO POR: Vladimir Miguel Rodrigues é professor e escritor. Bacharel em Letras/Tradução pela Unesp e Licenciado em Filosofia pelo Claretiano. Mestre e doutorando em Letras pela Unesp. É autor do livro O X de Malcolm e a questão racial norte-americana (Editora Unesp).

FOTO DE ABERTURA: Charlie Chaplin no filme Tempos Modernos.

 

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