As acepções históricas e filosóficas da melancolia

Melancolia: Literatura; Luiz Costa Lima;
366 páginas; R$ 68.

A melancolia surge como inquietação ocidental pela primeira vez na voz do fisiólogo grego Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.), como um transtorno do humor associado a um mal físico, provocado pela bílis negra.

Na Antiguidade, a tradição hipocrática preserva esse estado afetivo como doença do corpo, passível de conduzir à epilepsia, à cegueira ou à loucura. De lá para cá, o conceito se transformou. Ganhou novos contornos a partir da construção de vasto material, em diferentes tempos e pelas mãos de uma sorte numerosa de autores. À medida que a medicina se separa da filosofia, o termo se reveste com outros significados, não raro relacionados à condição existencial do homem.

É essa trilha que o pesquisador Luiz Costa Lima percorre para mapear o fenômeno da melancolia ao longo dos séculos e construir Melancolia: Literatura, lançamento da Editora Unesp.

Dividido em três capítulos, o texto alcança uma miríade de autores na tentativa de abordar a linha escolhida pelo autor, já que o tema contempla “mil faces”. “Fiz então questão de incluir o exame de alguns textos gregos, e não só de contemporâneos, embora, pela menor proporcionalidade daqueles, procurasse indicar tanto a diferença da incidência quanto a diversidade da experiência da melancolia nos dias de agora”, escreve Luiz Costa Lima.

Merece destaque a escolha de Costa Lima em jogar luz sobre dois escritores decisivos da literatura moderna ocidental: o tcheco Franz Kafka e o irlandês Samuel Beckett, “representantes de uma ficção que, sempre mantendo a melancolia como lastro particularizante, agora assume uma vertente crítica, irônica e satírica, sempre de cunho negativo, em seu diálogo com o mundo a ela contemporâneo”.

Mais do que apenas mapear o constructo teórico da melancolia sob ótica humana ao longo dos séculos, Luiz Costa Lima descortina ao leitor como a experiência melancólica, na cultura ocidental, afetou, de diferentes modos, as diversas expressões do pensamento – da medicina à filosofia, da teologia à psicanálise e às artes plásticas e à literatura, mostrando as mudanças que historicamente sofre a experiência da melancolia e seu “acolhimento” pela literatura, ao mesmo tempo em que não se restringe a estabelecer uma mera e direta relação de causa e efeito entre elas.

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SOBRE O AUTOR
Luiz Costa Lima é crítico literário e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Publicou importantes livros de ensaios, entre eles Mímesis e modernidade (1980), Vida e mímesis (2000), O controle do imaginário e a afirmação do romance (2009) e Frestas: a teorização em um país periférico (2013).

 

 

Mais informações sobre os livros publicados pela Editora Unesp estão disponíveis no site <www.editoraunesp.com.br>.

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