A cruz na janela

Um pequeno ornamento que tem muito a dizer

Um pequeno ornamento nas folhas das janelas do casarão de Álvaro Coelho, em Presidente Venceslau, guarda informações relevantes. Trata-se de um entalhe com a cruz da Ordem de Cristo (ou Ordem dos Cavaleiros do Nosso Senhor Jesus Cristo), criada no século XIV pelo rei D. Dinis de Portugal, sendo espécie de sucessora “solar” dos templários medievais. Apesar do longo hiato temporal, a sucessora “lunar” seria a Maçonaria: não por acaso, Jacques De Molay – que nomeia a organização de jovens patrocinada pela Maçonaria – foi o último grão-mestre dos templários. Esta cruz, símbolo de Portugal, estava nas caravelas como está até hoje nos navios e aviões das forças portuguesas.

Muito bem, mas o que significaria ela no casarão de Álvaro Coelho? Ora, primeiramente que ele era português. De fato, nasceu em 1879, em Coimbra, como conta Inocêncio Erbella na sua história de Presidente Venceslau (ele escreve com “v”; mas o presidente Wenceslau Brás tinha “w” no nome). Álvaro Antunes Coelho teve uma vida curta – morreu em 1931, em Santo Anastácio, num ataque pelas costas à faca – mas, em Portugal, teria estudado “engenharia” em Coimbra e depois frequentado o Seminário Maior da mesma cidade, onde tomara as ordens. Isto é dito por Inocêncio. Porém, não sei se a Universidade já tinha o curso de “engenharia civil” naquela época, enquanto o seminário em questão deve ser o multissecular Seminário Maior da Sagrada Família.

Detalhe da janela entalhada com a cruz
da Ordem de Cristo.

Depois de largar a batina e morar no Rio, Coelho veio pra Venceslau em 1922 envolvido com o negócio de terras. Vendia datas de terra – que, aliás, não eram dele mas de uma empresa colonizadora que ele administrava – e era considerado duro e “mandão”. Se não tivesse morrido de morte matada em Anastácio, em plena praça Ataliba Leonel (antes João Pessoa), teria morrido depois, em Venceslau, como o mandante do crime confessou no inquérito. Matava-o de qualquer jeito em razão de uma “desfeita” (crime passional?) praticada pela vítima. Antes disso, sofreu outras tentativas, uma delas a tiros, de um médico que morava em Venceslau, em plena estação da Sorocabana em São Paulo. Trata-se da estação Julio Prestes, transformada na Sala São Paulo. A imprensa falou de um “ódio velho” motivado por causa não especificada.

Em meados dos anos 1920, o casarão – chamado pelo povo de “palacete” – foi construído num alto da cidade e ao seu lado levantou-se uma enorme caixa d’água que era alimentada por pás, roldanas e catavento a partir de um poço situado no subsolo. Uma engenhosa mecânica, que não era comum na região, captava a água, armazenava-a, e depois distribuía por todo o imóvel. Até hoje existe a caixa d’água, embora desativada, no alto da torre redonda (6,3 m de diâmetro) que a sustentava. Foi a viúva de Coelho, já nos anos 1940, quem mandou fazer o mirante, com aberturas em arcos e telhado de madeira.

Que a população de venceslau, e de toda a região, saiba valorizar este importante patrimônio arquitetônico, tombado pelo Estado de São Paulo

Bem, e o que a cruz da Ordem de Cristo diz ali? Em primeiro lugar que o proprietário do edifício vinha da terra de Camões, evidentemente. Em segundo lugar que ele era cristão e imagina-se o maravilhoso efeito que a fresta da cruz causava quando a luz do sol por ela penetrava de manhã, com o casarão fechado. A luz coada deveria tornar o clima do casarão semelhante a uma igreja coimbrã com seus vitrais. Coelho lembrava, então, de sua vida clerical.

A Maçonaria seria herdeira velada da Ordem do Templo, cuja cruz orbicular é muito semelhante. Portanto, uma leitura com perspectiva ocultista poderia ver no ornamento um símbolo maçônico – e, assim, as várias tentativas de morte de Álvaro Coelho poderiam ter motivações outras, secretas, como no livro delirante de Dan Brown (O Código Da Vinci). Mas isto é pura fantasia: Álvaro Coelho não é um Bérenger Saunière tupiniquim. No entanto, algum elemento esclarecedor poderia ser encontrado na pintura exuberante do interior da casa, com flores e desenhos coloridos. A pintura interna está sendo resgatada agora, pelos novos proprietários do conjunto, em minucioso trabalho de restauro que precisa remover grossas camadas de tinta acumuladas e sobrepostas ao longo de décadas.

Se esta teoria parece conspiratória por completo, alguma coisa ela poderia ter de verdade em razão da grande difusão da Ordem Maçônica entre os lusos. Muitos imigrantes portugueses vieram para o Brasil com endereço certo de morada e trabalho arrumados pelos “irmãos” daqui. Mas, mesmo sem batina, Coelho continuava fortemente ligado à Igreja: Arthuzina D’Incao, outra historiadora de Venceslau, conta em crônica emocionante o encontro de Coelho, um apóstata, com o bispo de Botucatu que pela primeira vez visitava a cidade, em 1926: “O bispo esperava em pé. Álvaro Coelho entrou e, rápido ajoelhou-se, tomando-lhe a mão, beijando-a. D. Carlos também se curvou, ajudando-o a levantar-se”. Foi neste dia que ele doou a parte frontal de seu imóvel para construção de uma igreja: a Igreja de Santo Antônio de Lisboa, aquele santo que pregava aos peixes do famoso sermão de Vieira.

Álvaro Antunes Coelho – assim como o Dr. Labiênio da Costa Machado, entre outros – é um ilustre pioneiro da região do Pontal do Paranapanema cuja história é cercada de sombras. Por onde terá andado ele antes de estabelecer-se em Venceslau? Casarão e mirante podem ter muitas histórias para contar. Porém estas histórias precisam ser lidas nas entrelinhas, com cuidado e dedicação. Que a população de Venceslau, e de toda a região, saiba valorizar este importante patrimônio arquitetônico, tombado pelo Estado de São Paulo desde 1991.

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José Roberto Fernandes Castilho é professor assistente doutor junto ao Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, Câmpus de Presidente Prudente.

FOTO DE ABERTURA: © blogdotoninho.com.br

 

 

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