Arte em unidade de hemodiálise

Uso de objetos sonoros e estratégias de narração de histórias

O Instituto Central do Hospital das Clínicas (ICHC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), sendo uma instituição pública de saúde de atendimento terciário, mantém a preocupação em dispor de ações de humanização na promoção da saúde de seus usuários e na qualidade de vida de seus profissionais. Essas ações minimizam as tensões existentes no ambiente hospitalar, tornando-o mais humanizado.

Nesse sentido, a instituição tem um Grupo de Trabalho de Humanização (GTH), composto por uma equipe multiprofissional, que desenvolve e acompanha projetos e ações voltadas para humanização, seguindo as diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde, estando integrado à Rede Humaniza da FMUSP-HC, adotando os seguintes princípios:

• Valorização da vida;
• Compromisso com a qualidade do trabalho;
• Valorização da dimensão subjetiva e social das pessoas;
• Estímulo ao trabalho em equipe e à construção de redes cooperativas;
• Estímulo à participação, autonomia e responsabilidade.

 

Voluntárias da Arte Despertar na Unidade de Hemodiálise. (© Stela Handa⁄Arte Despertar)

 

Atualmente o GTH do ICHC possui ações de humanização, que abrangem os âmbitos do Acolhimento, Gestão Participativa, Ambiência, Ações Educativas e Educação Permanente, Arte e Cultura e Práticas de Cuidado. Para que isso ocorra, o GTH do ICHC realiza ações em parcerias; entre os parceiros do GTH, está a Associação Arte Despertar (AD)*.

A Arte Despertar atua desde 1997 promovendo ações voltadas para o desenvolvimento humano, com foco em competências socioemocionais, na área de saúde, com pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde, sendo um parceiro do GTH do ICHC há três anos. A associação entende que é preciso olhar o indivíduo de forma integral para que consiga desenvolver consciência de si, do outro e do ambiente.
Em sua metodologia, a AD utiliza a arte e a cultura no resgate de identidade e histórias de vida dos indivíduos, visando propiciar experiências que impulsionem descobertas, reflexões e mudanças de atitude.

Essas experiências se dão por meio de intervenções com música e narração de histórias para pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde em hospitais públicos e/ou filantrópicos da Grande São Paulo. Essas ações resgatam a autoestima, fazem conexões com histórias de vida, humanizam relações e o próprio ambiente hospitalar.

O convívio dos pacientes e colaboradores na Unidade de Hemodiálise é muito intenso

Com essa parceria, a AD e o GTH do ICHC desenvolveram estudo na Unidade de Hemodiálise do Instituto Central, utilizando o método de observação em campo antes e após a atuação dos arte-educadores com a linguagem da música e da narração de histórias.

A Unidade de Hemodiálise atende pacientes crônicos, que têm rotina semanal no hospital para realização de procedimentos de diálise. Esses pacientes têm limitações no seu cotidiano e dependem desse tratamento contínuo para sua sobrevida.

 

Fachada do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP. (© Marcos Santos/ USP Imagens)

 

O convívio dos pacientes e colaboradores na Unidade de Hemodiálise é muito intenso, tendo em vista o longo período de tratamento e as características físicas do ambiente: as poltronas e as máquinas estão colocadas uma ao lado da outra, e o posto da enfermagem se localiza no meio da sala, no mesmo espaço físico. O tempo de convivência, que por vezes chega a durar por anos, faz com que a relação entre a equipe multiprofissional e o paciente seja muito estreita, e aspectos socioemocionais emergem com frequência, tornando muitas vezes as relações conflituosas.

Essa característica reforça a necessidade de a equipe multiprofissional considerar as subjetividades para amenizar as sequelas do adoecimento e dos conflitos nas relações entre pacientes, e entre paciente e equipe multiprofissional.

A equipe multiprofissional é formada por médico, enfermeira-chefe, assistente social, psicólogo e nutricionista. A promoção da saúde se dá por meio do foco biomédico e biopsicossocial. Esse último é indispensável para a efetivação do atendimento humanizado.

A AD e o GTH, em sua atuação na hemodiálise, vêm observando que a abordagem utilizando Arte e Cultura nesse ambiente tem propiciado momentos mais acolhedores e de maior integração entre pacientes e profissionais da equipe.

Acredita-se que objetos sonoros podem, igualmente, favorecer esse clima de participação, integração e cocriação por parte dos pacientes. Sonoridades presentes no ambiente da hemodiálise, como sons relacionados aos procedimentos, diálogos, sons decorrentes do trabalho realizado pelos colaboradores, podem ser interpretados como ruídos. Podemos dizer que um ruído, na maioria das vezes, é um som indesejável, que interfere, que incomoda e nos impede de ouvir outro som mais desejado. O ruído, de certa maneira, é destruidor do que gostaríamos de estar ouvindo. Na hemodiálise, o desafio dos arte-educadores é o de “desalojar o outro som” ou sobrepor-se a ele durante a ação (vide o quadro).

 

 

De modo similar, as estratégias de narração de histórias, envolvendo contos tradicionais e histórias de vida dos pacientes, também podem colaborar com o fortalecimento do grupo e, assim, melhorar o ambiente de convívio, uma vez que favorecem a comunicação.

RESULTADOS
A experiência realizada na hemodiálise nos mostrou como a arte de contar histórias e a música ajudam a trabalhar situações conflitantes, auxiliam a amenizar o sofrimento do paciente e contribuem realizando ações que ajudam a promover a saúde psíquica e emocional do paciente e do ambiente. É uma arte instigadora, capaz de colaborar com o processo de humanização do ambiente hospitalar.

As histórias fazem parte do processo de comunicação entre os seres humanos. Por meio delas, as pessoas interagem, possibilitando o exercício crítico do sujeito com relação ao mundo. Nesse sentido, identifica-se que a narração de histórias deixa profundas marcas em quem as ouve, de forma que pode alterar o estado emocional e físico do paciente.

Por meio da imaginação e do processo co-criativo entre pacientes e arte-educadores, o paciente reorganiza os elementos provenientes de suas experiências passadas, dando-lhes novas formas e projeções futuras.

 

Voluntário da Arte Despertar, cantando em uma sessão de hemodiálise. (© Stela Handa ⁄ Arte Despertar)

 

CONSIDERAÇÕES
As intervenções artísticas por meio da narração de histórias e da música contribuíram efetivamente para a modificação deste ambiente, colaborando inclusive para a qualidade das relações entre pacientes-profissionais da saúde, paciente-paciente e paciente-arte-educadores.

A arte neste caso possibilitou alterações comportamentais nos pacientes da Unidade de Hemodiálise como também alterações físicas e clínicas, como diminuição de ansiedade e estresse.

Considerando que temos a arte como linguagem para estabelecer um diálogo, durante o atendimento percebemos que, de fato, esse diálogo acontece efetivamente. O paciente sensibilizado participa, age corporalmente, comunica-se e estabelece, em alguns casos, uma conversa muitas vezes relacionada às suas memórias e história de vida.

Concluímos que estas ações contribuem de forma eficaz para a ambiência do setor de hemodiálise, porém é importante que ações artísticas e educativas, como também o modo de atuar nestas áreas hospitalares, sejam investigadas, incluídas nas políticas públicas da saúde e aprimoradas na continuidade deste e de outros projetos que visam trabalhar a saúde de um ponto de vista humanizado.

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SOBRE OS AUTORES
André Pereira Lindenberg – Graduação em Musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes, 2009. Músico terapeuta e arte-educador da Associação Arte Despertar.

Jean-Jacques Armand Vidal – Doutorado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-Unesp). Tem experiência na área de artes, psicologia e educação. Psicólogo na associação Arte Despertar

Kátia Cilene Oliveira da Silva – Articuladora da Humanização do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo (HCFMUSP). Graduação em Pedagogia pela Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), 2016, e em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano, 2008. Especialização em Educação Ambiental pelo Senac Rio de Janeiro, 2010, e Gestão Integrada da qualidade, Meio Ambiente, Segurança e Saúde no Trabalho e Responsabilidade Social pelo Senac São Paulo, 2012.

Kelly Jardim – Especialização em arteterapia aplicada a saúde, artes, educação e organizações pela Universidade Paulista, 2013. Arte Educador da Associação Arte Despertar.

Nísia do Val Rodrigues Roxo Guimarães – Assistente Social, Coordenadora do Grupo de Trabalho de Humanização do Instituto Central do Hospital das Clínicas (ICHC). Pós-Graduada em Hotelaria Hospitalar (2006). Organizadora do livro: Hotelaria Hospitalar: uma visão interdisciplinar – Editora Atheneu – 2006.

Sandra Papesky Sabbag – Doutorado em Educação (Psicologia da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004. Professora do Centro Universitário Ítalo-Brasileiro e pedagoga da Associação Arte Despertar.

Sarah Elisa Viana – Graduação em Comunicação das Artes do Corpo com habilitação em Dança e Teatro. Atua como narradora de histórias na Associação Arte Despertar.

FOTO DE ABERTURA: © Stela Handa ⁄Arte Despertar

*Arte Despertar
<www.artedespertar.org.br>.

 

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