3ª Marcha pela Ciência

Objetivo é reivindicar mais visibilidade e credibilidade para a ciência

MAIS UM PASSO NO APRENDIZADO
Vanderlan da Silva Bolzani

A Marcha pela Ciência realizada no dia 8 de outubro, um domingo, na avenida Paulista, foi um avanço do movimento que busca sensibilizar a população, e governantes, sobre o que está acontecendo com a área de ciência, tecnologia e inovação. É a terceira vez que a comunidade acadêmica vai às ruas, mobilizando agora cerca de mil pessoas, como registraram os veículos de comunicação. Sob o clima positivo que a avenida inspira, o encontro representou um estímulo especial para os que estão empenhados em impedir o retrocesso provocado pelos cortes no orçamento da área de CT&I.

A falta de investimentos sem precedentes tem sido um aprendizado que foge aos padrões convencionais das salas de aula e dos laboratórios das universidades, e nos obriga a olhar para as relações de poder na esfera da política de forma mais pragmática. Espaço que, com frequência, procuramos ignorar. Nesse processo de aprendizado, muitos estão sendo levados a refletir sobre temas básicos do estado brasileiro. Inclusive sobre a incapacidade do país de preservar seu patrimônio cultural e científico, pela inexistência de um arcabouço legal e de regras estabelecidas para dotação de recursos destinados a ciência e tecnologia.

O aprendizado pode também levar a uma certa crise de identidade. Se a sociedade valoriza o desenvolvimento científico e tecnológico, e seus benefícios, como mostram as pesquisas, por que é necessário ir à avenida Paulista chamar a atenção das pessoas para sua importância? Não é fácil entender essa realidade, mas é o primeiro passo para agir sobre ela e tentar revertê-la antes do desmantelamento do que foi construído. Um dos fatos que obscurece sua compreensão é a rapidez das mudanças ocorridas nas últimas três décadas, tornando difícil sua assimilação. Parte dos pesquisadores e docentes da geração pós 1980, por exemplo, não conta com referências da linha do tempo das décadas anteriores para fazer comparações. E a parte que detém essa experiência talvez não tenha se empenhado o suficiente para que ela não fosse esquecida.

Quando se analisam os avanços do trabalho de pesquisa científica pela ótica da sociedade em geral, esses resultados parecem ser pouco visíveis, ou, quando notados, vistos como algo “natural” e não fruto de esforços que levaram décadas para sua concretização. Profissionais do campo de CT&I, quase sempre da universidade, compromissados com docência, pesquisa e extensão, ainda têm uma presença discreta ou pouca visibilidade no painel que compõe o imaginário da sociedade.

Não se pode, ao mesmo tempo, perder a perspectiva do que significam algumas das “rápidas mudanças” imprimidas pelos novos governantes com seus cortes seletivos, em busca da austeridade fiscal, em outros setores. Camadas da população para quem algumas dezenas de reais podem significar a diferença entre alimentação e subnutrição, estão sendo vítimas dos cortes de orçamento de políticas públicas.

A marcha do dia 8, entretanto, pode ser um bom sinal de que o aprendizado já começou e nos motiva a continuar a jornada com disposição em busca desses objetivos.

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PREOCUPAÇÃO, ENGAJAMENTO E COMPROMISSO
Carlos F. O. Graeff

Ocorreu, domingo, dia 8 de outubro, a partir das 15 h, em frente ao Museu de Arte de São Paulo – MASP (Av. Paulista, 1578), a 3.ª Marcha pela Ciência, movimento que, a partir do presente ano, vem reunindo cientistas e pesquisadores do estado de São Paulo para reivindicar mais visibilidade e credibilidade para a ciência.

Esses eventos têm por objetivo protestar contra a atual situação de desmonte da estrutura pública de Ciência e Tecnologia, que envolve universidades e institutos de pesquisa, como se pode verificar pelos cortes orçamentários na área de Ciência e Tecnologia previstos pelo governo federal para 2018 e pelos já realizados pelo governo do estado de São Paulo em 2017.

É imprescindível que se mantenha uma estrutura adequada de investimentos públicos para evitar uma perda irrecuperável

Em um momento em que o país busca mais qualidade e visibilidade internacional para a pesquisa e a inovação nele produzida, é imprescindível que se mantenha uma estrutura adequada de investimentos públicos para evitar uma perda irrecuperável a pequeno, médio e longo prazo. Desse modo, é fundamental a participação efetiva da comunidade científica nessa Marcha, como forma de demonstrar nossa preocupação, engajamento e compromisso com a qualidade da Ciência e da Tecnologia no Estado de São Paulo e no Brasil.

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AUTORES

Vanderlan da Silva Bolzani é professora titular do IQAr Unesp, vice-presidente da Fundunesp e da SBPC.
Publicado originalmente no Jornal da Ciência <goo.gl/NwdhZz>.

Carlos F. O. Graeff, pró-reitor de Pesquisa da Unesp, é professor da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru.
Maiores informações podem ser obtidas na página da Marcha pela Ciência no Facebook.
Repercussão em O Estado de S. Paulo <goo.gl/96w41N>.

FOTO: © Facebook/marchapelacienciasp

 

 

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