“Crimes perfeitos não deixam suspeitos…”

Em 1968, a Cidade do México foi palco de uma das mais polêmicas Olimpíadas de todos os tempos

As manifestações de junho de 2013 inspiraram muitos jovens. Parecia ressurgir um espírito rebelde que lembrava fatos vividos no ano de 1968. Um destes é emblemático: a postura corajosa e revolucionária de dois jovens negros que colocaram em xeque sua carreira como atletas olímpicos. O motivo? Defendiam uma causa que ainda assombra o nosso país: a luta contra o racismo.

O mundo daquela década era um caldeirão prestes a entrar em ebulição. Nos EUA, o governo Lyndon Johnson continuava com as chacinas na Guerra do Vietnã, no mesmo momento em que era assassinado por um racista branco o líder negro Martin Luther King Jr. Na América Latina, as ditaduras militares tentavam silenciar a sociedade. No Brasil ocorria a passeata dos 100 mil contra os militares que, mais tarde, por meio do ditador Costa e Silva decretariam o AI-5, consolidando o governo autoritário. Na Europa, regimes abusavam da ortodoxia, como o general De Gaulle, na França, ou então do radicalismo socialista no Leste Europeu. No Vaticano, o papa Paulo VI condenava o uso de anticoncepcional. As manifestações daquele ano, lideradas principalmente pela juventude, giraram em torno da quebra do status quo, do arcaísmo da sociedade avessa ao papel ativo da mulher, que vivia as guerras, o racismo e toda a sorte de autoritarismos. Homens, mulheres, negros e brancos pediam “paz e amor”, lema consagrado pelos hippies. Um dos maiores símbolos do comportamento dos jovens daquela época foi a realização do “Woodstock” em 1969, nos EUA.

Em 1968, a Cidade do México foi palco de uma das mais polêmicas Olimpíadas de todos os tempos. Dois negros norte-americanos, Tommie Smith e John Carlos, disputaram as finais dos 200 m rasos no atletismo. Os dois almejavam mais do que a medalha de ouro. Além de terem alcançado o primeiro e terceiro lugares, respectivamente, a vitória de ambos estava reservada para outra luta. No momento da entrega das medalhas, os dois protagonizaram uma das cenas mais brilhantes do esporte mundial: as mãos erguidas e os punhos cerrados representavam o gesto dos “Panteras Negras”, grupo que lutava contra a segregação racial nos EUA. Sem tênis, com meias e luvas pretas, simbolizando a pobreza dos negros, John e Tommie marcaram posição para sempre. O gesto irritou dirigentes esportivos, que achavam que os jogos não poderiam ser contaminados com ideias políticas.

O resultado – John foi expulso dos jogos, seu nome jamais esteve presente no Hall of Fame da Federação de Atletismo nos EUA. Os dois foram proibidos de competir e passaram para o ostracismo, sofrendo graves prejuízos econômicos. Tommie trabalhou em um lava a jato. Para superar as adversidades e o próprio sistema, buscou conhecimento, tendo feito Ciências Sociais, adquirindo, mais tarde, o título de Doutor em Sociologia do Esporte, tornando-se referência no assunto. Quarenta e cinco anos depois do gesto, os negros norte-americanos conquistaram direitos plenos, formaram uma elite econômica, elegeram um presidente.

Essa imagem de Tommie Smith e John Carlos vem à tona nos dias de hoje com os vários casos de racismo que vêm ocorrendo no Brasil, seja no futebol ou então em fatos corriqueiros de nosso cotidiano, como ocorreu com a manicure que sofreu ofensas raciais de uma australiana. Por que ainda hoje episódios como o do jogador Tinga em partida no Peru; do Arouca, em Mogi Mirim, e com o árbitro Márcio Chagas, no Sul ainda acontecem? Por quais motivos torcedores insistem em imitar macacos quando um negro está em campo?

 

Da esq. para a dir.,Peter Norman (2º lugar – Austrália), Tommie Smith (1º lugar – EUA) e John Carlos (3º lugar – EUA). (© tommiesmith.com)

Causa estranhamento o peruano, mestiço, insultar um negro brasileiro. Vale ressaltar que os incas, povo pré-colombiano andino e que deixou heranças no Peru, acreditavam em sua superioridade em relação aos outros índios, mas foram vítimas do próprio veneno, sendo destruí-dos por Pizarro e sua colonização espanhola. A ignorância não escolhe cor e nem povo.

Existem algumas respostas para essas questões. O esporte é uma sociedade dentro da sociedade. O que você vê no esporte, você vê na sociedade. A competição, o materialismo, em que “tudo vira mercadoria”, roupas, acessórios, jogadores… Nada mais óbvio que, do ponto de vista das relações esportivas, os jogadores e os próprios torcedores tragam para dentro dos estádios e campos o que ocorre na sociedade como um todo – toda a forma de preconceitos existentes.

Alguns dirão: “No esporte vale tudo para desestabilizar o adversário”. Seria isso pertinente quando se trata de homofobia e racismo? Então quer dizer que não se pode educar no futebol? Punem-se clubes exemplarmente com rebaixamento por escalar jogador irregular. Jogadores violentos são suspensos. Torcedores são presos por invadirem CTs e por brigas entre torcidas. E jogadores, clubes ou torcedores não podem ser presos por racismo? Nossa sociedade é hipócrita!

Em 1968, a Cidade do México foi palco de uma das mais polêmicas Olimpíadas de todos os tempos

O primeiro passo a ser dado em direção ao combate do racismo é assumir que somos um país racista! Devemos destruir o mito da democracia racial criado na década de 1930 por Gilberto Freyre, o qual idealizou um país miscigenado que desconhecia quaisquer tipos de preconceitos raciais. Fomos educados dessa maneira, a negar o racismo histórico. Essa falácia ainda permeia as relações sociais no Brasil, criando uma ilusão de que somos um povo respeitoso e que aceita as diferenças.

O racismo no Brasil está nas entrelinhas, é subliminar, se esconde debaixo do tapete da Casa-Grande brasileira que demorou 125 anos pós-Lei Áurea para reconhecer os direitos trabalhistas das domésticas. O racismo brasileiro é sutil, velado, mas machuca como aquele explícito de tempos passados nos EUA e na África do Sul. Infelizmente, o altruísmo não está em moda entre nós, desconhece-se a máxima de Martin Luther King Jr.: “O que afeta o outro diretamente, me afeta indiretamente”. Prove-se que não existe racismo no Brasil! O negro é a maior vítima da violência, sofre a abordagem policial diferente, vive menos, está menos presente nas Universidades, sofre com o analfabetismo, ganha menos que o branco e está presente em maior número nas penitenciárias. Onde estão os políticos negros? O sociólogo Eduardo Galeano afirmou: “Quase 400 anos de escravidão pesam sobre uma sociedade”.

O brilhante professor da USP Kabengele Munanga comentou uma pesquisa de 1995 feita pela Folha de S. Paulo, que indagava: “Existe racismo no Brasil?” Cerca de 80% disseram que sim, mas as mesmas pessoas disseram que “jamais praticaram racismo”. Para o professor, “O racismo brasileiro é um crime perfeito. Ele rejeita a culpa e a coloca na própria vítima. Porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema”, ou seja, para o senso comum, existe racismo, mas os racistas são os próprios negros. Não se reconhecem as limitações constitucionais históricas e muito menos que o processo da escravidão deixou marcas indeléveis em nossa sociedade. Embora, desde 1951, com a Lei Afonso Arinos, o racismo tenha-se tornado crime inafiançável, muito precisa ser feito.

 

Em 14 de abril de 1967, Martin Luther King Jr. visitou a Universidade de Stanford e deu uma palestra intitulada The Other America (A outra América) no Memorial Auditorium. (© Stanford University News Service)

 

O silêncio da sociedade, principalmente da mídia e de políticos, só colabora para a manutenção do “crime perfeito” brasileiro. As ações sempre valerão mais do que palavras. Se quisermos construir a mudança, temos que agir para ela ocorrer. Devem ser punidos exemplarmente jogadores, torcedores e clubes que afirmarem as práticas racistas. Em contrapartida, os atletas que sofrerem esse tipo de injúria devem se inspirar em Tommie Smith e John Carlos para tomar as atitudes que forem necessárias para que essas práticas desapareçam, nem que para isso sejam tomadas medidas extremas, como greve e boicote a estádios que tenham sido palco de racismo. Concomitantemente, uma nova educação deve ser pensada, na qual seja destruída a perspectiva eurocêntrica e se valorizem as tradições e identidades afro-brasileiras.

Se isso não for feito, continuará ecoando pelo nosso país a famosa frase de Martin Luther King Jr.: “Aprendemos a voar como pássaros, a nadar como peixes, mas não aprendemos a viver como irmãos”.

_________________

TEXTO: Vladimir Miguel Rodrigues é professor e escritor. Bacharel em Letras/Tradução pela Unesp e Licenciado em Filosofia pelo Claretiano. Mestre e doutorando em Letras pela Unesp. É autor do livro O X de Malcolm e a questão racial norte–americana (Editora Unesp).

 

 

 

Deixe uma resposta

*