A força do querer e Onerat: duas operações articuladas

Estado precisa de ação ideológica que justifique sua prática

No sábado 5 de agosto, às 4:30 h, a polícia ocupou favelas da zona norte do Rio de Janeiro (Complexos do Lins e Camarista Méier, da Covanca e no Morro São João), enquanto 3.600 efetivos das Forças Armadas cercavam a região ocupada. Participaram também a Força Nacional e as Polícias Civil, Militar, Federal e Rodoviária Federal, completando 5.000 agentes. A justificativa era uma ação contra roubo de cargas que é realizado pelo tráfico. Segundo levantamento de María Martins (2017), registraram-se ao redor de 5 mil ocorrências desse delito no primeiro semestre deste ano. A megaoperação é parte da segunda fase do Plano Nacional de Segurança. Como resultado da ação, segundo dados oficiais, a polícia cumpriu 15 ordens de captura, sendo que nove dos procurados já estavam na cadeia, três pessoas foram presas em flagrante e houve 2 menores detidos (Jornal do Brasil, 2017). Duas pessoas morreram em confronto, um com a Polícia Militar e outro com a Polícia Civil. Foram apreendidos três pistolas, quatro granadas, três radiotransmissores, uma moto e 16 carros, quatro quilos de cocaína e 13 de maconha. Um sargento da polícia morreu num acidente com uma viatura do Batalhão de Ação com Cães, que também deixou um cabo e dois presos feridos (ALBERNAZ, 2017).

O Plano Nacional de Segurança já previa o envio de 8.500 membros das Forças Armadas e 620 agentes da Força Nacional, além de efetivos de outras forças, o que completa um total de 10 mil agentes. O deslocamento de tropas para o Rio de Janeiro foi autorizado por decreto do presidente Michel Temer, em decreto assinado dia 28 de julho. A operação do sábado 5 de agosto faz parte da segunda fase do plano no Rio de Janeiro, batizada de “Onerat” (do latim: “carga”). O comando da “Onerat” pretendia surpreender os traficantes do Lins durante o baile funk de sexta-feira, mas os policiais não encontraram muitos “soldados” do tráfico na guarda do evento (ALBERNAZ, 2017).

A força do querer
No capítulo de sexta-feira, 4 de agosto, a telenovela A força do querer, com dramaturgia de Glória Perez, apresentou no seu enredo uma grande operação no Morro do Beco, no Rio de Janeiro, dirigida por uma das personagens “do bem”: a policial Jeiza Nascimento Rocha, interpretada pela atriz Paolla Oliveira. A comandante da ação consulta sua tropa antes do início da operação se alguém tem “algum problema físico ou psicológico que dificulte nossa incursão na comunidade?” (Capítulo nº 106, 2017). Todos respondem que estão dispostos à missão. Ainda pede para agir com prudência: “Prefiro sair no 0 x 0 do que ganhar de 10 x 1”. A comandante desembarca de uma viatura do Batalhão de Ação com Cães e vai em frente. O deslocamento dentro do território é tenso, apresentado com planos relâmpago e trilha de suspense dramático. Ouve-se a respiração de Jeiza que olha pra cima na curva de uma escada estreita. A câmara subjetiva primeiro vai passando de contra-zenital para contra-picado e depois para plano frontal, num primeiro momento desfocado, mas vai se ajustando: na mira, uma mulher de meia-idade sentada na escada com as mãos para cima e olhar assustado. Jeiza lhe diz: “fica tranquila, senhora”. E continua sobindo a escada. Num dos cortes, a polícia entra, pé na porta, na casa de Rubinho, um emergente do tráfico, e acha atrás dos estilhaços apenas a esposa, Bibi, interpretada pela atriz Juliana Paes. Ela explica que o marido é bandido, está casada faz dez anos com ele e não tem o que fazer. Os policiais se retiram.

O objetivo da operação é encontrar o paiol do tráfico. Jeiza, sem se separar de Aron, o cão farejador, o descobre num depósito e respira aliviada por não ter havido baixas.

 

Jeiza (Paolla Oliveira) em operação policial no morro em A Força do Querer. (© Raquel Cunha/TV Globo)

 

No ponto mais alto da “comunidade”, o “chefe do morro”, Sabiá, interpretado por Jonathan Azevedo, entra em contato com a comandante pelo transmissor apreendido. A desafia, diz que derruba helicóptero, que tem armamento sofisticado. Ela responde com extremo autocontrole: “Falou o que você tinha pra falar? O que eu tinha que fazer, eu já fiz. E o que é teu está guardado”.

Rubinho, interpretado por Emílio Dantas, chega à laje na qual está o chefe e os dois discutem. Rubinho avalia como erro a concentração das armas num paiol. Sugere que as armas estejam distribuídas nas casas dos “soldados” e a descentralização das atividades, para garantir a continuidade dos negócios. Depois de um olhar torvo de 40 segundos, que mantém em suspense sua reação, fazendo suspeitar uma explosão de ira, Sabiá frustra a expectativa e aceita a solução.
A operação policial foi concluída com êxito: apreenderam 100 fuzis sem qualquer baixa, mesmo não tendo feito muitas prisões. Na mesma semana, Jeiza tinha intervido com sucesso na apreensão de carga roubada. A comandante se reporta ao secretário de Segurança Pública, o advogado Caio, interpretado por Rodrigo Lombardi. Nas cenas com a policial, sempre aparece inseguro, sempre um passo atrás na eficiência que a tarefa requer. Contrasta com a firmeza e segurança da profissional. Ele namorou Bibi, agora casada com Rubinho, muitos anos atrás. Jeiza informa que não encontraram o traficante, foragido e escondido no Morro do Beco, mas sim a esposa dele. No drama televisivo, o coração do advogado está em disputa numa dividida entre seu amor juvenil e a policial.

O deslocamento de tropas para o Rio de Janeiro foi autorizado por decreto do presidente Michel Temer, assinado dia 28 de julho

A personagem Bibi foi inspirada no texto autobiográfico de Fabiana Ferreira: Perigosa. No Capítulo nº 107, e mesmo depois do episódio da busca na sua casa, ela se oferece para substituir o marido, visado demais, no transporte de armas.

Operações mediáticas
Em coletiva de imprensa realizada na manhã do sábado, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Roberto Sá, negou que tivesse havido qualquer vazamento a propósito da operação. Justificou o número pífio de armas apreendidas com nova logística do tráfico, que teria acabado com a concentração das mesmas num paiol, descentralizando a localização do armamento. Nem ele nem o general Carlos Alberto Santos Cruz, da Secretaria Nacional de Segurança Pública revelaram o valor gasto na operação. Na manhã do domingo, dia 6 de agosto, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse:

“Não foi um resultado espetacular, foi um resultado que eu considero razoável. Agora, existe uma coisa chamada curva de aprendizagem, e o que é importante é que nós vamos estar melhorando a cada operação que vai continuar se realizando. Acredito que os resultados irão aparecendo com o tempo e que nós vamos construindo cada vez mais uma capacidade de inteligência, uma capacidade operacional, uma capacidade integrada, que fique evidente para a população do Rio de Janeiro que ela não está mais só.” (apud ALBERNAZ, 2017)

Ainda completou: “Nós temos um macro-foco nesse momento que é a questão das armas”. Isto é, a ação está apenas começando.

A cronologia entre os capítulos da novela, a ação policial-militar, e a coletiva de imprensa é indício de uma operação conjunta dirigida à opinião pública. Tamanha mobilização militar, sem dúvida dispendiosa, sem grande eficácia imediata, considerando os objetivos publicados, parece ter sido parte de uma ação propagandística. O êxito da ação na novela deve-se ao diagnóstico confirmado da existência de um paiol que concentra as armas. E a modificação na logística do tráfico é anunciada. No dia seguinte, a ineficácia da ação policial é justificada na coletiva de imprensa justamente pela mudança da logística do tráfico.

A utilização precisa feito mecanismo de relógio da novela de horário nobre em operação ideológica é novidade

Ora, não é crível que a dramaturga Glória Perez houvesse se antecipado à inteligência policial no diagnóstico das práticas do tráfico. Esse conhecimento teria evitado uma ação dispendiosa sem efeito prático. Parece, mais bem, que o Capítulo nº 106 se articula com a operação na zona norte do Rio de Janeiro e com a coletiva de imprensa numa ação propagandística destinada a justificar um segundo momento da ação repressiva que inclua a incursão da polícia em buscas casa por casa, estilo “ancinho”.

Na novela, a ação é extremamente respeitosa com os moradores. Segundo dados recolhidos no anuário Atlas da Violência 2017 (CERQUEIRA, LIMA et al), publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Rio de Janeiro só perde para São Paulo em número de mortes decorrentes da ação policial. Segundo informações do Instituto de Segurança Pública, no primeiro semestre de 2017, houve, no Rio de Janeiro, 577 casos de “auto de resistência”. Configura um aumento de 45% em relação ao primeiro semestre de 2016 e é o crime que mais cresceu (G1, 2017). As organizações de direitos humanos colocam sob suspeita a figura de “resistência seguida de morte”, que costuma ser o registro com que se justifica a letalidade da polícia.

No contexto de temor à “insegurança” da população não favelada, a criminalização indiscriminada dos moradores da favela, apresentada como foco dessa insegurança, não se instala. A saga dos filmes sobre a repressão ao tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro de José Padilha apresentava os moradores como vítimas do fogo cruzado (ADOUE, 2012), mas, para investigar casa por casa, é preciso apresentar a casa do morro como suspeita. Portanto, o Estado precisa de uma ação ideológica que justifique um tipo de prática que vasculhe cada canto da favela, à maneira do tristemente conhecido Batalhão de Paraquedistas francês durante a guerra colonial no bairro da Casbah, na cidade de Argel. A novidade, um tanto assustadora, é a utilização precisa feito mecanismo de relógio da novela de horário nobre nessa operação ideológica.

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REFERÊNCIAS

ADOUE, Silvia. Tropa de Elite e as narrativas da violência. In: Passagens de Paris, Vol. 7, 2012, p. 2013-222.

ALBERNAZ, Bruno. Ministro da Defesa considera resultado da Operação Onerat “razoável”. In: G1, 6/8/2017, disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/ministro-da-defesa-considera-resultado-da-operacao-onerat-razoavel.ghtml>. Acessado em: 7/8/2017, às 10:33.

CERQUEIRA, Daniel; LIMA, Renato Sergio de et al. Atlas da violência 2017. Rio de Janeiro: IPEA, FBSP, 2017.

ESCOBAR, Fabiana. Perigosa. Rio de Janeiro: Perse, 2013.

G1. RJ teve o primeiro semestre mais violento dos últimos três anos, diz ONG. In: G1, 1/8/2017, disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/rj-teve-o-primeiro-semestre-mais-violento-dos-ultimos-tres-anos-diz-ong.ghtml>. Acessado em: 7/8/2017.

JORNAL DO BRASIL. Operação no Rio acaba com mito de crime organizado e poderoso, diz ministro. In: Jornal do Brasil, 7/8/2017, disponível em: <http://www.jb.com.br/rio/noticias/2017/08/05/operacao-no-rio-acaba-com-mito-de-crime-organizado-e-poderoso-diz-ministro/>. Acessado em: 7/8/2017.

MARTINS, María. No Rio, megaoperação com as Forças Armadas nas favelas tem só nove presos. In: El País, 6/8/2017, disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/05/internacional/1501948146_294926.html>. Acessado em: 6/8/2017.

PEREZ, Gloria. Capítulo nº 106. In: A força do querer, 4/8/2017, disponível em: <https://tabonitobrasil.com/inicio/assistir-forca-do-querer-04082017-capitulo-106/>. Acessado em: 7/8/2017.

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TEXTO: Silvia Beatriz Adoue é professora da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

FOTO: Na foto, no Rio de Janeiro, Forças de segurança ocupam ruas próximas ao Complexo do Lins, na zona norte da capital fluminense na Operação Onerat para coibir roubos de cargas e o crime organizado. (© Tomaz Silva/Agência Brasil)

 

 

 

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