Modelos de produção sustentáveis

Doutorando da Unesp relata estágio realizado na França

Em outubro de 2016 iniciei um estágio sanduíche na Unité Mixte de Recherche « Espaces et Sociétés » (UMR ESO 6590), localizada na Le Mans Université, cidade de Le Mans, França, sob a supervisão do Prof. Dr. François Laurent. Durante o estágio, que teve duração de 10 meses (1 de outubro – 31 de julho), desenvolvi a pesquisa intitulada: “Des processus de transition vers des agricultures plus écologiques en France: progrès technique et défis socio-environnementaux dans le contexte du développement durable” (Processo FAPESP 2016/11130-0), que teve como objetivo analisar os limites, contradições e potencialidades das iniciativas de transição para modelos de produção mais ecológicos implementadas na agricultura francesa, tais como a “agriculture durable” (agricultura sustentável, tradução livre), a “agriculture de conservation” (agriculture de conservação) e a agriculture biologique (agriculture orgânica). Nossos estudos se concentraram nas estratégias de aprendizagem implementadas a partir da troca de conhecimentos, técnicas e experiências entre agricultores que pertencem a redes densas e diversificadas implicadas na busca pela sustentabilidade dos sistemas de produção agrícola, tais como a “Association pour la promotion d’une Agriculture Durable” (APAD), a “Association Biodiversité Agriculture Sol et Environnement” (BASE) e a “Réseau Agriculture Durable” (RAD).

Considerando que os processos de modernização agrícola na França apresentam impactos socioeconômicos e socioambientais semelhantes aos observados no Brasil, o estudo das iniciativas de transição para modelos de produção agrícola mais ecológicos desenvolvidos naquele país pode trazer contribuições importantes para as iniciativas que são desenvolvidas atualmente em diferentes regiões do território brasileiro.

A pesquisa foi desenvolvida a partir da participação e imersão no meio acadêmico e científico da Le Mans Université e da UMR ESO, coleta e análise de dados e informações de fontes secundárias, participação em assembleias, conferências e encontros destinados a troca de experiências, conhecimentos e técnicas de produção agrícola (journées techniques e tours de plaine) realizados pelas redes APAD, BASE e RAD, assim como por meio de entrevistas realizadas com os produtores rurais pertencentes a essas redes. Foram entrevistados 13 produtores, dos quais cinco exercem a atividade de pecuária leiteira e oito são cerealicultores (especializados no plantio de trigo, milho, colza, cevada etc.), localizados nos departamentos de Eure-et-Loir, Loir-et-Cher e Sarthe (região noroeste do país).

A partir dessas atividades (vide mapa), pudemos constatar que a organização dos produtores em redes como APAD, BASE e RAD constitui uma importante estratégia para a execução segura, flexível e eficiente de um processo de transição para modelos de produção mais ecológicos, possibilitando-lhes mitigar ou mesmo eliminar as múltiplas dificuldades que encontraram ao executá-lo individualmente e os vários riscos relacionados às mudanças nas técnicas e manejos produtivos. As dinâmicas coletivas engendradas por estas redes são um fator chave para a aquisição de novos conhecimentos e práticas agrícolas e sociais inovadoras, o que favorece a construção de sistemas de produção mais resilientes, autônomos e econômicos em termos de uso de insumos externos. Ademais, considerando que os produtores se encontram em geral isolados geograficamente durante os processos de transição, fazer parte de uma rede que conta com membros provenientes de outras regiões, que são mais experientes e possuem os mesmos objetivos e expectativas, favorece o fortalecimento e o aprimoramento de sua capacidade de intervenção durante o percurso de mudanças técnicas.

Pesquisa foi desenvolvida a partir da participação e imersão no meio acadêmico e científico da Le Mans Université e da UMR ESO

Nestas redes, os produtores não se encontram mais na condição de profissionais individualistas, passivos e submetidos às prescrições técnicas das organizações profissionais agrícolas, o que Darré (1985) denomina por “simples receptores de informação”, como eram considerados no modelo de difusão de inovações utilizado durante a modernização da agricultura francesa na segunda metade do século XX. Em organizações coletivas, estes produtores se tornam protagonistas chave de processos de diálogo e de compartilhamento de experiências e de saber-fazer, se assistem e se influenciam mutuamente, trocam informações e argumentos a favor ou contra determinadas mudanças nos sistemas produtivos, procuram estabelecer novas regras técnicas e discutem os fatores de êxito e de fracasso experimentados em suas unidades de produção agrícola. Organizados em rede estes atores estabelecem interações sociais de co-construção de conhecimentos das coisas e da realidade, de produção de modos de descrever e avaliar as informações e as técnicas que são por eles compartilhadas e de elaboração de novos sistemas de normas para o bom andamento da transição para modelos de produção mais ecológicos. Desse modo, estes produtores são parte integrante do que Darré denomina por “redes pensantes”: meio de se desenvolver o diálogo, a comunicação de informações, experiências e influências recíprocas, pelas quais a atividade social do pensamento é reproduzida.

 

No mapa são identificadas as cidades onde ocorreram os eventos promovidos pelas redes estudadas e onde realizamos as entrevistas com os produtores rurais franceses.

 

Ademais, convém ressaltar que estas redes são espaços de compartilhamento e discussão tanto dos saberes empíricos de seus membros quanto de conhecimentos científicos, seja por meio da participação de pesquisadores nos eventos por elas organizados ou pela divulgação e debate de seus estudos nos canais de comunicação (revistas e jornais agrícolas) e redes sociais online. Ou seja, trata-se também de um processo de hibridação entre o saber-fazer dos produtores rurais e os conhecimentos científicos produzidos nas universidades e centros de pesquisa, os quais não se encontram mais em uma relação hierarquizada como ocorria até bem recentemente, mas em uma relação marcada por uma abordagem mais dialógica, simétrica e horizontal, construindo novas vias e meios para se atingir um equilíbrio mais sustentável entre a atividade agrícola e a conservação dos recursos naturais e da biodiversidade.

Produtores passaram a adotar medidas visando respeitar e desenvolver o funcionamento natural do solo e a gestão integrada de sua estrutura

A partir de uma perspectiva de análise geográfica, tais redes contribuem para a reapropriação do espaço e para o fortalecimento de seu dinamismo social, econômico e político, o que se observa pela reorganização espacial dos sistemas de produção, pela implementação de novos circuitos de produção e comercialização e pelas novas relações entre cidade e campo, o que resulta em mutações significativas no conjunto de territórios onde estas redes operam.

No que diz respeito aos sistemas de produção em “Agriculture Durable”, as principais mudanças realizadas ao longo do período de transição foram: conversão das terras cultivadas com cereais (especialmente o milho) em áreas de pastagem com gramíneas, leguminosas e proteaginosas (algumas explorações agrícolas tinham 80% de sua área cultivada com milho e 20% com pastagens, após a conversão houve uma inversão desses valores: 80% em pastagem e 20% em milho), substituição do confinamento dos animais pelo pastoreio extensivo e redução do consumo de suplementos alimentares.

Em relação aos sistemas em “Agriculture Biologique”, os produtores realizaram a substituição total de insumos sintéticos (fertilizantes e pesticidas) por produtos naturais e pela luta biológica integrada, selecionaram variedades mais resistentes às doenças e às variações climáticas, aumentaram e diversificaram a rotação de culturas, substituíram o tratamento com antibióticos por sessões de acupuntura e uso de óleos essenciais etc.

E no que diz respeito aos sistemas em “Agriculture de Conservation”, os produtores passaram a adotar medidas visando respeitar e desenvolver o funcionamento natural do solo e a gestão integrada de sua estrutura física, fertilidade química e vida biológica. Para isso, adotaram, de modo simultâneo e integrado, três medidas principais: redução progressiva da aração do solo (labour), cobertura permanente do solo por culturas intermediárias e por resíduos de culturas, associação e rotação diversificadas de culturas. O objetivo principal dessas mudanças é obter um solo com mais atividade biológica (minhocas, insetos, bactérias, fungos etc.), com alto teor de matéria orgânica e de nutrientes, o que permite às culturas agrícolas resistirem melhor às doenças e pragas, assim como reduz sensivelmente os processos erosivos, a transferência de fertilizantes sintéticos e pesticidas para os recursos hídricos e aumenta o sequestro de carbono no solo (contribuindo para a redução da emissão de gases do efeito estufa pela agricultura).

 

Plantação de milho no sistema de Agricultura de Conservação: feita a partir do plantio direto na palha com a manutenção de resíduos vegetais em superfície. Thoigné, França. Junho de 2017. (© Raphael Fernando Diniz)

 

Os progressos obtidos a partir das iniciativas de transição para estes modelos de produção são significativos: os produtores entrevistados conseguiram reduzir entre 10% e 100% o consumo de fertilizantes sintéticos e 50% e 100% de pesticidas, tais como fungicidas e inseticidas. Em termos de consumo de combustíveis fósseis (que contribuem para o aquecimento global) durante a realização das atividades agrícolas, a redução foi de 20% a 60%. Consequentemente, estes produtores obtiveram reduções expressivas nos custos de produção e no tempo de trabalho dedicado às atividades agrícolas, enquanto que o tempo dedicado à observação das lavouras e às formações técnicas aumentou em virtude de uma maior participação nas dinâmicas coletivas engendradas pelas redes às quais se vinculam.

Apesar dos avanços alcançados, produtores ainda encontram diversos desafios de ordem técnica e em termos de novos conhecimentos

Em relação aos rendimentos agrícolas, nos primeiros anos de transição houve uma queda entre 5% e 10% em todos os sistemas de produção, mas, à medida que os produtores foram adquirindo novos conhecimentos, experiências e técnicas, estes rendimentos foram retornando ao patamar anterior, ou até mesmo maior, das primeiras mudanças por eles implementadas.

Apesar dos avanços alcançados, estes produtores ainda encontram diversos desafios de ordem técnica e em termos de novos conhecimentos para uma melhor implementação das mudanças estruturais em seus sistemas de produção, o que reforça a importância da continuidade das ações desenvolvidas nas redes às quais se vinculam.

Conclui-se, por fim, que na busca pela construção de sistemas de produção mais autônomos, econômicos e resilientes, combinando desempenhos produtivos e ambientais satisfatórios, é preciso levar em consideração que não existem soluções gerais e receitas padronizadas que se configuram como panaceias para todos os espaços de produção, mas sim uma extrema diversidade de opções técnicas, econômicas, sociais, políticas, métodos e conhecimentos que se abrem frente às incertezas das mudanças e aos diversos e variáveis contextos socioespaciais, socioeconômicos e ambientais.

 

Debate entre agricultores da rede APAD durante sua assembleia anual. Rouillon, França. Fevereiro de 2017. (© Raphael Fernando Diniz)

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SOBRE O AUTOR
Raphael Fernando Diniz, estudante do quarto ano do curso de Doutorado em Geografia do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Faculdade de Ciência e Tecnologia (FCT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Presidente Prudente-SP, sob a orientação do Prof. Dr. Antonio Nivaldo Hespanhol. Bolsista Fapesp, processo 2013/25725-8.

Desde 2014 desenvolve uma pesquisa sobre o serviço extensionista realizado em comunidades de agricultores familiares, quilombolas e indígenas do Vale do Jequitinhonha mineiro (nordeste do estado de Minas Gerais) pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (EMATER-MG). A pesquisa é intitulada: “Diálogo de Saberes ou Monólogo do Conhecimento? A assistência técnica e extensão rural e as políticas de desenvolvimento dos territórios rurais no Vale do Jequitinhonha mineiro”, e tem por objetivo analisar as mudanças que vêm ocorrendo no serviço extensionista a partir da criação da Política Nacional de Assistência e Extensão Rural (PNATER) pelo governo federal em 2003/2004, em especial no que diz respeito à implementação de políticas públicas de desenvolvimento rural, à execução de ações voltadas para a transição agroecológica nos sistemas produtivos e à adoção de metodologias de ação mais dialógicas e participativas.

BIBLIOGRAFIA
DARRE, J.-P. Les dialogues entre agriculteurs : étude comparative dans deux villages français, (Bretagne et Lauragais). Langage et société, n. 33, 1985. p. 43-64.

FOTO DE ABERTURA: Na foto, “Journée technique” entre agricultores da rede APAD. Danzé, França. Junho de 2017. (© Raphael Fernando Diniz)

 

 

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