Avaliações externas de Universidades: o que nos revelam?

Processos de avaliação externa têm por objetivo oferecer aos interessados em geral informações sobre determinadas organizações. No caso de entidades públicas, a finalidade é a de demonstrar o que está sendo realizado com o dinheiro arrecadado. Os recursos obtidos por meio da cobrança de impostos, taxas e contribuições de melhoria, obrigação de pagamento do cidadão honesto, serão utilizados para que esses mesmos cidadãos sejam beneficiados com serviços e bens públicos na quantidade e qualidade necessárias.

Uma dessas avaliações externas, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, Enade, apesar de suas limitações, possibilita, dentre outras intenções, formar juízo, a respeito das faculdades e dos cursos que oferecem. O futuro estudante, por exemplo, poderá fazer escolhas dentre cursos com maior critério. Nesse caso, do ponto de vista social, ao oferecer opções claras para o futuro de um jovem, nada mais justo do que demonstrar com clareza o que pode ser o melhor.

Apesar dessa virtuosa intenção, algumas Universidades e estudantes deixam de se submeter a esse Exame. Perdem com isso muitos. A falta de informação causa equivalente falta de alternativa. Informação é conjunto de oportunidades. Ignorância ou desconhecimento não revelam caminhos possíveis. Quem desconhece não age, porque não vê por onde seguir adiante.

Há no momento uma polêmica, por decorrência da divulgação de queda de pontuação da Universidade de São Paulo, USP, promovida pelo ranking do jornal Folha de S. Paulo. A causa dessa queda está sendo atribuída ao Enade. Como a USP não participa dele, sua pontuação foi menor neste ano.

Independentemente de se é correto ou não atribuir ao Enade a responsabilidade pela menor pontuação dessa renomada universidade pública, o que esse episódio nos revela é a importância do controle social sobre uma instituição pública. A repercussão de matérias de jornal, artigos e editoriais sobre essa menor pontuação demonstra o quanto são socialmente úteis indicadores facilmente compreensíveis.

Universidades públicas são aquelas que, além das normas de direito específicas que as conduzem, têm a necessidade de se orientarem em função de uma sociedade e dos seus anseios e necessidades. Ao se fecharem em suas métricas próprias deixam de perceber o mundo em que se inserem. Correm, assim, o risco de que não mais consigam conviver com mudanças e inovações de toda a ordem.

Atribuir como causa da baixa pontuação a falta de recursos, o que não é verificável, visto os elevados valores que historicamente são repassados às universidades públicas, em particular às do Estado de São Paulo, além de falsear o problema, demonstra incapacidade analítica. O fato é que, ao não revelar para a sociedade qual é o desempenho de seus estudantes em comparação com os de outras universidades, evita-se que mensurações e discussões ocorram.

Isso ensina a todos nós que é o momento de valer-se do que nos é mais precioso: a ciência. Diagnosticar nossa crise universitária de maneira reduzida ou simplista, é fazer o jogo do faz de conta. Libera humores, mas não muda nada.

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TEXTO: Alvaro Martim Guedes, especialista em administração pública da Unesp, em Araraquara.

 

 

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