Para não esquecer

Artigos refletem sobre mensagem encontrada há quase quatro décadas em uma floresta ao lado do famoso campo de extermínio Auschwitz-Birkenau

EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ
Eli Vagner Francisco Rodrigues

A carta de Marcel Nadjari decifrada recentemente e escrita em Auschwitz no ano de 1945 descreve o que, segundo o autor, a mente humana não pode imaginar. Nadjari foi recrutado para integrar os Sonderkommando, pelotão de judeus que era encarregado das tarefas mais degradantes do campo de concentração, tais como enterrar os corpos dos prisioneiros mortos, limpeza das câmaras de gás e outros serviços considerados indignos pelos próprios nazistas. O trabalho dos Sonderkommando foi fielmente retratado no angustiante filme de László Nemes, Filho de Saul, de 2016. Mas qual a relação da carta descoberta em 2017 com a obra de Adorno?

Foi Theodor Adorno quem nos alertou para o que seria uma espécie de obrigação das novas gerações de educadores com relação à história recente da humanidade. Em sua famosa palestra “Educação após Auschwitz”, transmitida na rádio de Hessen, em 18 de abril de 1965, publicada em Zum Bildungsbegriff der Gegenwart, em Frankfurt, no ano de 1967, o filósofo afirmou que a exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Esta orientação é, ao mesmo tempo, um alerta em relação ao sempre perigoso esquecimento de fatos cruciais e tenebrosos da história humana. A disciplina de história, para Adorno, seria no sentido em que ele coloca as teses de seu celebrado texto, uma espécie de alerta e antídoto contra o fascismo, a barbárie e o preconceito. Certas datas e descobertas, sabemos, não são comemorativas. A simples lembrança do genocídio do Holocausto, por exemplo, nos enche de vergonha e tristeza. Não se comemora o Holocausto. Por outro lado, comemora-se o seu final efetivado pelas mãos do próprio homem e isto, se não é motivo de júbilo, é, pelo menos, motivo de alívio e ocasião para reflexão. Não se comemora o fato consumado do holocausto, mas celebra-se a libertação dos campos de concentração, lugar onde ocorreram, talvez, os horrores mais absurdos que a humanidade já perpetrou. No mesmo sentido, não se comemora uma descoberta histórica como a carta encontrada de Marcel Nardjari em Auschwitz recentemente, enterrada em 1945.

A advertência de Adorno se vale de um resgate freudiano na tentativa de evidenciar que a barbárie está na origem da civilização humana e que, portanto, faz parte de alguma instância inconsciente de nossa estrutura psíquica.

 

Sapatos que pertenciam aos prisioneiros judeus exterminados, expostos no Auschwitz-Birkenau Memorial and Museum. (© Prof. Dr. Eli Vagner Francisco Rodrigues)

 

Impedir que Auschwitz se repita seria impedir nosso retorno a esse referencial de comportamento guardado, ou, de certa forma, superado pelo homem. Neste contexto Adorno introduz o problema da liberdade. Para o filósofo, o fato de as pessoas não saberem lidar direito com sua própria liberdade e responsabilidade faz com que elas substituam com facilidade os seus superegos por autoridades externas. Obviamente os líderes nacionalistas, os ditadores de todos os matizes assumem esta tarefa e levam as sociedades a extremos políticos de ódio e violência.

O campo e a cidade produzem tipos sociais que aderem com facilidade a correntes políticas e lideranças duvidosas e perigosas. Outro aspecto ressaltado por Adorno é o fato de a tecnologia exercer um papel determinante na reificação (coisificação) da consciência por ser considerada um ente superior. Os homens tendem a esquecer que são eles próprios que produzem a tecnologia, e não o contrário, e se tornam espécies de escravos das máquinas, como se as máquinas fossem entidades superiores. Temos certa admiração exagerada pelas máquinas, vistas como maravilhas, e realmente o são, mas quando esta admiração provoca um distanciamento do humano o problema se anuncia. Note-se o papel de distanciamento proporcionado pela tecnologia na operacionalização do massacre de seres humanos. Quanto mais tecnológico mais limpo o processo, quanto mais tecnológico menos culpa o operador do processo e da máquina de extermínio sente, mais distante de minha decisão está a morte do outro. Some-se a isso todo a estrutura da hierarquia militar e ninguém será responsável, ao final, pela morte de milhões de pessoas. Auschwitz, este é seu horror maior, é fruto da tecnologia, da ciência e da operacionalização racional de meios para chegar a fins. Goya criou uma obra muito famosa na qual ele insere a frase “O sono da razão produz monstros”. Se fizermos um paralelo com a mensagem de Goya podemos afirmar que Auschwitz produziu monstros através de uma razão acordada, isto é, consciente de sua operacionalização material, matemática, científica.

Impedir que Auschwitz se repita seria impedir nosso retorno a esse referencial de comportamento guardado, ou, de certa forma, superado pelo homem

Adorno lembra que existe uma concepção de formação denominada por ele de “educação pela dureza”; nesta modalidade, as pessoas para terem mérito devem suportar o insuportável. Caso clássico dos soldados que executaram o genocídio em nome de um bem maior da nação. Nenhum bem maior pode ser justificado com a morte de um ser humano. Esses atos, lembra-nos Adorno, nos remetem também ao sadomasoquismo e à indiferença à dor, à frieza necessária ao ato que se perpetua no indivíduo e mata sua “humanidade”. A humanidade seria a capacidade de sentir compaixão. Compaixão, por sua vez, é a sentimento, ou a capacidade de sentir, em algum grau, a dor do outro (com-paixão, compartilhar o sentimento, Mitleid, Mit com Leid – dor).

A educação, para Adorno, seria uma ação preventiva no sentido de evitar a barbárie e efetivamente evitá-la passaria pela emancipação do homem com relação aos seus instintos destrutivos, sua face bárbara e violenta, seria, sobretudo, conferir ao homem de amanhã um caminho para que ele possa lidar com sua liberdade no próprio sentido do esclarecimento, isto é, de uma autonomia da razão sobre a atração da violência.

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Eli Vagner Francisco Rodrigues é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

 

Portão principal de Auschwitz I, onde se lê a frase Arbeit macht frei (O trabalho liberta). (© Prof. Dr. Eli Vagner Francisco Rodrigues)

 

A CARTA DE AUSCHWITZ
João Paulo Vani

Na última semana, jornais de todo o mundo divulgaram os resultados do trabalho de reconstrução da mensagem encontrada há quase quatro décadas em uma floresta ao lado do famoso campo de extermínio Auschwitz-Birkenau. Atribuída a Marcel Nadjari, judeu de origem grega, a carta revela a miséria que “a mente humana não pode imaginar”.

Parte de um conjunto de cinco mensagens, o material localizado em 1980 dentro de uma garrafa térmica – e só agora processado e codificado – revela as atrocidades realizadas sob jugo nazista: prisioneiros recebiam ordens para execução de tarefas cotidianas que eram refutadas pelos militares alemães. Chamado de “Sonderkommando”, esse grupo tinha dentre suas atribuições enterrar os corpos dos executados e limpar as câmaras de gás: “Após meia hora, nós abrimos as portas e o nosso trabalho começa”, descreve Nadjari sobre a sua função, que era a de carregar os corpos da câmara de gás para os fornos de cremação, e detalha: [onde] “um ser humano se transforma em cerca de 640 gramas de cinzas”.

Na literatura, no cinema, obras de ficção e não-ficção como documentários e relatos memoriais nos revelam a amplitude do mal capaz de se esconder na natureza humana

Nadjari, um dos cem sobreviventes do “Sonderkommando”, pelotão formado por cerca de 2 mil prisioneiros, em sua mensagem se questiona “Se alguém ler sobre as coisas que fizemos, irá dizer: ‘Como alguém poderia fazer aquilo, queimar seus companheiros judeus?’, e ele mesmo responde: “Foi isso o que eu também disse no início, e pensei várias vezes”.

O horror do Holocausto vem sendo, ao longo dos últimos 72 anos, contado e recontado não apenas pelos sobreviventes, mas pelas segunda e terceira gerações de judeus que, com cicatrizes profundas, não se podem permitir que a memória de tais atrocidades se apague. O mesmo acontece com estudiosos do assunto, que por meio de análises teóricas – e, especificamente em meu caso, análises envolvendo obras literárias – procuram chamar a atenção da sociedade para aquele que provavelmente é o mais pavoroso episódio da História da Humanidade.

Na literatura, no cinema, obras de ficção e não-ficção como documentários e relatos memoriais nos revelam a amplitude do mal capaz de se esconder na natureza humana. O pijama listrado e as estrelas de Davi no peito sempre serão símbolos do indizível, que movimentos buscam desacreditar ou negar ou ressuscitar, razão pela qual mensagens como a de Marcel Nadjari devem ser mais e mais divulgadas.

Promover reflexões acerca do Holocausto, e de todas as imagens que vivem em nossa memória coletiva, como o portão do campo de Auschwitz-Birkenau, os trens, os vagões de madeira cheios de crianças, mulheres e anciãos, que como gado chegavam após dias, semanas de viagem, sem terem recebido água ou comida, trazendo em si um último fio de esperança, sem saberem qual seria o desfecho para a maioria dos milhões de prisioneiros que viveram essa mesma cena, neste ou em qualquer outro campo, e refutar veementemente que o ideal nazista ressurja no século XXI em movimentos como a Marcha de Charlottesville é dever de cada um, seja como descendente, como estudioso ou como cidadão: divulgar os horrores do Holocausto e manter viva essa memória é nosso dever, como seres humanos.

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João Paulo Vani é aluno de Doutorado do Programa de Pós-graduação em Letras da Unesp/Rio Preto.

 

Exposição montada em Assis.

 

MEMÓRIA DA INTOLERÂNCIA
Oscar D’Ambrosio

As fotografias que ilustram os dois artigos que compõem este dossiê integram a Mostra de Fotografia Memórias da Intolerância: “70 anos de libertação dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau e Dachau”, apresentada pela primeira vez, no Câmpus da Unesp de Bauru, em 2015.

A Mostra foi desenvolvida a partir da documentação fotográfica realizada pelos professores Marcelo Carbone Carneiro (KZ Gedenskstätte-Dachau-Alemanha) e Eli Vagner Francisco Rodrigues (Panstwowe Muzeum Auschwitz-Birkenau Oswiecim, Polska) nos anos de 2013 e 2014.

A exposição tem o objetivo de resgatar a memória das vítimas dos campos de concentração nazistas e alertar para os perigos da intolerância étnica, religiosa e política, que ainda assombra a humanidade no século XXI.

A mostra conta com o apoio do Observatório de Educação em Direitos Humanos, do Departamento de Ciências Humanas, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru e Proex – Pró-reitoria de Extensão Universitária.

Se houver interesse em receber a exposição, basta entrar em contato através do email:
<unesp.imprensa@reitoria.unesp.br

 

Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau: Malas dos prisioneiros.

 

Auschwitz-Birkenau
Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou Auschwitz, o maior e mais terrível campo de extermínio dos nazistas. Em suas câmaras de gás e crematórios foram mortas pelo menos um milhão de pessoas.

 

Latas vazias de Zyklon-B, pesticida usado no processo de extermínio de prisioneiros.

 

Dachau
No dia 29 de abril de 1945, soldados americanos libertaram os 70 mil prisioneiros que restavam no campo de concentração de Dachau.

 

Bloco 10 no campo de Auschwitz, onde Mengele realizava experiências com prisioneiros.

 

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Foto de abertura: Entrada para Auschwitz II-Birkenau, o campo de extermínio do complexo de Auschwitz. (Patrimônio Mundial da UNESCO) (© Prof. Dr. Eli Vagner Francisco Rodrigues)

 

 

 

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