Revisitando Pedro Almodóvar através de seu mais recente filme – Julieta (2016)

Artigo mostra como o cineasta espanhol retoma personagens e histórias da sua própria obra, de outro ponto de vista ou com outro tratamento

La Movida espanhola é um movimento de renascimento cultural surgido depois de quatro décadas de uma existência cinza e antiquada. O ditador Francisco Franco morreu depois de causar muitos danos ao povo e ao país, em 1975, deixando uma Espanha pobre, atrasada e perdida numa realidade que remontava ao início do século 20. O movimento é herdeiro da Pop Art americana e os grandes centros como Nova York e Londres são irradiadores de uma cultura que valoriza o efêmero e o estereotipado, os subgêneros, as ex-estrelas e os produtos da sociedade de consumo. Esta nova onda trouxe um grupo de pessoas que não tinham experiência com a música, mas estavam dispostas a montar uma banda e dar shows-happenings por Madri e pelos outros centros urbanos da Espanha. Neste cenário New Wave e como eles dizem Rocanrol (Rock & Roll) surge Pedro Almodóvar, que se junta a Fabio de Miguel (ou Fanny MaCnamara, ou Patty Diphusa), nascido em 1957 em Madri, que frequentava a Casa das Costus (diminutivo de Las Costureras, formada pelos pintores Juan Carrero 1955-1989 e Enrique Naya 1953-1989), e circulava pela cidade assustando os franquistas semi-apodrecidos e os conservadores em geral. Fabio não era músico e como Almodóvar não tinha voz alguma, mas a ideia era mais uma questão estética, de parecer, do que realmente ser. A dupla dinâmica lançou um LP de vinil, chamado Como está o banheiro de senhoras! Antes de ser diretor e lançar seu primeiro filme, Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, em 1980, Almodóvar era cantor e performer.

Julieta,
Direção: Pedro Almodóvar,
Espanha,
El Deseo.

Sobre o enredo de Julieta, mais recente obra de Almodóvar, um post de 18 de novembro de 2015, do site de El Deseo informa que ele é baseado no livro Silêncio de Shusaku Endo (1923-1996), e que o título fora mudado para evitar confusão com a nova obra de Martin Scorsese. Mas na entrevista de 20 de março para El País Almodóvar diz que se baseou em três contos de Alice Munro, escritora Prêmio Nobel em 2013, que são Chance (Destino, em espanhol), Soon (Pronto, em espanhol) e Silence (Silencio), três contos que têm como personagem central Juliet e que fazem parte do livro de contos Runaway (A fuga, em português, e Escapada, em espanhol). Para os mais atentos devo lembrar que a personagem Vera Cruz (atentar para o nome, La vera cruz em espanhol significa ‘a verdadeira cruz’) de La piel que habito está lendo, no seu quarto-prisão, Escapada de Munro. E Almodóvar sugeriu que Elena Anaya lesse o livro para inspirá-la na criação da personagem, na época foi divulgado que Almodóvar tem os direitos de Escapada desde 2009. Neste filme novamente as artes visuais têm papel central na história, a escultura O homem sentado do artista Miquel Navarro é um fio condutor na trama. Também aparecem quadros do pintor galego Seoane, de Lucien Freud, Richard Serra e de Dis Berlin, que também desenha a tatuagem de Xoan. Na parede do apartamento novo de Julieta, logo no início do filme, vemos o cartaz do espetáculo teatral The old woman, de Robert Wilson, e uma fotografia da esquina da Calle Alcalá com a Calle Sevilla (do Palacio de la Equitativa) que dialoga com a ‘esquina Almodóvar’ (Alcalá com Gran Vía), tão amada e fotografada pelo diretor.

Quanto ao método de criação, faz parte do universo Almodóvar retomar personagens e histórias da sua própria obra, de outro ponto de vista ou com outro tratamento, recurso que eu chamo de autocitação paródica. A história de Volver (2006) é o resumo do livro da escritora Amanda Gris (Marisa Paredes), que é rejeitado por sua editora no filme La flor de mi secreto (1995). A enfermeira Manuela aparece como personagem secundário neste mesmo filme, para voltar como protagonista de Todo sobre mi madre (1999). O cinema e, em segundo lugar, a literatura sempre foram fontes fundamentais na criação de Pedro Almodóvar. Elas podem ser somente uma estrutura, que quase não se percebe, como quando em Átame! Ricki (Antonio Banderas) apresenta a sua vida como pontos num mapa para Marina (Victoria Abril) e depois se declara dizendo, que só tem 50 mil pesetas no bolso e quer ser um bom pai para os filhos dela. Esta estrutura repete as do filme Bus Stop (Nunca fui santa, 1956) da fala de Cherie (Marilyn Monroe) para a sua camareira, mostrando onde estava e para onde queria ir (pontos num mapa) e da declaração do apaixonado Bo (Don Murray) para ela, e devemos lembrar que a personagem de Almodóvar, Marina (Victoria Abril), era uma ex-atriz pornô, que agora entrava no mercado de filmes sérios, os mesmos boatos que pesavam sobre o passado de Marilyn Monroe. Nos últimos anos, principalmente depois de La piel que habito (2011) as artes visuais voltaram a ter importância central na narrativa almodovária, neste filme o diálogo é com a obra de Louise Bourgeois (1911-2010), Guillermo Pérez Villalta, Goya, Velázquez e inclusive com um quadro de Tarsila do Amaral, que Almodóvar deve ter visto na grande exposição Tarsila do Amaral feita pela Fundação Juan March, em Madri, de fevereiro a maio de 2009 (a fundação fica a cinco ou seis quarteirões da produtora El Deseo).

 

O cineasta espanhol revela-se neste vigésimo longa-metragem maduro e com uma narrativa refinada

 

Neste último filme o personagem central é uma mulher, Julieta, retratada em dois momentos de sua vida, aos 20 e aos 40. A relação mãe e filha é central na trama, o que não é novidade em Almodóvar, lembremos Tacones lejanos (De salto alto, 1991) que trata da doentia relação de Rebeca (Victoria Abril) e Becky (Marisa Paredes); e Volver (2006) da mãe Irene (Carmen Maura) e sua filha Raimunda (Penélope Cruz) e da filha desta, Paula (Yohana Cobo), que mata o pretenso pai. Em Julieta (2016) as citações, paródias e o que chamo de autocitação, que são a marca central do estilo Almodóvar, estão pelo filme todo, por mais que pareça um novo Almodóvar, que agora adapta histórias alheias (ledo engano) e não mais oferece ao público um filme original. Já na primeira imagem vemos uma tela vermelha, que lembra a tela de teatro que baixa no final de Todo sobre mi madre (1999) e sobe no início de Hable con Ella (2001). A seguir somos apresentados a um conjunto de materiais que vão definir e estar presentes durante o filme: dentro de uma caixa de papelão, típica de mudanças, vemos a protagonista colocar uma estátua de um homem sentado (com leves traços de O pensador de Rodin), um livro de arte com esta escultura na capa e o autor Lorenzo Gentile (personagem do filme), uma caixa de CDs Playing the piano e Out of noise (2009) de Ryuichi Sakamoto, compositor e pianista de música Thecno (que fez a trilha sonora de Tacones Lejanos, 1992, de Almodóvar). Julieta prepara sua mudança para Portugal, com Lorenzo Gentile, da estante na sua frente ela pega o livro El amor (1971) de Marguerite Duras, que fala de três personagens: uma mulher grávida, um viajante e um homem que sempre caminha (oposição óbvia ao “hombre sentado”), que se isolam numa ilha, sempre frente ao mar (alguns elementos que aparecem em Julieta). Na parede o cartaz da peça The old woman, adaptação de Robert Wilson da obra do russo Daniil Kharms (1905-1942), onde um escritor é assombrado pelo fantasma de uma velha mulher, Julieta é atormentada por dois fantasmas, o homem do trem e Xoan, seu marido. E ainda uma foto da esquina da Calle Alcalá com a Calle Sevilla no centro de Madrid, que faz uma paródia da “Esquina Almodóvar”, assim nomeada por ele, que é a esquina de Calle Alcalá com la Gran Vía. Nesta esquina do edifício Metrópolis (1911) Esteban, de Todo sobre mi madre, é atropelado e morre e Isabel (Penélope Cruz) quase dá a luz a seu filho Victor em Carne Trémula (1996).

 

Fotografia da esquina da Calle Alcalá com a Calle Sevilla (do Palacio de la Equitativa) que dialoga com a “esquina Almodóvar” (Alcalá com Gran Vía), tão amada e fotografada pelo diretor. (© Reprodução)

 

Julieta abre uma gaveta e vemos uma coleção de recortes de jornal, método de Leo em La flor de mi secreto (1995) e Enrique de La mala educación (2004), e que Almodóvar já disse que é o seu para encontrar histórias. Num recorte chama atenção o título, é ‘Esquilmando el mar’ (esgotando o mar). E no fundo da gaveta há um envelope azul que Julieta abre levemente, não vemos o conteúdo e joga no lixo. Este cesto de lixo Almodóvar diz que é o dele (no Pressbook), não sei se de sua casa ou de El Deseo. Neste filme convivem três etapas na vida da protagonista, a atual de 2016, a de 1985 e a de 1998, lembrando a estrutura de La mala educación (2004). No presente (2016), Julieta andando por Madri encontra Beatriz, amiga inseparável de sua filha Antía, o encontro que é o detonador do filme acontece na esquina das calles (ruas) Monte Esquinza e Marques de Riscal, no bairro de Salamanca, moradia da alta burguesia madrilena. Acredito que Almodóvar queria mostrar o lado moderno de Madri filmando na frente de um edifício arquitetonicamente atual e criativo. Beatriz vem acompanhada de dois rapazes e um trans masculino, uma mulher no processo de transformação em homem, que também é uma autocitação. O trans é vivido por Bimba Bosé (1975-2017), sobrinha de Miguel Bosé, o transformista Letal de Tacones lejanos (1991). Bimba aparece com os cabelos laranja e um batom excessivamente rosa na boca, que é circundada por impúberes fios de barba. E mais, temos que lembrar que durante La Movida a Calle Monte Esquinza era um dos polos de reunião do grupo, nesta rua ficava a Casa-estúdio de Pablo Pérez-Minguez (1946-2012), fotógrafo quase que oficial do período (junto com Alberto García Alix), e onde foram rodadas algumas cenas de Laberinto de pasiones (1982), segundo filme de Almodóvar. O primeiro Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980) teve cenas rodadas na Casa-convento dos artistas plásticos conhecidos como Costus, Enrique Naya (1953-1989) e Juan Carrero (1955-1989). A dois quarteirões dali fica a Calle Almagro, rua onde vivia Lucía (Julieta Serrano), antagonista de Pepa (Carmen Maura) em Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988). Autocitações em abismo, que criam uma trama complexa e que possibilitam múltiplas leituras. É incrível como Madri é um personagem forte e constante neste novo filme de Almodóvar, suas ruas, praças, parques e bairros são o cenário que prevalece no filme todo; a última vez que esta presença foi notada nos filmes de Almodóvar foi em Carne trémula (1997).

 

Cena do filme Julieta. Os atores Daniel Grao (Xoan) e Adriana Ugarte (Julieta). (© Divulgação)

 

Julieta descobre que sua filha, que ela não vê há 12 anos, vive perto do lago Como, na Itália, tem três filhos, dois meninos e uma menina. Esta informação é bastante chocante para causar uma mudança brusca em sua vida, ela termina a relação com Lorenzo e resolve voltar ao antigo bairro onde vivia com sua filha, antes do rompimento. Ela pega o cesto de lixo (o de Almodóvar) e abre o envelope azul, que tem dentro uma foto dela com sua filha Antía toda rasgada, atrás dela o autorretrato (Reflection 1985) do pintor Lucien Freud, que tem como principal característica mostrar os defeitos (físicos e emocionais) de seus modelos, que às vezes ninguém mais percebe, e da incomensurável passagem do tempo. Uma grande mostra de Freud aconteceu em Viena, de outubro de 2013 a janeiro de 2014, no Kunst Historisches Museum, na qual esta tela estava presente. Neste autorretrato Freud está com olhar triste, amargurado e a expressão de seu rosto mostra um descontentamento com a vida, exatamente como está Julieta no presente. Neste momento Julieta começa a escrever um diário onde promete contar tudo o que não tinha dito para a sua filha Antía. Ela promete contar sua história, que inclui o nascimento da filha, voltamos para 1985, quando Julieta era uma jovem professora de literatura clássica e dentro de um trem que ia para Madri conheceu Xoan (Daniel Grao, de longe o melhor ator do filme), um pescador da Galícia, de origem cubana, que ia comprar um motor para um de seus barcos. Na passagem para o passado a cena começa com um galho de árvore batendo violentamente na janela do trem e assustando Julieta, adiantando que a história será misteriosa e com algumas mortes pelo meio dela. Na mesma cabine de Julieta está um senhor de uns 60 anos que está com um aspecto triste e solitário e tenta puxar conversa com ela, mas ela não está para papo e sai da cabine sem responder. Julieta foge para o vagão restaurante e conhece Xoan, com quem começa um jogo de sedução, os dois veem juntos um cervo que corre perto do trem, Julieta diz que ele está procurando uma companheira, Xoan diz que sua mulher está em coma há cinco anos (lembrar de Alícia, de Hable con Ella) e a convida para passear na plataforma quando o trem para, por alguns minutos, em uma estação. Ela não está vestida para sair na neve e fica onde está, lendo La tragédia griega de Albin Lesky, quando o trem começa a se movimentar, dá uma freada brusca, derrubando pessoas e objetos e Julieta volta para a sua cabine, que está vazia e teme pelo pior quando vê pessoas correndo pela neve fora do trem. Pegando a mala do homem descobre que ela está completamente vazia. Xoan está com um grupo que traz algo em uma maca, e para desespero de Julieta é o homem triste da sua cabine. Consolada por Xoan, que fica com ela na cabine eles iniciam um caso amoroso, citando a posição dos amantes de Carne trémula, abraçando-se estando cada um com a cabeça alinhada com os pés do outro. Cada um segue seu caminho, Julieta dá aula em Madri e nestas aulas fala de Ulisses, o grande herói e marinheiro, que segue o caminho da aventura e do desconhecido quando abandona sua Ítaca e depois, quando Calipso lhe promete a vida eterna, prefere o mar e enfrentar seu destino. A Ítaca de Xoan é Redes e a eternidade lhe é dada por Ava, que o eterniza na escultura do homem sentado.

 

Faz parte do universo Almodóvar retomar personagens e histórias da sua própria obra, de outro ponto de vista ou com outro tratamento

 

Passados seis meses acaba o período de contrato de Julieta e ela recebe uma carta surpresa de Xoan, que diz que tudo segue igual, que sua mulher Ana continua sendo um vegetal. Julieta decide ir até Redes, o povoado da Galícia onde Xoan mora e chega no dia do enterro de Ana. É recebida por Marian (Rossy de Palma), que é uma empregada que já se fez dona da casa, decide tudo, interfere em tudo e mais, sabe de todas as histórias. Xoan chega e a encontra adormecida, fazem amor e ele pede que ela fique. No outro dia de manhã Xoan assiste ao sono de Julieta sentado como a estátua ‘O homem sentado’ (lembrar que Ava, já direi quem ela é, dá a estátua para Julieta somente quando está no hospital morrendo). Xoan lhe diz que vai lhe apresentar Ava, que é uma artista como ela e ela diz – eu não sou artista, dou aulas de literatura clássica. Julieta se torna amiga de Ava, a escultora, e gosta de lhe contar lendas e mitos enquanto ela trabalha e fuma (como a personagem Huma de Todo sobre mi madre). Em um dia especial no Atelier de Ava, Julieta fala que “os Deuses criavam os seres e lhes davam dons, como o pássaro que pode voar, mas que quando criaram o Homem notaram que todos os dons tinham acabado, por isto o homem nasce nu e sem dons” e em seguida anuncia: estou grávida.

 

A atriz Emma Suárez, como Julieta, em sua fase mais madura. (© Divulgação)

 

Julieta tem a filha e lhe chama Antía, um nome típico da Galícia, vai apresentá-la à família na Andaluzia e aqui temos duas elipses (salto para o futuro) juntas, ela apresenta a neta e depois volta com a menina já com nove anos, este recurso duplo quebra um pouco o ritmo do filme. Nesta visita Julieta vê a mãe bem debilitada, com alguma doença degenerativa cerebral, que lhe dá momentos de lucidez dentro de uma letargia. Julieta vê seu pai interessado na empregada, que se chama Sanáa (atentar para o nome), que conheceu num festival de música sacra de Fez. Esta parte da história familiar de Julieta não acrescenta nada ao filme e desvia a atenção para personagens que não têm nenhuma importância na trama, deveria ter sido eliminada na edição, é um apêndice dramático inútil.

 

Em Julieta, o final, além de aberto, parece um pouco brusco, mas era a hora de terminar

 

Quando Julieta volta desta viagem a nenhuma parte, ela vê que Xoan fez outra tatuagem com o desenho de um A&J, e ela exclama alegre Antía e Julieta, mas poderia ser Ava e Julieta, as duas mulheres que disputaram o amor de Xoan\Ulisses. O desenho da tatuagem é de Dis Berlin (pseudônimo de Mariano Carrera, pintor e ilustrador espanhol nascido em Soria em 1959), artista que participou de La Movida e que é colaborador habitual de Almodóvar, e do qual aparecem dois quadros no filme. Logo depois desta volta o clima entre Marian e Julieta fica insustentável, Marian vai aposentar-se e Julieta quer voltar a trabalhar, e Marian alerta “a profissão de uma mulher é sua família”, e acrescenta “é quando as coisas acontecem”. Como uma harpia Marian está pronta a exercer papel de ave de rapina e contar a traição de Xoan e Ava no passado. Julieta tem uma grande discussão com Xoan e sai para andar, Xoan abandonado com a palavra na boca transforma-se no segundo fantasma de Julieta, pois sai para o mar e uma tormenta épica o engole e devolve em pedaços para Julieta.

E como em qualquer tragédia grega a vida continua, Antía está em um acampamento enquanto tudo acontece, lá conhece Beatriz, com quem fica tendo uma amizade e depois uma ligação muito forte. Antía não volta para Redes e vai para Madri, para onde também vai Julieta. Quando elas se encontram na casa de Beatriz elas ficam diante de uma gravura de Richard Serra chamada Reykjavik, de 1991, que faz parte da coleção do Reykjavík Art Museum, que realizou uma grande mostra do artista de maio a setembro de 2015. A obra parece original, pois pode-se notar a assinatura e a numeração da versão no canto direito (a gravura tem 46 versões numeradas). Ela se compõe de dois blocos negros retangulares que não chegam a se tocar. Eles lembram estacas fixadas na beira-mar, para amarrar barcos nos portos. É assim que Julieta e Antía estão; elas estão vivendo momentos diferentes e não chegam a se conectar. Pela vontade de Antía ficam morando em Madri e ela vai até Redes fechar a casa e volta mais distanciada da mãe, por mais que esta não perceba. Neste novo apartamento em Madri a nova Julieta madura (Emma Suárez) é revelada no banho, imitando o gesto de Verônica ao estender o sudário onde aparece o rosto de Cristo, a cena imita a pintura do Meister der Heiligen Veronika, mestre alemão ativo entre 1400 e 1420.

 

O diretor Pedro Almodóvar, no intervalo de gravação. Ao fundo, a atriz Adriana Ugarte caracterizada como Julieta. (© Divulgação)

 

Quatro anos se passam e Bea vai estudar nos Estados Unidos e Antía decide fazer um retiro espiritual nos Pirineus. Antía reúne seus pertences, entre eles uma foto de seu pai e uma da cantora Chavela Vargas (1919-2012) especializada em rancheras, e uma paixão musical de Almodóvar. Quando Antía sai pela porta Julieta vê o homem do trem e Xoan, seus fantasmas, sem saber que Antía se tornará mais um deles. Três meses depois Antía, deveria voltar do retiro, mas manda uma responsável informar à mãe que ela decidiu dar outra direção para a sua vida e a mãe não faz parte desta nova trajetória. Parece uma crítica de Almodóvar aos novos movimentos sectários que surgiram no mundo e na Europa, que envolvem religião ou ideologia e isolam o indivíduo. Todos os dias do aniversário de Antía Julieta compra um bolo e espera pelo cartão de Feliz Aniversário, que chegará invariavelmente sem remetente para: Julieta Arcos, Calle Fernando VI, n. 19, 3.º Piso, Madrid, CP 28004. Depois de três aniversários assim, Julieta se cansa e resolve mudar de apartamento e vai para uma área de Madri que não tem relação nenhuma com Antía. Antes da mudança no antigo quarto de Antía nota-se em cima da cama um mapa-múndi deslocado, como o mapa-múndi na sala de Pepa em Mujeres al borde de un ataque de Nervios, o mapa da Espanha no quarto de Leo em La flor de mi secreto e o mapa-múndi na sala de Marco em Hable con Ella. Mas lembrando, em 2016, treze anos depois do desaparecimento voluntário de Antía, Julieta encontra por acaso Bea e fica sabendo que ela tem três filhos, dois meninos e uma menina, e vive perto do Lago Como na Itália e tudo muda.

Temos então uma apresentação em flash-back da relação de Julieta com Lorenzo Gentile, um crítico de arte amigo de Ava, que sai do elevador prestando muita atenção em Julieta na última visita desta a Ava, que está internada com esclerose múltipla. Lorenzo acaba se apresentando para Julieta no enterro de Ava, e ela diz que Ava o deixou de presente, junto com a escultura do homem sentado. Julieta e Lorenzo começam uma relação adulta que não contempla a existência de Antía, vemos os dois se conhecendo e passeando por Madri, vão ao Cines Princesas, que produziram o segundo longa de Almodóvar, Laberinto de Pasiones (1982). No presente (2016) Julieta encontra Beatriz uma segunda vez e finalmente se inteira da relação de amor que sua filha e Beatriz tiveram e da fofoca/confissão feita por Marian em Redes, sobre a circunstância da morte de seu pai, Xoan. Todas estas revelações deixam Julieta atordoada, ela sai caminhando pelas ruas de Madri e acaba atropelada sob o olhar de Lorenzo, que a tem seguido pela cidade, depois de voltar de Portugal, como ele mesmo confessa, como um personagem de Patricia Highsmidt (1921-1995). Neste reatar Lorenzo vai até o apartamento de Julieta e recolhe a correspondência e os diários que ela começou a escrever para Antía. Ela lhe pergunta se ele leu o diário, ele diz que não e ela percebe a carta e ao virar fica emocionada com o remetente: Antía Feijóo, Mix-Parking Cioss, Cioss, 6637, Sonogno, Suiza. Julieta chora muito e ouvimos a voz da filha em off dizendo que ela tem três filhos e que o mais velho, Xoan, se afogou em um rio, e que a partir daí ela imaginou a dor que a mãe sofreu com a sua desaparição. No carro a caminho da Suíça Julieta diz para o fiel Lorenzo que não vai perguntar nada, que tudo deve acontecer naturalmente. O carro nos deixa na beira da estrada e avistamos os Pirineus e ouvimos a forte voz de Chavela Vargas cantando Si no te vas (Se você ficar):

 

Si no te vas, te voy a dar mi vida
si no te vas, vas a saber quien soy
vas a tener lo que muy pocas gentes
algo muy tuyo
mucho, mucho amor
Hay cuanto diera yo
por verte una vez mas
amor de mi cariño
Por Dios que si te vas
me vas a hacer llorar
como cuando era un niño.

 

Como em muitos filmes de Almodóvar a música acrescenta e descreve com mais precisão sentimentos e personagens, que não estavam tão delimitados a princípio. Chavela fala da tristeza e da solidão que Julieta sentiu com o desaparecimento da filha, da destruição de seu mundo através das lágrimas e do sofrimento.

Quando vi o filme pela primeira vez em São Paulo, em junho de 2016, em um cinema frequentado por cinéfilos, e por amantes de cinema em geral ouvi, “nossa isto não é mais Almodóvar, como ele mudou”. Nada mais equivocado, Almodóvar está cada vez mais orgânico, seu método está presente na estrutura do filme e sua amada e idolatrada Madri, inclusive com uma alusão da “Esquina Almodóvar” está mais óbvia que nunca. A evolução de um autor com a idade é óbvia e esperada, o que podemos discutir é o resultado do filme como um todo. Acho Julieta um bom filme, vejo alguns problemas no roteiro, a família de Julieta não tem nenhuma função dramática, fica perdida entre uma sequência e outra do filme. As duas elipses para o futuro, com as duas visitas de Julieta e Antía aos pais dela, confundem e não estão bem pensadas. É um erro às vezes repetido por Almodóvar, em Kika logo no início, quando Ramón (Alex Casanovas) desperta da catatonia da falsa morte, temos uma elipse para o futuro e em seguida um flash-back, e nós ficamos fazendo conta de onde estamos na história. Outro dado, a Julieta jovem (Adriana Ugarte) é contida, intensa, a madura (Emma Suárez) é over e histérica o tempo todo, até quando sorri, não parecem a mesma pessoa. A interação Julieta jovem e Xoan é fantástica, e inclusive quando se passa uma década Xoan, vivido por um só ator, convence como o pai que agora entra na maturidade, as duas Julietas não. Mas o resultado geral é bom, o roteiro mostra-se competente em unir elementos que vêm de várias fontes, literatura, teatro, artes visuais e música; apesar de os créditos dizerem que é uma adaptação da obra de Munro, o conjunto é bem diferente da simples adaptação para o cinema de seus contos. Ava é um personagem muito bom e Inma Cuesta o defende bem, mas aparece como um cometa; a segunda Antía (Blanca Parés) tem um rosto e uma voz muito expressivos, mas fica pouco em cena.

 

Julieta é um filme eficiente, com qualidades e defeitos, que vale a pena ser visto e revisto

 

Também estão presentes em Julieta os “personagens visitantes” dos filmes de Almodóvar: Agustin Almodóvar é o comissário do trem, que avisa o tempo da parada na estação – “diez minutos de parada” –, Esther García está conversando com Julieta no cemitério, no enterro de Ava, e Fernando Iglesias está na porta do ônibus, na ida de Antía para o acampamento. Quem tem boa memória lembra da cena de Fernando Iglesias nadando submerso na piscina em Hable con Ella, enquanto ouvimos o violão de Caetano Veloso dedilhando os primeiros acordes de Cucurrucucu paloma, e ele sai da piscina até a cintura e abre um grande sorriso sedutor, para a câmera que tem por trás Almodóvar.

Almodóvar revela-se neste vigésimo longa-metragem maduro, com uma narrativa refinada e principalmente com um método de criação desenvolvido nos últimos 40 anos, a que ele está ontologicamente ligado. Em Julieta, o final, além de aberto, parece um pouco brusco, mas era a hora de terminar, pois a relação de Julieta e Antía agora, depois de todos os traumas, é outra história, que não tem lugar nesta obra. Esperar somente obras-primas de um diretor, escritor ou pintor é injusto com os mesmos. Cada obra tem o seu lugar na carreira de seus criadores, e altos e baixos, sucessos e fracassos fazem parte da trajetória de todos. Julieta é um filme eficiente, com qualidades e defeitos, fiel ao estilo de Almodóvar, mas sem a maestria de Todo sobre mi madre ou a inventividade de Hable con Ella, mas que vale a pena ser visto e revisto.

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TEXTO: João Eduardo Hidalgo é doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Unesp, Câmpus de Bauru.

FOTO DE ABERTURA: As atrizes Emma Suárez (à esq.) e Adriana Ugarte (à dir.) são protagonistas em Julieta. Ao centro, o diretor Pedro Almodóvar. (© Divulgação)

 

 

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