Fornicação, Fármacos e Funk

Artigo mostra que, ao se falar de Funk, há com frequência opiniões condenatórias e inconsistentes em suas argumentações

O funk hoje é um fenômeno que, queiramos ou não, faz parte da vida de muitas pessoas. E “só” este simples fato já o torna um interessante objeto de pesquisa. Contudo, a marca bruta desta manifestação cultural afasta muitos intelectuais da iminência de qualquer contato analítico com suas letras e ritmos. Assim, temos um cenário um tanto injusto em relação às discussões a respeito do funk: os intelectuais, com preparo e repertório, preferem olhar para outros objetos, deixando espaço para os valentes leigos (ou livres-pensadores) que despontam com suas opiniões pouco embasadas – e mais “embrasadas”, isto é, embriagadas, na linguagem do funk –, via de regra moralistas. Conclusão: nos momentos que se fala do funk presenciamos com frequência opiniões condenatórias e inconsistentes em suas argumentações.

Por outro lado, há o fato de que, por vezes, mesmo nas discussões intelectuais, uma abordagem severa pode ser apenas o ancestral olhar apocalíptico – para fazermos referência ao célebre livro Apocalípticos e Integrados, de Umberto Eco. Este olhar esteve presente, segundo Sébastian Charles, em todos os períodos da história humana. Este autor nos diz, no livro Tempos Hipermodernos, que “a condenação do presente é sem dúvida (…) a crítica mais comum apresentada pelos escritores, filósofos e poetas, e isso desde épocas imemoriais. Platão já se preocupava com o definhamento dos valores”. Podemos até dizer de um modo menos cuidadoso que, às vezes, um olhar condenatório é sintoma de inadequação ao presente, sinal de idade, talvez.

 

Pesquisador Thiago Alves de Souza na Liga do Funk, projeto socio-educativo. (© Arquivo pessoal)

 

Desta forma, conhecendo os riscos de um possível olhar recriminatório, faremos aqui um breve estudo do funk enquanto fenômeno contemporâneo extremamente popular nas últimas décadas. Para isto, optamos por analisar a música, a letra e o pensamento presentes no funk Ô Xanaína, do cantor funkeiro Mc Lan. Esta música foi publicada em 10 de janeiro de 2017 no canal Legenda Funk do YouTube no qual músicas do gênero funk de diversos Djs e Mcs são publicadas diariamente. E no momento de escrita desta matéria, prestes a completar um ano da publicação, esta música já possui mais de 26 milhões de acessos.

No que diz respeito aos elementos musicais de Ô Xanaína, parece-nos que a organização dos parâmetros sonoros (altura, duração, intensidade e timbre) tem origem na semântica e na prosódia da letra, logo é preciso olharmos este dois objetos juntos, apesar de podermos abstraí-los. Assim sendo, podemos simplificar toda a letra da seguinte maneira:

Ô Xanaína (verso este repetido diversas vezes com variação de vogais)
Xanaína, você não vai encostar hoje no piscinão de Ramos?
Xanaína, tá querendo sentar na tromba?
Só quer sentar na “giromba”, Xanaína?
Xanaína, Xanaína
Ô Xanaína
Vem com o boga[1] na linguiça!
Ô Xanaína
Vem rebolando a linguiça!
Vem, Vem
Vem cá xaninha
Vem, vem
(en)caixa na minha
Tipo Vavazinho
Tipo Babão
Mc Lan novamente

Observamos, logo no primeiro contato, um forte teor obsceno, polemístico e tabuístico típico do funk, características presentes antes no rock n’ roll, cujo lema era “sexo, drogas e rock n’ roll”, exatamente como o funk hoje prega. Entretanto poderíamos mudar esse consagrado tríptico, adaptando-o para o novo cenário funkeiro: “fornicação, fármacos e funk”. Por outro lado, podemos encontrar estes mesmos traços polêmicos na obra de Pietro Aretino (1492-1556) – a qual é considerada um dos primeiros exemplos de pornografia –, bem como a de Marquês de Sade (1740-1814).

Já do ponto de vista musical, esta obscenidade é ritmada em um compasso quaternário simples e cantada sobre o sampler de um motivo melódico recorrente na escala de Sol Lídio (Sol, Lá, Si, Dó#, Ré, Mi, Fá#), sendo que a única nota desta escala que é omitida é a nota Mi.

O ritmo é constituído de quatro camadas de instrumentos de percussão sampleados: tímpano, reco-reco e dois triângulos com diferença de altura entre si, um grave e outro agudo. Estes instrumentos executam repetidamente uma frase musical de quatro compassos – nos quais o primeiro e o segundo compasso são idênticos ao terceiro e ao quarto, respectivamente – em que a simplicidade das linhas sugere uma escuta monofônica, isto é, uma sequência sonora que resulta apenas em uma informação musical, sem sobreposições de frases.

 

Tudo aquilo que o Funk aborda e que pode ser resumido em “sexo, drogas e ostentação” vai ao encontro da dionisíaca e pós-moderna cultura do gozo

 

Quanto aos procedimentos poéticos, nos primeiros segundos da música, antes de começar o ostinato rítmico, o cantor chama de modo caótico, como que pedindo a máxima atenção, uma suposta mulher de nome “Xanaína”, tal caos nos remete a duas obras vocais pertencentes à chamada vanguarda europeia: Visage (1961) e Sequenza III (1965), ambas obras do compositor italiano Luciano Berio (1925-2003). Porém, se nessas obras de Berio as emissões vocais aparentemente caóticas possuem diversas formas e sugerem diferentes emoções, o que predomina em Ô Xanaína de Mc Lan é a obscenidade e o caráter bruto. Estes traços são alcançados pela substituição do fonema /ƺ/[2] do nome próprio “Janaína”, pelo fonema /∫/[3] para se obter o nome propositadamente esdrúxulo “Xanaína”, que traz consigo o morfema “xana” que se refere ao órgão sexual feminino. Temos, assim, um procedimento metafórico baseado na associação paradigmática destas duas palavras (“Janaína” e “Xana”).

A base deste procedimento de substituição do fonema /ƺ/ pelo fonema /∫/ é a semelhança, pois ambos os fonemas são consoantes homorgânicas, ou seja, tanto o fonema /ƺ/ quanto o fonema /∫/ possuem o mesmo modo e o mesmo ponto de articulação, a única diferença entre eles é que a consoante /ƺ/ é sonora, isto é, tem a participação das cordas vocais para sua emissão, e a consoante /∫/ é surda, não tem a presença de sons vocálicos. Assim, temos nesta simples substituição um dos princípios que, segundo Roman Jakobson (1896-1982) – eminente linguista do século XX –, presidem toda construção poética: a metáfora. Contudo, não temos aqui uma metáfora de conceitos, mas uma metáfora sonora: as sílabas “Jana” do nome “Janaína” têm uma semelhança com a palavra “xana”, palavra esta cara ao contexto linguístico e musical do funk.

O procedimento metafórico continua nos momentos em que as palavras “tromba”, “giromba” e “linguiça” são usadas para se referir ao órgão sexual masculino, contudo estas metáforas estão baseadas não na semelhança sonora, mas sim na semelhança imagética dos elementos envolvidos na comparação.

 

Cantor funkeiro Mc Lan. (© Divulgação)

 

Obscenidade, primitivismo e Maffesoli
Todo o contexto linguístico, musical e social do funk Ô Xanaína nos remete a um caráter aparentemente bruto, obsceno e primitivo, entretanto, ao olharmos para estas características de modo menos óbvio, encontraremos os traços daquilo que o sociólogo francês Michel Maffesoli (1944) chama de pós-modernidade: presenteísmo, cultura do gozo, hedonismo, retomada de valores arcaicos, tribalismos, aceitação (trágica) do destino, vitalismo, descrença profunda nas ideias progressistas e declínio de concepções metafísicas.

Tais características do que Maffesoli entende por mentalidade pós-moderna são fruto de uma espécie de decepção nas ideias de um progresso futuro, descrença na razão. Isto faz que os indivíduos, já cansados de uma dinâmica em que há um resguardo no presente para um aproveitamento futuro, olhem e vivam em prol do tempo presente em toda sua intensidade. Por isso, no ato de nos voltarmos para o presente, não pensamos mais na linha do tempo que conduziria a um futuro melhor, pensamos apenas no agora, esquecendo do tempo e gozando cada instante que, por causa deste mesmo gozo e aproveitamento intenso, se eterniza. Nesta concepção de Maffesoli reside a forma mais adequada de entender todas as manifestações dionisíacas que proliferam nas sociedades atuais, manifestações juvenis outrora vistas apenas com moralismos. Não à toa, os títulos dos livros de Maffesoli trazem um caráter lúdico e dionisíaco: Homo Eroticus, A Sombra de Dionísio, Nos Tempos das Tribos, O Eterno Instante.

Neste cenário, notamos que tudo aquilo que o funk aborda e que pode ser resumido em outro tríptico, “sexo, drogas e ostentação”, vai ao encontro desta dionisíaca e pós-moderna cultura do gozo explicada por Maffesoli em O Eterno Instante: “É tão frequente gritar contra o mundo, que falta às vezes saber celebrá-lo”.

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[1] A palavra “boga” tem aqui o sentido de ânus.

[2] Esta é a forma de representar isoladamente o fonema que corresponde à letra “j” da palavra “Janaína”. A este respeito, ver o alfabeto fonético internacional.

[3] Forma de representar o fonema que corresponde à letra “x” no caso da palavra “xenofobia”, por exemplo.

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Acesse o vídeo de chamada de apresentação do artigo no Facebook: <https://m.facebook.com/CanalDoThiagson/>.

O vídeo na íntegra da apresentação do artigo está no YouTube: <https://www.youtube.com/watch?v=31TjJdGgJNk>.

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TEXTO: Thiago Barbosa Alves de Souza é mestrando do Programa de Pós-graduação em Artes da Unesp, bacharel em Composição Musical também por esta instituição. Foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq durante dois anos (2013-2015), com pesquisa sobre as relações entre a linguística de Roman Jakobson e a análise musical e também possui formação técnica em Música pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul.
Contato do pesquisador: <thiago89alves@gmail.com>.

FOTO: Cena de bailes funks de rua, chamados de fluxos. Imagem retirada do documentário No Fluxo, de Renato Barreiros. (© Reprodução/YouTube)

 

 

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