100 anos de Tropas e boiadas

Artigo estuda edição comemorativa lançada pela Universidade Federal de Goiás

Tropas e boiadas – Edição comemorativa do centenário da primeira edição da obra.
Hugo de Carvalho Ramos,
Editora UFG.

Em 2017, o livro de contos Tropas e boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, completou seu centenário. O Departamento de Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás celebrou a data com o evento “100 anos de Tropas e boiadas”, realizado nos dias 4 e 5 de dezembro. Além de conferências, mesas-redondas e exibições de curtas-metragens, a programação contou com o lançamento da edição comemorativa da obra aniversariante, a 12.ª edição, realizada pela Editora da UFG. Trata-se de um trabalho bem cuidado e fundamentado no zelo de duas outras edições: a 5.ª, de 1965, da Livraria José Olympio Editora, e a 8.ª, de 1997, da Editora da UFG, organizada pelo professor Gilberto Mendonça Teles.

A 5.ª edição traz dados biográficos, ementas, correções relativas às edições anteriores e uma alentada introdução de Manoel Cavalcanti Proença, mantida tanto na 8.ª, como na 12.ª edições. A 12.ª, ora lançada, traz um prefácio do professor Antón Corbacho Quintela, que historia as operações gráficas pelas quais a obra passou desde seu lançamento. Além disso, soma outros três estudos: o do escritor Miguel Jorge, voltado para impressões acerca da linguagem usada por Hugo de Carvalho Ramos para retratar em contos a vida sertaneja; o do professor Revalino Antonio de Freitas, que examina o contexto da obra, a organização e funcionamento da sociedade que definiu os comportamentos dos protagonistas; e o do professor Gilberto Mendonça Teles, que investiga a estrutura diversificada das narrativas, do conto à novela. O já referido texto de Manoel Cavalcanti Proença, que exalta o estilo eloquente do regionalismo na contística de Hugo de Carvalho Ramos, permanece, encerrando o volume.

Os contos de Tropas e boiadas, ao completarem 100 anos, ainda são pouco conhecidos pelo leitor brasileiro. Seu autor morreu em 1921, aos 26 anos. Tímido em vida, cultivou a literatura com poucos amigos e dois irmãos, notadamente, com uma irmã, por meio de cartas, nas quais fica explícita sua preferência pela fatura dos contos de Poe. Tal como Poe e Maupassant, Hugo de Carvalho Ramos ensandeceu e suicidou-se.

Edgar Allan Poe morreu com 40 anos, Anton Pavlovich Tchékhov, com 44 e Guy de Maupassant, com 43. Esses escritores, que nortearam a narrativa do conto literário, morreram na entrada da maturidade. Poe, no final da sua vida, atormentou-se, enlouqueceu, assim como Maupassant. Tchékhov, médico, foi vítima de uma doença incurável da época. A vida literária de Maupassant, talvez, tenha sido a mais rica entre as dos três, uma vez que conviveu com Zola e Flaubert. Tchékhov, o mais reservado entre eles, aproximou-se discretamente de Gorki e Tolstoi. Graças a Charles Baudelaire, a obra de Poe, enquanto vivia, foi mais lida na Europa do que nos Estados Unidos. Maupassant e Tchékhov foram bem acolhidos pelos leitores de seus países.

A presença do legado de Poe na obra de Carvalho Ramos faz-se visível na adoção da narrativa circunscrita, no caso, a um espaço recortado do ermo do sertão goiano e orientada para o desenlace de uma gesta de tropeiros. De modo menos recorrente, o código de conduta do tropeiro de tal gesta é exposto pelo narrador do autor goiano, que, após a construção da cena literária, aproxima-se de um confidente, personagem da história, a fim de confabular, observar seus testemunhos, feitos e façanhas em tropeadas. Essa estratégia literária remete ao conto policial de Poe, ao modo como apresenta o detetive diante de diálogos reservados com o narrador, amigo e confidente.

 

A nova edição é um gesto comemorativo de sucesso, que, certamente, ampliará a divulgação da obra

 

Os contos regionalistas de Carvalho Ramos estabelecem relações com a fábula, a lenda, a crônica, o caso goiano e, surpreendentemente, com a carta, conforme o conto Nostalgias, em que o autor-narrador-personagem evoca, de forma confessional, a memória sertaneja dos ermos goianos, próximo também do narrador de Gente da gleba, única novela do livro, ocupada com as regras da vida rural na representação de algo perpetuado pelo mundo agrícola, estático: o coronelismo, que penaliza um grupo social sertanejo, distante do estado de ânimo de uma sociedade urbana, que experimenta um momento histórico transitório.

Preservando a qualidade de edições anteriores e incorporando novos textos de apresentação e estudo, a nova edição é um gesto comemorativo de sucesso, que, certamente, ampliará a divulgação da obra.

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TEXTO: Luiz Gonzaga Marchezan é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

FOTO DE ABERTURA: © Reprodução/YouTube/Boiada no Estradão

 

 

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