Existem poucas formas de acertar, mas muitas de errar

Ciência é um método de investigação. E, por isso, funciona

Ao longo de toda a vida dormimos cerca de vinte ou trinta mil noites e é comum sonharmos algumas vezes em cada noite. Como muitos sonhos estão relacionados com a realidade e com algo do nosso cotidiano, não é raro ocorrerem coisas em nosso dia a dia com as quais já tenhamos sonhado. E se nunca aconteceu com você, é possível que tenha acontecido com alguma pessoa conhecida. Podemos, por causa disso, concluir que há sonhos premonitórios? Muitas pessoas creem que sim, mesmo tendo as outras dezenas de milhares de sonhos que não se tornaram realidade. Essa conclusão errada acontece com bastante frequência na sociedade e parte do problema tem a ver com o desconhecimento do método científico. Quando uma pessoa deliberadamente escolhe somente os eventos convenientes para suportar certa convicção, essa pessoa incorre em um erro chamado pelos psicólogos de viés de confirmação. Grosso modo, significa escolher somente os exemplos que suportam a nossa hipótese inicial, a nossa convicção ou a nossa preferência.

As pseudociências e medicinas alternativas não conseguem operar além de um placebo

O problema do viés de confirmação pode aparecer também em lugares inusitados como, por exemplo, a revista Nature – uma das mais importantes revistas científicas do mundo. Em 1988, Jacques Benveniste, um médico imunologista francês que estava à frente da unidade de imunologia e inflamação do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica francês (INSERM, na sigla em francês), publicou um artigo naquela revista [1] descrevendo um experimento onde ele identificava um princípio chamado de “memória da água”, ou seja, alguma substância em contato com a água deixa a sua “impressão digital” de maneira que essa substância não mais precisa estar presente fisicamente na amostra: a água teria se tornado uma água modificada. Em outras palavras, a água possuiria, de alguma maneira, propriedades herdadas do contato que teve com outra substância. A publicação desse artigo acendeu uma luz nos praticantes da homeopatia, já que a comprovação experimental dessa tal memória justificaria a adoção dos “medicamentos homeopáticos” – compostos exclusivamente de água (podem também ser compostos por álcool, mas o que importa aqui é que não existe nenhuma molécula de algum princípio ativo). Após a publicação do artigo de Benveniste diversos outros cientistas se manifestaram dizendo que os resultados não podiam ser reproduzidos por outros laboratórios. Finalmente, um artigo de autoria do próprio editor da Nature, John Maddox, do mágico e cético dedicado a desmontar mitos em ciência James Randi e de um especialista em fraudes, Walter W. Stewart, esclareceu que o experimento executado por Benveniste descartou dados que iriam contra a sua convicção inicial [2]. Maddox, Randi e Stewart desenharam então um experimento duplo-cego e randomizado, contando com a autorização e a participação do laboratório de Benveniste. No experimento original, como os resultados eram analisados sempre pelas mesmas pessoas da equipe, e elas sabiam quais amostras tinham sido tratadas com a solução ultradiluída, havia a possibilidade de um viés de confirmação. Ainda mais porque os resultados dependiam da análise de células ao microscópio, ou seja, uma análise que pode estar sujeita, muitas vezes, a alguma subjetividade. Após o novo desenho do experimento, onde ninguém sabia com quais amostras estava lidando (daí a expressão duplo-cego), o experimento não funcionou e concluiu-se que se tratava de um viés de confirmação não intencional. O grupo de Benveniste queria muito provar algo que já acreditava ser verdade, e quando queremos muito que algo seja verdadeiro, estamos muito mais suscetíveis ao viés de confirmação. De fato, a ciência não funciona assim. Diga-se de passagem que alguns dos autores da publicação eram financiados pela empresa de medicamentos homeopáticos Boiron, fabricante de um antigripal composto unicamente de açúcar e água, conforme escrito na bula.

O problema do viés de confirmação também acontece em outras áreas da ciência. Em 1915, Albert Einstein, o próprio, e Wander Johannes de Haas, um físico e matemático holandês, conduziram um experimento para a determinação do fator giromagnético do elétron (o valor aceito atualmente é bem perto de 2). Segunda a teoria elaborada por eles, o valor dessa grandeza deveria ser algo em torno de 1. Eles realizaram o experimento e chegaram ao incrível valor, errado, de 1.02 ± 0.10. Concomitantemente, o físico norte-americano Samuel Jackson Barnett, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, realizou experimentos e chegou a um valor próximo de 2, ou seja, próximo do valor correto. Porém, em vista do resultado predito e medido por Einstein e de Haas, Barnett repetiu o seu experimento e chegou finalmente a um valor compatível com 1 (1.25 ± 0.15). Especula-se que houve também algum efeito proveniente do viés de confirmação (ver a referência [3]).

É preciso driblar o perigo

Hoje em dia, diversos pesquisadores têm utilizado técnicas para evitar esse tipo de tendenciosidade. Na medicina, para o teste de medicamentos utiliza-se um teste do tipo duplo-cego onde nem os cientistas que administram o remédio e nem os pacientes sabem se estão recebendo remédio ou placebo. No caso da física, em particular a física de partículas e a cosmologia, utiliza-se uma técnica muito engenhosa chamada de análise às cegas. Essa análise pode, por exemplo, somar um número aleatório aos dados experimentais. Esse número somado é conhecido, mas não por aqueles que estão realizando as análises estatísticas dos resultados do experimento. Após a análise, os pesquisadores apresentam os resultados de sua medição e então subtrai-se o valor somado e revela-se o valor de fato da grandeza que se está querendo medir.

O viés de confirmação ocorre também quando olhamos para o valor de um resultado experimental e o comparamos inconscientemente com aquilo que esperamos

Muitas vezes o viés de confirmação ocorre também quando olhamos para o valor de um resultado experimental e o comparamos inconscientemente com aquilo que esperamos. Se essa comparação sugerir que o valor obtido está em desacordo com a expectativa, procuramos uma razão para descartá-lo: uma falha no equipamento, uma queda de tensão, um procedimento feito de forma desatenta por um colega iniciante, etc. Uma forma de evitar esse tipo de tendenciosidade é investigar, antes de olhar o resultado, se há alguma razão para descartá-lo. Em caso afirmativo, deve-se descartar o dado imediatamente. Mas se não houver razão para descartá-lo, aceite o dado, independentemente do seu valor.

Depois disso, logo causado por isso

Outro erro que se pode cometer ao analisar dados experimentais é a falácia post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo causado por isso). Nós evoluímos para enxergar padrões. Assim, a falsa impressão de que se A aconteceu antes de B, então A causou B, é natural para o ser humano. O povo de Novas Hébridas (um conjunto de ilhas no sul do oceano Pacífico que desde 1980 formam a República de Vanuatu), nos idos de século XVIII, acreditava que piolhos faziam bem à saúde. Essa conclusão esdrúxula era proveniente de uma constatação empírica: os habitantes das Novas Hébridas observaram durante séculos que pessoas de boa saúde possuíam piolhos, e que indivíduos doentes com frequência não tinham. Portanto, piolhos faziam bem à saúde [4]. O estabelecimento de correlações, sejam correlações positivas ou negativas, não indica, necessariamente, uma relação de causa e efeito. Não é porque você colocou o seu chinelo da sorte que o seu time de futebol ganhou um determinado jogo. Também não é por causa do alinhamento dos planetas que o seu trabalho não dá certo. Pode até se encontrar alguma correlação entre dois tipos de evento, mas o estabelecimento de uma relação de causa e efeito é algo mais complicado e que sempre precisa ser investigado. Certamente, a correlação de qualquer coisa que aconteça durante o seu dia com a utilização de meias nos pés, por exemplo, deve ser algo próximo de 100% (a menos que você more em uma praia, ou esteja em férias ou alguma outra coisa). Todavia, podemos afirmar com grande segurança, que as meias não devem ser a causa de quase nada daquilo que acontece na sua vida. Voltando ao povo de Novas Hébridas, o que acontecia era o seguinte: é provável que quase toda a população do arquipélago tivesse piolhos. Porém, quando alguém adoecia e ficava com febre, o aumento da temperatura corporal expulsava os piolhos da cabeça. Isso fazia com que o enfermo não apresentasse piolhos e, portanto, assumiu-se os piolhos como causa da boa saúde.

Vários outros mitos já foram propagados utilizando-se dados de correlação. Um mito que se propaga até hoje é o de que vacinas causam autismo. Esse mito se popularizou após a publicação dos trabalhos com dados falsos de Andrew Wakefield, um médico britânico que teve sua licença cassada por conta da fraude nesses trabalhos. Os artigos foram retratados, mas ainda é comum escutarmos absurdos como este envolvendo vacinas. O que também deu força para esse mito é o fato de que o autismo se manifesta mais frequentemente aos 3-4 anos de idade, na mesma época em que as crianças recebem a vacina tríplice viral.

Em épocas de redes sociais, comumente nos deparamos com algumas pesquisas de opinião provenientes de diversas fontes. Antes de eleições isso pode ocorrer com uma frequência um pouco maior. Porém, ao saírem os resultados as pessoas se espantam que aquela pesquisa da rede social (e que às vezes a própria pessoa realizou no seu rol de amigos) não se concretizou. Segundo dados de 2017 da revista britânica The Economist, cerca de 34% da população brasileira não possui nenhum acesso à internet. Da população que acessa a internet, aproximadamente 70% acessam o Facebook (dados de 2016 divulgados por essa empresa). O espaço amostral neste caso é tão restritivo que não podemos esperar nenhuma conclusão razoável sobre qualquer consulta feita pelo Facebook (a não ser aquelas que talvez envolvam o Facebook em si): aquela pesquisa teria tomado uma pequena amostra da população brasileira que tem acesso à internet, e que acessa o Facebook, e que ainda se interessa por responder a alguma pesquisa. Portanto, qualquer resultado observado deve tratar-se de pura coincidência, isto é, mera flutuação estatística.A estatística é sem dúvida uma ferramenta poderosíssima sem a qual nenhum experimento faria sentido. Porém, é muito importante saber utilizá-la. Com bastante frequência, diversas pessoas (incluindo cientistas) cometem erros provenientes do uso incorreto da estatística ou de interpretações precitadas de resultados, como aquele que levou pesquisadores a concluírem que extremistas veem o mundo em branco-e-preto [5]. Uma boa coleção de situações nas quais o acaso pode nos confundir e mesmo determinar nossas vidas aparece no livro O andar do bêbado, do físico norte-americano Leonard Mlodinow [6]. Essas imprecisões vindas de cientistas acabam fomentando a ignorância e a credulidade da população em geral. Isso pode ter como consequência, por exemplo, o comprometimento da saúde de muitas pessoas e o gasto inútil de dinheiro – como no caso da fosfoetanolamina e do enorme mercado movimentado pelas pseudociências e pela medicina alternativa. No caso particular da medicina alternativa existem outros fatores, além do viés de confirmação, que contribuem muito para que ela pareça fazer efeito nos seus usuários. São eles: o efeito placebo, a cura espontânea e a regressão à média.

Outras falácias escondidas

Muitas doenças crônicas são cíclicas, isto é, apresentam períodos de altos e baixos. Não por acaso, são exatamente estas doenças que parecem se beneficiar mais da medicina alternativa. Imagine que você possua uma doença como a artrite, que apresenta picos intensos de dor. Quando você estaria mais propenso a buscar uma alternativa? Justamente no pico da doença. Então, em meio ao desespero de dor, você resolve fazer um tratamento alternativo, e logo em seguida a dor melhora. Porém, se a doença está em seu pico, é natural que haja em seguida uma redução da dor. No entanto, fazendo uma correlação falaciosa entre a redução da dor e o tratamento alternativo, você conclui que o tratamento funcionou. O que aconteceu de fato é algo denominado regressão à média: a dor iria melhorar de qualquer maneira, independentemente de qualquer tratamento alternativo.

Outro fator importante é a cura espontânea. Além das doenças cíclicas, temos diversas doenças que podem se resolver sozinhas durante fases da vida, como asma, bronquite e alergias. É muito comum, pois, vermos relatos de crianças que sofriam de asma até certo momento da vida e, após um tratamento de alguns anos com algum tipo de medicina alternativa, nunca mais tiveram nenhum episódio da doença. No entanto, não percebemos que um número igualmente expressivo de crianças na mesma situação que nunca usaram medicina alternativa tiveram o mesmo resultado. Essa situação acontece frequentemente com a gripe. Há uma anedota em ciência que diz que uma gripe costuma passar em 7 dias, mas se você usar homeopatia ela passa em uma semana.

A ciência não é individual e nem relativa. Ela é um método de investigação. E, por isso, funciona

E finalmente, temos o efeito placebo propriamente dito. Vários estudos bem elaborados demonstram que a sugestão (acreditar que está recebendo um tratamento) pode acionar receptores de dor no cérebro e realmente diminuir a dor. O placebo exibe um efeito fisiológico e mensurável. Um estudo clássico conduzido por um grupo de pesquisadores italianos em 2001 [7] demonstrou como funciona o efeito analgésico do placebo no cérebro. O estudo mostrava a redução de dor em pacientes que receberam placebo. Temos receptores para analgésicos no cérebro. Alguns desses receptores são chamados de opióides, porque funcionam para drogas como morfina, que são derivados do ópio. O estudo imaginou que o efeito placebo poderia estar agindo por meio destes receptores, e por isso reduzindo a dor. Para testar, usaram um inibidor destes receptores. E realmente o inibidor de receptores opióides no cérebro conseguiu bloquear o efeito placebo; os pacientes voltaram a sentir dor. Isso demonstrou que o placebo ativava realmente um receptor, e isso podia ser bloqueado com outra droga – o inibidor – de forma que quando administrados em conjunto, o placebo perdia seu efeito. Ou seja, o placebo apresenta um mecanismo bioquímico real.

Quando realizamos um estudo randomizado, duplo-cego e com grupo placebo, estamos tentando justamente eliminar os seguintes fatores de confusão: o viés de confirmação, a regressão à média, a cura espontânea e o efeito placebo. Ao “cegar” os pacientes e pesquisadores, eliminamos o viés de confirmação, pois ninguém sabe o que está sendo administrado. Eliminamos também a diferença resultante de efeito placebo, pois se o paciente não sabe o que está tomando, a autossugestão independe daquilo que o paciente está recebendo. Randomizando os pacientes, minimizamos também a regressão à média, pois estamos lidando com muitas pessoas em várias fases da doença, além de termos uma boa amostra para análise estatística. E assim, tentando controlar todos esses fatores, podemos ter uma resposta científica de se algo funciona ou não.

Entendendo esse processo, fica mais claro porque as pseudociências e medicinas alternativas não conseguem operar além de um placebo. E fica claro também porque as pessoas continuam acreditando que funcionam, pois quando analisadas de forma individual, podem realmente dar a falsa impressão de eficácia. Mas a ciência não é individual e nem relativa. Ela é um método de investigação. E, por isso, funciona.

REFERÊNCIAS

[1] E. Davenas et al., Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against IgE, Nature 333, 816 (1988).

[2] J. Maddox, J. Randi e W. W. Stewart, “High-dilution” experiments a delusion, Nature 334, 287 (1988).

[3] M. Jeng, A selected history of expectation bias in physics, American Journal of Physics 74, 578 (2006)

[4] D. Huff, Como mentir com estatística, Editora Intrínseca (2016).

[5] R. Nuzzo, Nature, “Scientific method: Statistical errors”, http://www.nature.com/news/scientific-method-statistical-errors-1.14700

[6] L. Mlodinow, O andar do bêbado, Editora Zahar (2009).

[7] M. Amanzio, A. Pollo, G. Maggi, F. Benedetti, Response variability to analgesics: a role for non-specific activation of endogenous opioids. Pain. 2001 Jul;93(1):77-84.

_____________

Marcelo Takeshi Yamashita é doutor em Física, especialista em Física Atômica e Nuclear, é autor de trabalhos de divulgação científica tanto em revistas nacionais como internacionais. Atualmente, é diretor do Instituto de Física Teórica da unesp.

Natalia Pasternak Taschner, bióloga, doutora em Microbiologia, é diretora no Brasil do festival internacional de divulgação científica Pint of Science, fundadora do sítio cafe-na-bancada.com.br e colunista da revista Saúde é Vital. Atualmente, é coordenadora científica dos planetários de São Paulo.

Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da USP, tem se dedicado à análise de dados experimentais e é autor de trabalhos de divulgação científica e do livro Um pouco da física do cotidiano.

_____________

Deixe uma resposta

*