Tempos de ditaduras

Para parcela considerável da população e de estudiosos que se debruçam na análise da atualidade brasileira, estamos a viver tempos de ditadura do Poder Judiciário, do que se convencionou chamar de “politicamente correto” e, mais recentemente, do celular.

Não vou tecer considerações sobre os dois primeiros tipos de ditadura. Penso que muito já se falou e se tem falado a respeito. Importa-me, no momento, dissertar sobre a ditadura do telefone móvel.
Antes, porém, é certo que a invenção e a popularização do celular trouxe inúmeros benefícios para nossa vida. Só para ficar em três exemplos:

– lembro-me de que era motivo de pânico quando tinha que viajar a longas distâncias, antes da invenção do celular. Dependendo do local, caso ocorresse algum problema mecânico ou elétrico no automóvel, praticamente eu estava condenado a ficar na estrada ou a depender de alguma alma caridosa que me socorresse;

– igualmente, em situações de acidentes domésticos, o uso do celular foi uma ferramenta crucial para que eu fosse socorrido;

– há, ainda, a otimização do tempo. Contatos que demandavam o envio de correspondência, que demoravam tempo considerável – o serviço de correios andava a passos de cágado, como disse Bishop –, passaram a ser resolvidos em poucos minutos. E, nessa era em que o tempo passou a ser a principal moeda, gastá-lo com atividades julgadas, hoje, prosaicas, soa como heresia.

Apesar disso, o celular – criado para nos auxiliar a concretizar o projeto moderno de nos tornarmos Senhores da natureza – transformou-se em nosso carcereiro. Sem contar os prejuízos consideráveis que ele tem produzido no campo das relações intra e interpessoais.
Hoje, vê-se mais um efeito pernicioso do seu uso como um fim em si mesmo. Refiro-me às condutas autoritárias de pessoas que consideram como imperativo categórico a) atender às ligações imediatamente; b) ligar em horas inoportunas; e c) invadir a privacidade, a ponto de não se conseguir mais separar o mundo do trabalho, do de descanso e do de entretenimento.

Em outras palavras, a quase totalidade das pessoas que me ligam, julgam que tenho a obrigação de atender imediatamente às ligações, independentemente do que eu estiver fazendo. Sequer ocorre a tais pessoas que posso estar envolvido com outros afazeres, a impedir-me de atendê-lo no instante em que tocam.
Diante disso, já me falaram que se eu não quero ou não posso atender, deveria deixar mensagem gravada informando que estou, por exemplo, em reunião. Com isso, criou-se mais uma obrigação e trabalho para mim que, quase sempre, esqueço de fazer.

Ligar em momentos inoportunos já se tornou costume. O mais curioso é que fazem isso justamente quando estou a assistir uma partida do esporte bretão, namorando, estudando ou dormindo. A hora das refeições já é quase considerada um período adequado para eu receber e ter a obrigação de atender às ligações. Assim, em vez de as pessoas se dedicarem à alimentação e ao entabulamento de conversas com seus familiares, este tem passado a ser o momento para atendimento de ligações telefônicas.
Nesse aspecto, são campeãs as empresas que buscam vender algum produto ou oferecer empréstimos bancários.
Argumentam, ainda, em tom impositivo, porque eu não retornei determinada ligação. É evidente que posso ter feito de maneira proposital. Porém, não ocorre a quem me ligou pensar que simplesmente eu não vi que buscaram entrar em contato, por meio dessa engenhoca. Assim, sou obrigado autoritariamente a realizar mais uma função: a de verificar a todo instante se alguém me ligou.

Sem contar mais dois aspectos.
Primeiro: todas as vezes que me ligam ou enviam mensagens, o celular sinaliza de alguma maneira. Como consequência, o tempo em que eu me encontrava concentrado na realização de alguma tarefa que demandava concentração, vai para o “espaço”. Conforme estudos recentes, esse é um dos motivos para a perda da concentração tornando epidêmicas queixas nesse sentido, e de tempo para novamente conseguir “retornar” ao estado mental em que me encontrava (em torno de 30 minutos).
Segundo: com exceção de uns poucos, os demais sequer dão-se ao trabalho de indagar se posso falar naquele momento e, imediatamente, quem ligou já começa a falar, sem me dar tempo de, ao menos, dizer educadamente que naquela ocasião não posso atender e que o farei mais tarde. Sem contar que, no caso de alunos, estes tendem a ficar divagando acerca da necessidade de ficar sabendo quanto tirou em determinada prova ou se eu corrigi o seu texto de dissertação ou de tese. Em um desses dias, eu disse: “estou tentando terminar a correção/revisão. Entretanto, você – caro aluno – não está deixando, pois enquanto eu estou ao telefone móvel lhe atendendo, não estou realizando o trabalho que possibilite lhe dar a resposta que tanto deseja.
Como defensor do estado de Direito e da privacidade, digo: Abaixo todas as formas de ditadura! Abaixo a ditadura do celular!

Nelson Pedro Silva é professor da Unesp de Assis

_____________

Deixe uma resposta

*