Legados da diáspora

Transculturação, memória e identidade na poesia de afro-descendentes

diáspora negra continua repercutindo e inscrevendo seu legado na produção dos poetas afro-brasileiros contemporâneos, seja por meio da sua mitologia pessoal, seja pela linguagem, marcada pela inserção de ritmos, vocabulários e termos originados da oralidade africana, buscando construir uma identidade a partir das peculiaridades do seu passado, como herdeira de uma ancestralidade.

Focalizando a obra do poeta Salgado Maranhão, o docente e pesquisador do Departamento de Literatura e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp/Araraquara, Paulo Andrade vem desenvolvendo uma pesquisa que busca delinear aspectos da poesia brasileira relacionados a alguns dos principais legados da diáspora africana para a configuração e a expressão da memória e da identidade da população negra na literatura.

Tendo se realizado, numa primeira etapa, como estágio pós-doutoral no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, supervisionado por Rosângela Sartechi, a pesquisa vai ter um desdobramento internacional, com financiamento da FAPESP (Pesquisa no Exterior Bolsa-PBE), em novo estágio de Paulo Andrade como visiting scholar, no Department of Modern Languages and Cultural Studies, na University of Alberta, Canadá, sob a supervisão de Odile Cisneros.

Paulo Andrade conta que o trabalho começou a ser configurado a partir de um projeto trienal, iniciado em 2015, sobre o tema “Memória e resistência: relações entre lírica e sociedade na poesia de Salgado Maranhão”. “Ao longo da pesquisa foi avultando a necessidade de analisar com maior profundidade o modo como o fenômeno da diáspora africana afeta a mitologia pessoal dos poetas negros brasileiros, por meio da encenação de temas relativos a perdas, à terra, ao mar, ao corpo, à busca da origem, evidenciando uma empenhada tentativa de recuperar a memória da ancestralidade africana e uma adesão à postura de resistência, tomando-se este conceito no sentido que lhe confere Alfredo Bosi, no ensaio “Poesia resistência”, publicado no livro O ser e o tempo da poesia (1977), que define a lírica moderna como sendo essencialmente uma resistência às opressões da sociedade.

Nascida do seio da poesia popular nordestina, a poética refinada de Salgado Maranhão é alimentada por múltiplas vozes e referências, a começar pela explícita musicalidade do cordel e suas variáveis, somando-se a tradição dos ritmos e ritos de matriz africana, que se juntam ao olhar de leitor inquieto e atento da tradição brasileira, da literatura ocidental e, sobretudo, do legado da diáspora negra. Além de ser um dos mais respeitáveis e premiados poetas contemporâneos, Maranhão tem um respeitável trabalho como compositor, parceiro de Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Ivan Lins, Moacir Cruz, Herman Torres, Carlos Pita, Vital Farias, Xangai, Chico César, entre outros, e vem atuando desde 1974 pela causa negra. Um dos fundadores do IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras), no Rio de Janeiro, também ajudou a criar, em 1980, o “Negricia”, com os poetas Éle Semog, Conceição Evaristo, Delei de Acari, Hélio de Assis e José Carlos Limeira, para divulgação da produção poética de autores negros em saraus e recitais.

A necessidade de compreender a participação de Salgado Maranhão na tradição literária afro-brasileira, bem como a intenção de contextualizar sua obra numa dimensão histórica e antropológica mais ampla, transcultural e transnacional, a partir do diálogo com as Américas, motivaram os desdobramentos posteriores do projeto.

Partindo da análise dos textos poéticos, reunidos nos livros A cor da palavra (2009), Punhos da serpente (1989), Palávora (1995), O beijo da fera (1996), Mural de ventos (1998), Sol sanguíneo (2002), Sol de gaveta (2005), A pelagem da tigra (2009), Óperas de não (2015) e Avessos avulsos (2016), o pesquisador reflete sobre como o mito da origem se articula com os motivos do mar, da terra e do corpo, enquanto espaços de resistência ao apagamento da memória. Tais temáticas ganham dimensão estruturante no universo poético de Salgado Maranhão, à medida que o sujeito lírico busca plasmar seu estar-no-mundo a uma ancestralidade que foi fraturada pela experiência da modernidade e que o poeta busca recuperar, via linguagem. A busca de um retorno é realizada por uma linguagem que gera tensões entre tradições arcaicas e elementos da modernidade, entre tempo e memória, constituindo-se como um lugar de resistência, de afirmação cultural e identitária afro-brasileira, que explora a transculturação e a heterogeneidade em várias dimensões discursivas.

Um dos maiores desafios da pesquisa tem sido encontrar a fundamentação teórica e os procedimentos metodológicos adequados aos objetivos propostos. A primeira dificuldade é estabelecer a própria especificidade do material a ser estudado, uma vez que a literatura escrita por negros mantém uma relação de autonomia e interdependência dentro do sistema literário nacional. Os problemas que envolvem o conceito de literatura afro-brasileira estão ainda em construção e têm sido motivo de intensos debates, desde os anos 1970, quando se iniciou uma discussão sobre como se referir à literatura escrita por um enunciador que se assume como negro, identificando-se com a preservação do patrimônio cultural de origem africana. Desde esse tempo surgiram muitas obras relevantes no Brasil, como as de Zilá Bernd, Eduardo Assis Duarte e Luiz Silva Cuti, entre outros. Ainda hoje, porém, críticos e escritores hesitam na utilização de termos como afro-brasileira ou literatura negra brasileira.

O pesquisador da Unesp/Araraquara salienta que quando se refere à literatura afro-brasileira é preciso levar em consideração a sua especificidade dentro do sistema literário nacional. Se, por um lado, busca-se desvencilhar do engessamento do rótulo, sob a argumentação de que a criação literária transcende as imposições geográficas, de gêneros, de raça ou religião, por outro, há um esforço urgente de fortalecimento da identidade cultural de grupos, a partir do desenvolvimento de teorias e conceitos para análise de tradições culturais específicas e definindo seu caráter distintivo. Uma das principais características da poesia feita por afrodescendentes, além de seu poder de enfrentamento e constante questionamento do cânone, é a recriação de uma identidade marcada pela diferença. Além de Zilá Bernd, o professor da UFMG Eduardo Assis Duarte, coordenador do portal Literafro, estabelece, no ensaio “Literatura afro-brasileira: elementos para uma conceituação”, publicado no volume 22 da revista do Arquivo Nacional, Acervo, cinco critérios que conferem especificidade a esta produção poética, que são adotados, ao lado de outras ferramentas teóricas, por Paulo Andrade.

O primeiro critério é a temática, que ajuda a configurar o pertencimento de um texto à literatura afro-brasileira. O uso de temas da vida e da população resultantes de vivências próprias ou de estudos e observações conscientes. O segundo é o da autoria. Trata-se de uma escrita proveniente de um autor negro e que reivindique e inclua para si essa condição em seu projeto literário. O terceiro, é o ponto de vista. Não basta ser afrodescendente ou abordar o tema. É necessário assumir uma perspectiva e uma visão de mundo identificada com a história, a cultura, e com questões inerentes à vida desse segmento populacional. O quarto, é a linguagem fundada na constituição de uma discursividade específica, com finalidade estética e empenhada na transformação e reabilitação semântica da linguagem pela inserção de um vocabulário pertencente às práticas linguísticas oriundas da África e inseridas no processo transculturador. Por fim, o quinto componente aponta para a formação de um público leitor afrodescendente, como fator de intencionalidade próprio a essa literatura.

Aprofundando uma reflexão crítica acerca das semelhanças e divergências entre os diferentes teóricos, e incorporando novas dimensões para as questões analisadas, Paulo Andrade pretende ampliar seu corpus, na próxima etapa do trabalho a ser desenvolvido no Canadá. Partindo da hipótese de Zilá Bernd (1988) de que há fatores de transtextualidade que colocam os textos de literatura negra em relação, o pesquisador pretende investigar de que modo os elementos advindos de um mesmo tronco cultural, a diáspora negra, são representados na poesia afro-canadense e na poesia afro-brasileira. A proposta justifica-se pelo fato de que Brasil e Canadá são países que possuem uma diversidade cultural em suas raízes e que têm em comum o fato de terem sido colonizados por nações europeias. Desse modo, serão investigados os denominadores comuns (temas, motivos) entre a poética do norte-canadense George Elliott Clarke (1960 – ) e a obra de Salgado Maranhão (1953 – ), a fim de se observar o diálogo que a poesia de ambos estabelece com a temática da diáspora nas encruzilhadas étnico-culturais das Américas e com a transculturação. Além de descrever e analisar os procedimentos técnicos e formais de ambos os poetas, a pesquisa deverá enfatizar as linhas de força em comum, as especificidades discursivas e, sobretudo, como cada poeta, em contextos históricos, sociais e econômicos específicos, mas com elos identitários afins, reelabora as questões diaspóricas e constrói sua mitologia pessoal, suas referências e temas (tais como terra, mito das origens e memória ancestral) por meio da linguagem poética. A análise da produção literária contemporânea da diáspora negra nas Américas, representada aqui pelas obras dos dois poetas que integram o corpus, deverá ser feita mediante uma metodologia interdisciplinar e comparativa.

Para tanto será necessário mobilizar outros teóricos, como o antropólogo Fernando Ortiz, que, nos anos 1940, cunhou o conceito de transculturação, na obra Contrapunteo cubano del tabaco y del azúcar, e outros que agregaram novos significados ao conceito, como Nancy Morejón, no livro Nación y mestizage em Nicolás Guillén (1982), ou Antonio Cornejo Polar, que desenvolve uma crítica interdisciplinar para estudar o “conflito implícito numa literatura produzida por sociedades internamente heterogêneas, inclusive multinacionais dentro dos limites de cada país, ainda marcadas por um processo de conquista e uma dominação colonial e neocolonial”, como faz no livro Escribir en el aire: Ensayo sobre la heterogeneidad socio-cultural de las literaturas andinas (1994). A análise do fenômeno da “hibridação” cultural efetuada por Néstor Garcia Canclini, no livro Culturas híbridas (2003), é outra referência teórica importante. O livro Da diáspora (2003), de Stuart Hall, no qual o sociólogo e teórico da cultura jamaicana desenvolve o conceito de diáspora, com base em seu estudo dos assentamentos de negros caribenhos no Reino Unido, numa era de globalização crescente, é outra fonte importante, da qual o pesquisador tira um dos seus conceitos-chave.

Finalmente, importa ressaltar a obra de Roland Walter, Afro-América: diálogos literários na diáspora negra das Américas (2009), que enfatiza o fato de que as comunidades negras têm forjado culturas compostas a partir das “ruínas do holocausto histórico”, por meio de uma criatividade mítico-poética, caracterizada por diversos processos de apropriação, ilustrando o importante papel da memória neste processo de resistência. Desse modo, o eixo que estrutura a pesquisa é a busca de um sentido literário de pertencimento, uma vez que um dos problemas vivenciados pela população de afrodescendentes é a “perda de lugar” que herdou de seus antepassados, os povos africanos escravizados.

Paulo Andrade, professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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