Que Copa do Mundo veremos?

Instabilidade político-econômica do Brasil lança novos desafios à cobertura do Mundial de Futebol na Rússia

partir do dia 14 de junho, grande parte dos meios de comunicação de todo o planeta terá concentrado suas atenções na Copa do Mundo de futebol disputada na Rússia. Mais uma vez, como vem acontecendo a cada quatro anos, diferentes nações dos cinco continentes participarão de um torneio que, ao longo das últimas décadas, tornou-se o maior acontecimento esportivo em audiência global.

Ao lado de outros eventos televisados para diferentes países e que também catalisam a atenção do público (como casamentos reais, posses de estadistas, funerais de celebridades, atentados terroristas, conflitos armados, etc.), as Copas do Mundo também podem ser vistas como “eventos midiáticos”, como definidos pelo antropólogo francês Daniel Dayan e pelo sociólogo norte-americano Elihu Katz na obra Media events: the live broadcasting of history (Harvard University Press, 1994). Os “eventos midiáticos” seriam aqueles que empregariam a potência eletrônica dos meios de comunicação para atrair a atenção mundial e contar simultaneamente uma história.

Além disso, esses eventos promoveriam um “convite ao rompimento da rotina diária” e um convite à união em torno de uma “experiência festiva”. Eles seriam sempre transmitidos ao vivo e planificados previamente, apesar de seu elemento de imprevisibilidade. Por fim, promoveriam “ocasiões cerimoniais”, nas quais se conjugaria um tratamento estilístico reverente e protocolar, como se o público fosse transportado para o “centro sagrado de nossa sociedade”.

Não é difícil compreender o quanto as transmissões da Copa do Mundo pela televisão brasileira vêm cristalizando continuamente essa experiência festiva em torno de ocasiões cerimoniais (os jogos), transportando o público para o “centro sagrado de nossa sociedade”, numa catarse coletiva em torno das conquistas no futebol. Para tanto, este “evento midiático” que é a Copa do Mundo passou a exigir cada vez mais investimentos das empresas de comunicação para poderem “contar uma história”, por um lado, e para poderem acompanhar uma crescente sofisticação e mercantilização da própria atividade esportiva, por outro.

Nesse ponto, é inegável considerarmos que os meios de comunicação, ao longo do tempo, tiveram uma participação singular no processo de popularização e difusão do futebol. O fato esportivo ganhou novas dimensões depois que o rádio, num primeiro momento, e a televisão, mais tarde, surgiram na mediação das competições. Com o incremento desses novos meios, os jornais impressos tiveram que deixar de lado o mero registro dos jogos para especializar suas equipes de cobertura e desenvolver melhorias nas coberturas esportivas.

Desde as últimas décadas do final do século XX, entretanto, as televisões passaram a ter um protagonismo ímpar na mediação dos megaeventos esportivos, tendo em vista a necessidade de se adquirir previamente os direitos de transmissão de qualquer torneio. Diante dessa condição, os meios televisivos têm continuamente intensificado o trabalho de valorização do produto adquirido, de forma a cativar anunciantes e patrocinadores – e, em última instância, as audiências. Tornam-se também consorciados das entidades que promovem aqueles eventos, intensificando uma cobertura quase anódina do contexto da respectiva competição. Daí que é necessário nos fazer crer que o “escrete canarinho” é sempre favorito ao título, já que isso faz parte de uma estratégia de marketing do universo midiático.

No caso específico do Brasil, tanto o grupo que monopoliza as transmissões do futebol nacional (as organizações Globo) quanto o mercado publicitário têm se esforçado em criar um clima de euforia em torno da seleção comandada pelo técnico Tite e protagonizada pelo astro Neymar Jr. O problema é que nenhum desses atores, e nem mesmo o resto da equipe, conseguiu cativar as atenções do público e da opinião pública como ocorrido em Copas passadas. Mesmo o sonho em torno do tal hexacampeonato não tem sido capaz de galvanizar o entusiasmo do público brasileiro como em outras épocas.

Depois que a Constituição Brasileira de 1988 instituiu o mandato de quatro anos para governadores e presidente da República, estabeleceu-se uma correlação inusitada entre política e futebol: desde 1994, temos coincidido os anos de eleições majoritárias aos cargos de presidente da República e de governadores de Estado no Brasil com os anos de realização de Copas do Mundo. Neste ano, essa coincidência ganhou novas dimensões, inexistentes em torneios passados.

Se, em 2014, na Copa realizada no Brasil, esboçava-se uma forte contestação à presidência de Dilma Rousseff (manifestações que não se viram nos Mundiais anteriores), é provável que o caldeirão escaldante em que se transformou a cena política brasileira após o impeachment da própria Dilma em 2016 tenha transformado inclusive a percepção do público em torno da cobertura que será feita pelas emissoras de televisão sobre a Copa do Mundo. Resta saber, assim, a que tipo de competição assistiremos nas telas de televisão, dada a infindável instabilidade político-econômica que o Brasil vive.

Com as credenciais de ter disputado todos os mundiais até hoje e de ser o maior vitorioso na história das Copas, o Brasil vinha reatualizando continuamente o mito de ser o país do futebol – ou de ser a Pátria em Chuteiras, na expressão cristalizada pelo jornalista Nelson Rodrigues. No entanto, parece que tais chuteiras estão cada vez menos brilhantes, haja vista o crescente desinteresse do públ

ico em torno do futebol – algo atestado por algumas pesquisas veiculadas recentemente no país.

No dia 27 de maio de 2018, data em que o país vivia os efeitos de uma greve sem precedentes de caminhoneiros, a TV Globo tratou da questão ao longo de todo o dia. Na transmissão do campeonato brasileiro, à tarde, chegou a dividir a tela do jogo com as imagens da decolagem do avião que levava a seleção brasileira para a Inglaterra, antes da viagem definitiva para a Rússia. Comoção quase zero! Diante de tantos problemas relacionados à estabilidade social, parece que ninguém estava interessado em acompanhar a despedida da delegação canarinho.   

As indefinições em torno das eleições presidenciais em 2018, a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, o assassinato não resolvido da vereadora carioca Marielle Franco, as suspeitas em torno de Michel Temer e de outros nomes do governo federal, tudo isso compõe um cenário político de alta combustão, que se mistura à intervenção federal no Rio de Janeiro, ao aumento desenfreado da violência urbana e às incertezas em torno de uma economia que ainda não engatou uma rota de crescimento mais robusta.

Por tudo isso, a Copa de 2018 deverá pôr à prova a forma como esse “evento midiático” tem sido concebido pelas televisões brasileiras e como ele será recebido pelo público. É possível que o trauma dos 7 x 1 diante da Alemanha em 2014 tenha provocado uma ressaca ainda não curada na cabeça do torcedor brasileiro, que continua a olhar para a seleção brasileira com desconfiança. Mas é mais provável que o descrédito da população diante da cena sociopolítica nacional também esteja pautando o desânimo do torcedor brasileiro perante o mundial da Rússia.

Quando a seleção brasileira conquistou a Copa do Chile, em 1962, o jornal Última Hora estampou no dia 18 de junho, um dia após a decisão contra a então Checoslováquia, as seguintes manchetes: “‘Taça do Mundo’ é nossa mais 4 anos” e “Povo canta a vitória final nos 4 cantos do país: ‘mesmo sem arroz e feijão, o Brasil é Bicampeão!’”. Em 2018, os transtornos vividos no final de maio com a paralisação dos caminhoneiros nos mostraram algo distinto: que o brasileiro não está mais disposto a trocar arroz e feijão por um título de Copa do Mundo. Resta saber se o hexacampeonato na Rússia será capaz de reverter tudo isso e nos fazer esquecer, ainda que por algumas horas, das mazelas cotidianas que nos cercam.

José Carlos Marques é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e do Departamento de Ciências Humanas da Unesp, Câmpus de Bauru

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