Antonio Candido

A passagem de Antonio Candido por Assis
Rodrigo Ramassote

Em 1958, Antonio Candido decidiu desligar-se da cadeira de Sociologia II da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP), na qual exercera atividades de docência e de pesquisa na área de sociologia durante dezesseis anos. Iria assumir a regência da disciplina de Literatura Brasileira no curso de Letras da recém-inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, do Instituto Isolado de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo (atualmente integrado à Unesp). Tal atitude não deixou de causar surpresa e certa perplexidade mesmo entre seus amigos mais próximos. Quem relata é o próprio Candido, num registro eloquente da estranheza provocada pela situação. Diz ele que, ao receber a notícia na Europa, Paulo Emílio Salles Gomes, estudioso de cinema e companheiro intelectual desde os idos da revista Clima, teria exclamado:

“Que coisa extraordinária! Antonio Candido vai poder afinal se dedicar à literatura, e ensinando literatura brasileira naquela paisagem da Umbria! Que coisa extraordinária! [risos]. Ele imaginou que seria uma faculdade italiana e me viu em Assis, na Úmbria”. Quando foi alertado de que se tratava na verdade de uma pacata cidadezinha situada no interior paulista, o crítico de cinema teria bradado: “Assis da Sorocabana? Então o Antonio é uma besta!” (Candido, 2001, p. 113).

Mal-entendido à parte, a resposta de Paulo Emílio dá notícia da radicalidade da decisão tomada por Candido. Curta, porém decisiva, a passagem de dois anos e meio por Assis, ocorrida entre o segundo semestre de 1958 e o final de 1960, demarcou, no entanto, uma inflexão em sua trajetória profissional e intelectual. Neste texto, gostaria de registrar certas implicações que ainda não foram devidamente avaliadas, destacando: a) em primeiro lugar, a consolidação de sua identidade profissional como professor e pesquisador no campo das Letras; b) em seguida, o delineamento de uma plataforma de ensino que irá, em grande medida, nortear a constituição do curso de Teoria Literária e Literatura Comparada, inaugurado e coordenado por ele, a partir de 2 dezembro de 1960, na FFCL-USP; c) por fim, a cristalização dos fundamentos de um método crítico preocupado em equacionar de maneira sofisticada as interfaces entre literatura e sociedade.

Sob a coordenação geral de Antonio Soares Amora (1917-1999), professor titular da Cadeira de Literatura Portuguesa do curso de Letras da FFCL-USP, começaram a ser realizadas, a partir de 1957, as primeiras providências necessárias para a implantação institucional da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em Assis. Sua criação, ocorrida em sessão solene no dia 16 de agosto de 1958, deu-se no contexto de expansão do ensino superior público para o interior do Estado, tendo como objetivo atender à demanda estudantil por vagas no ensino superior, bem como ampliar o contingente de professores formados para o exercício do magistério secundário.

Com o desafio de implantar numa pequena cidade distante da capital uma instituição universitária de alto nível de excelência acadêmica, foi iniciado no mesmo ano o “trabalho preparatório do corpo docente por meio de reuniões prévias, ainda em São Paulo, a fim de que a equipe se entrosasse na medida do possível e definisse seu espírito” (Candido, 1992:250). Para compor a equipe inicial de professores, Amora procurou convocar, em sua grande maioria, profissionais recém-habilitados, mas já com contribuições intelectuais significativas, oriundos tanto dos quadros da FFLC/USP, quanto de centros universitários estrangeiros. Informado por um colega em comum do interesse de Candido em afastar-se das funções de professor-assistente da Cadeira de Sociologia II para lecionar na área de Letras, Amora decidiu convidá-lo para integrar o grupo, oferecendo-lhe a vaga na cadeira de Literatura Brasileira. Sem hesitar, Candido aceitou o convite e começou a participar das reuniões periódicas: “Minha decisão foi imediata. Era hora de mudar e Assis foi fundamental na minha vida” (Candido, 2001, p. 113). Como compreender tal reviravolta?

Intelectual maduro, prestes a completar quarenta anos de idade, Candido encontrava-se, em fins de 1957, num momento delicado de sua carreira profissional e acadêmica. Formado em Ciências Sociais pela FFLC-USP (1939-1941), ele iniciou suas atividades intelectuais como crítico literário da revista Clima, periódico cultural fundado e dirigido por um grupo talentoso de alunos da universidade (2). Com a formação e o prestígio obtidos em Clima, ingressou na grande imprensa paulista, assumindo a coluna de crítica literária do jornal Folha da Manhã [atualmente Folha de S.Paulo] (1943-1945), e, após uma interrupção de sete meses, do Correio de São Paulo (1945 1947) (3). Ao mesmo tempo, tornou-se professor-assistente da Cadeira de Sociologia II, lecionando disciplinas introdutórias em cursos de graduação na USP.

Em julho de 1945, participa do concurso para provimento da Cadeira de Literatura Brasileira na FFCL-USP. Para concorrer ao posto, redige o estudo Introdução ao método crítico de Sílvio Romero (4), releitura crítica dos fundamentos teórico-conceituais e limites interpretativos do pensamento crítico do intelectual sergipano. Embora não tenha conquistado a colocação, em decisão polêmica decretada pela Conselho Universitário (5), obtém o título de Livre-Docente na área da cadeira, o que lhe garantiu as credenciais necessárias para sua futura transferência para o campo das letras.

Deixando de lado os estudos literários, Candido inicia, em 1947, uma nova fase de sua trajetória, na qual passa a investir na área de sua formação acadêmica inicial. Surgem, então, os primeiros artigos de sociologia, que perfizeram, no conjunto, doze escritos publicados entre 1947 e 1956 (6). Em paralelo, principia a pesquisa que subsidiou sua tese de doutorado sobre a obtenção dos meios de vida e as formas correlatas de sociabilidade dos caipiras paulistas, a partir de pesquisa de campo realizada em terras da Fazenda Bela Aliança, situada na área rural do município de Bofete (SP). Defendida em 1954, a tese, originalmente intitulada “Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre a crise nos meios de subsistência do caipira paulista” (7), tornou-se paulatinamente uma referência incontornável para a análise do meio rural e um clássico da sociologia brasileira.

A partir da primeira metade da década de 1950, o progressivo avanço do processo de institucionalização das ciências sociais e a crescente hegemonia de um padrão de trabalho intelectual e de uma agenda de pesquisas marcadas pela ênfase em técnicas e metodologias quantitativas e por questões histórico-estruturais provocaram uma reconfiguração no exercício profissional da sociologia em São Paulo. Sob a liderança de Florestan Fernandes (1920-1995), à frente da Cadeira de Sociologia I, a oposição entre atividades culturais e científicas tornou-se cada vez mais polarizada e aguda, criando condições desfavoráveis para Candido prosseguir com seus interesses intelectuais (8).

No final de 1957, essa tensão profissional começa a ser dissolvida, com o convite de Amora. À maneira de um ritual de passagem (9) , os dois anos e meio passados em Assis demarcaram uma nítida transição entre as etapas da trajetória de Candido. Essencial no processo de reconversão simbólica de sua identidade profissional, a passagem por Assis, acima de tudo, garantiu-lhe o respaldo acadêmico necessário para legitimar sua condição de professor e pesquisador da área deLetras. E tal fato não passou despercebido aos seus olhos: “foi bom passar dois anos fora da USP.Quando voltei, no começo de 1961, as pessoas já estavam habituadas à minha nova condição” (Candido, 1993: 37).

A partir do segundo semestre de 1958, Candido passa a oferecer as primeiras disciplinas no curso de Letras. Para os alunos ingressantes, leciona, com a colaboração de Nief Sáfady, o curso “Introdução aos estudos literários”. Em 1961, ao regressar à USP para assumir o curso de Teoria Literária e Literatura Comparada, o mesmo conteúdo será oferecido, estimulando a consolidação de uma modalidade de pesquisa que viria a ser decisiva na produção crítica de alguns de seus mais destacados alunos (10).

No ano seguinte, Candido oferece o curso optativo “O romance romântico brasileiro: Manuel Antonio de Almeida e Alencar”. Durante as aulas, explorou, com a “única aluna que escolheu literatura brasileira”, a leitura e análise dos romances Memória de um Sargento de Milícias (1853) e Senhora (1875). De acordo com Teresa Vara, a aluna em questão, a composição do entrecho do romance foi esmiuçada de modo exaustivo, na tentativa de “captar a trama, o tecido, a combinação dos fios narrativos, os elementos de ligação de um capítulo para o outro (os elementos conectivos como ele denominava), os cortes e a costura, até chegar bem próximo de entender o princípio estrutural que explicava o romance como um todo” (Vara, 1999: 230). Quase dez anos depois viria a público o resultado desse esforço interpretativo: “Dialética da malandragem” (1970), um de seus ensaios mais conhecidos e influentes, no qual ele reavalia um romance até então considerado pouco expressivo, renovando sua compreensão e interferindo no destino posterior de sua recepção crítica.

No plano da produção crítica, o ambiente encontrado em Assis representou “uma espécie de renascimento intelectual” (Candido, 2001, p. 251). Entre 1958 e 1960, Candido publica no Suplemento Literário do jornal O Estado de S.Paulo um expressivo número de artigos sobre literatura nacional e estrangeira, parte dos quais foi recolhido na coletânea O observador literário (1959).

Entre 24 e 30 de julho de 1961, realizou-se em Assis o II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, evento de especial importância. Sugerida durante o “I Congresso de Crítica e Histórias Literária”, ocorrido em 1960 na cidade de Recife (PE), após a desistência de Fortaleza (CE), por “impossibilidades de ordem programática”, a proposta de realização da segunda edição na “pequena, ainda que progressiva” (Anais, 1963, p. 17) (11) cidade de Assis, foi aprovada por aclamação pelos participantes da plenária final. Embora já tivesse retornado para a FFCL/USP, para assumir a direção do curso de Teoria Literária e Literatura Comparada, Candido participa da comissão organizadora do evento, encarregando-se, juntamente com o Antonio Soares Amora e Rolando Morel Pinto, da Comissão Coordenadora das Teses e Relatórios. Como lembra Vara: “ali, naquela cidadezinha pacata do interior paulista”, reuniram-se “os bambas da crítica, figuras do porte de Sérgio Buarque de Holanda, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Wilson Martins, Wilson Cardoso, Joel Pontes, Hélcio Martins, Benedito Nunes, Adolfo Casais Monteiro, Afonso Romano de Sant’Anna, Roberto Schwarz, João Alexandre Barbosa, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Haroldo de Campos” (Vara, 1999: 234).

Na ocasião, Antonio Candido fez a leitura de uma versão preliminar do ensaio “Crítica e sociologia” (12) , no qual são apresentadas as premissas básicas de suas formulações sobre as interfaces entre literatura e sociedade, reivindicando uma leitura crítica que levasse em conta os elementos externos à obra como fatores integrantes da estrutura literária. Definiram-se aí os fundamentos de uma proposta crítica, que vinha sendo amadurecida desde a conclusão da redação da Formação da Literatura Brasileira e que ele designaria, posteriormente, de “redução estrutural”, isto é, o “processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que esta seja estudada em si mesma, como algo autônomo” (Candido, 1993: 9).

Com o II Congresso de Crítica e História Literária, encerra-se em definitivo a participação de Candido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis. Em 1961, ele retorna à USP, para tornar-se o responsável pela implantação do curso de Teoria Literária e Literatura Comparada. A partir de então, ficava para trás, em definitivo, os percalços de uma trajetória inicialmente indefinida entre os afazeres acadêmicos da sociologia e produção intelectual na área de estudos literários, para cujo desfecho e resolução a passagem por Assis foi fundamental.
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