Música e coração

CENTRO ANALISA BENEFÍCIOS DA MÚSICA AO CORAÇÃO E SEU PAPEL NO TRATAMENTO DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES

A música é algo presente na vida de qualquer indivíduo, de tal modo que se torna comum associar composições musicais a sensações psico-fisiológicas, dentre as quais podemos incluir alterações do ritmo cardíaco e das emoções.

Os efeitos fisiológicos desse estímulo auditivo são estudados desde 1952, quando Ellis e Brighouse publicaram no American Journal of Psychology os efeitos da música sobre a respiração e o coração. Desde então diversos grupos de pesquisa têm investigado como a música influencia o corpo humano. Vários sistemas recebem atenção na literatura, como os sistemas cardiovascular, endócrino, nervoso, respiratório e digestivo.

Mais recentemente, um estudo conduzido por Nakamura em 2007 investigou a pressão arterial e o sistema nervoso simpático de ratos anestesiados perante exposição à música erudita (“Träumerei”, Kinderszenen Op. 15–7, R) e ao ruído branco como protocolo controle. Importante destacar que o sistema nervoso simpático é uma divisão do sistema nervoso autônomo (ou vegetativo), responsável por funções involuntárias do corpo, como controle da pressão arterial e frequência cardíaca. Esse sistema está ativado em situações de estresse e se encontra reduzido quando induzido ao relaxamento.

No período em que os animais ouviram a música clássica foi notado que tanto a pressão arterial quanto a atividade do nervo simpático renal diminuíram. O que chamou a atenção nesse estudo foi que os animais estavam anestesiados no decurso de todos os procedimentos. No momento da exposição ao ruído branco não houve mudanças estatisticamente significantes dos valores de pressão arterial e da atividade simpática dos ratos estudados, reiterando o efeito da música.

 

Posteriormente, cerca de dois anos após a publicação desse estudo, o mesmo grupo de pesquisa publicou um artigo em que outro componente do sistema nervoso autônomo era avaliado. Desta vez o foco dos pesquisadores foi o sistema nervoso parassimpático, o qual está ativado em momentos de relaxamento. A mesma composição musical foi utilizada nesse estudo (“Träumerei”, Kinderszenen Op. 15–7, R), bem como o ruído branco para controle do nível de pressão sonora. Como principal achado os autores evidenciaram que a música em questão aumentou a atividade do nervo gástrico vagal, indicando ativação do sistema nervoso parassimpático.

Nesse contexto, o Centro de Estudos do Sistema Nervoso Autônomo (CESNA), grupo cadastrado junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado à UNESP sob minha coordenação (alguns membros apresentados na Figura 1) tem se esforçado para fornecer novas informações sobre os benefícios da música no coração e sua aplicação no tratamento de doenças cardiovasculares. A linha de pesquisa que desenvolvemos estuda o controle autonômico do ritmo cardíaco mediante um método bem reconhecido na literatura chamado de variabilidade da frequência cardíaca (VFC).

A VFC é um meio não-invasivo que mensura o espaço de tempo entre os batimentos cardíacos e quantifica as flutuações dessas séries temporais. Pode-se analisar a VFC pelo meio de um monitor cardíaco (Figura 2). Diante de um estímulo o aumento da VFC tem relação com a ativação do sistema nervoso parassimpático por meio de ativação do nervo vago, ou seja, o organismo relaxa nessa situação. Por outro lado, a literatura mostra que no momento em que um estímulo causa redução da VFC o sistema nervoso simpático predomina sobre o sistema nervoso parassimpático, o que ocorre numa situação de estresse. A figura 3 mostra um gráfico originado da análise da VFC, a qual indica todos os índices da análise linear e parte da análise não-linear.

No ano de 2012 a FAPESP financiou um projeto do nosso grupo com o objetivo de verificar se existiam alterações significantes no ritmo cardíaco por intermédio da VFC quando o indivíduo ouve músicas eruditas, como Cânone em Ré Maior, uma composição clássica de Pachelbel. Além disso, foi objetivo do projeto também averiguar os efeitos de uma música específica do estilo Heavy Metal (Heavy Metal Universe, de Gamma Ray).

Como principal conclusão desse projeto inicial foi notado que a música do estilo Heavy Metal tem maior influência sobre o coração em comparação com a composição de Pachelbel. Enquanto a música do grupo Gamma Ray causava uma sobrecarga no coração em curto prazo, a composição de Pachelbel induzia efeitos opostos, porém, de menor intensidade. No entanto, a afinidade com a música é um fator de extrema magnitude.

Posteriormente, mais questões eram levantadas pelo grupo. À frente de situações muito usuais como o estresse, será que a música atenua uma resposta estressante? Defronte essa pergunta, Juliana Cristina Barbosa, Anne Michelli F. Gomes e nossos colaboradores tentaram responder essa interrogação. Sujeitos saudáveis realizaram um teste de estresse cognitivo, conhecido como tarefa de sobrecarga mental. Esse teste tem como base o cálculo de contas matemáticas em um curto período (cinco minutos). Dentre as respostas fisiológicas induzidas pelo teste o estudo teve como foco o sistema nervoso autônomo.

Em um dia os voluntários realizaram o teste com exposição prévia à música e no outro dia os testes foram finalizados sem a exposição à música (Cânone em Ré Maior – Pachelbel), de modo que os dois dias eram aleatórios. Os resultados não mostraram efeito significante da música utilizada sobre essa situação específica de estresse.

Nesse sentido, outra ocasião muito comum na rotina diária é a utilização de música no exercício. Fundamentado no conceito de que a recuperação do sistema cardiovascular após exercício físico aeróbio (por exemplo: caminhada ou corrida de 30 minutos) fornece importantes informações acerca das chances de um indivíduo desenvolver complicações no coração, nosso grupo investigou a interação desse mecanismo com a música. Resultados da dissertação de mestrado de Rayana Loch Gomes publicados na revista Science and Sports chamaram a atenção no que tange aos efeitos da música na recuperação após o exercício físico.

O artigo examinou homens jovens saudáveis fisicamente ativos da cidade de Presidente Prudente submetidos a um protocolo padronizado de exercício físico em esteira ergométrica. Eles foram avaliados em três dias: 1) capacidade de esforço máxima; 2) exercício com música; 3) exercício sem música, de modo que os protocolos 2 e 3 foram aleatórios para aperfeiçoar a confiabilidade metodológica. No protocolo experimental os voluntários ouviram música com fone de ouvido no decurso e após o exercício, enquanto no protocolo controle os sujeitos permaneceram com o fone de ouvido desligado.

As músicas estudadas foram
Bach – Solo Cello Suite Prelude Number 6;
Bach – Suite for Orchestra No. 3 “Air on the G String”;
Bach – Violin concerto em E maior Adagio; Mozart – Piano Concerto No. 21;
Beethoven – Fur Elise;
Beethoven – “Moonlight Sonata” Piano Sonata No. 14 em C-Sharp Minor, Op 27 I. Adagio.;
Beethoven – Piano Sonata Op 13 Adagio II;
Chopin – Nocturne Op 9 No. 1 em B flat minor;
Chopin – Nocturne, Op 9 No. 2 E-Flat Major
Chopin – Nocturne Op 15 No. 2;
Chopin – Nocturne, Op 27 No. 2 em D Flat Major;
Chopin – Piano Prelude No. 15 “Raindrop”;
Chopin – Prelude, Op 28 No. 6 em b Minor,
Chopin – Prelude, Op 28 No. 17 em A Major;
Chopin – Waltz Op 69 No. 1 in A Flat Major;
Debussy – Clair de Lune;
Liszt – Liebesträume em A–Flat Major, Dreams of Love;
Mozart – Eine Kleine Nacht II;
Schubert – Moment Musical Op 94 D.780 No. 1 em C Major;
Schubert – Serenade “Leise Flehen Meine Lieber”;
Schumann – Scenes de Childhood Op 15 Von fremden Länder und Menschen;

O relevante resultado desse artigo mostrou que a música acelerou a recuperação da pressão arterial sistólica e frequência cardíaca após o exercício, sugerindo efeitos benéficos dessa intervenção não-farmacológica.

Nos últimos 6 anos, fortalecido pelo processo de internacionalização incentivado na UNESP, o grupo aumentou suas parcerias com outras universidades, fato que colaborou para o progresso da contribuição dos projetos à população. Deste modo, com base em experiências na rotina de dentistas no Nordeste brasileiro, notou-se comumente condições de estresse na clínica odontológica.

Em 2017, em colaboração com o grupo coordenado pela Dra. Milana D. Santana, da Faculdade de Juazeiro do Norte, junto com David M. Garner, da Oxford Brooks University (Inglaterra), analisamos dados de pacientes submetidos a procedimentos dentários ao mesmo tempo em que ouviam música erudita (“Träumerei”, Kinderszenen Op. 15–7, R). O estudo teve como base uma amostra de 50 pacientes divididos em dois grupos: 1) expostos à música (12 homens e 13 mulheres) e; 2) não expostos à música (13 homens e 12 mulheres).

Os protocolos experimentais incluíram análise de cortisol salivar (“hormônio do estresse”) e da VFC antes, no decorrer e 30 minutos após o processo dentário, o qual incluiu anestesia do nervo alveolar inferior, remoção do tecido com cárie, medicação intracanal e vedação provisória. No grupo experimental os pacientes ouviram música a partir do início do processo endodôntico com fone de ouvido, ao passo que os pacientes do grupo considerado como controle permaneceram com o fone de ouvido desligado.

Interessantemente não foram observadas alterações dos níveis do hormônio cortisol entre os tempos analisados (antes, durante e após técnica dentária) em ambos os grupos. Entretanto, a análise estatística mostrou que houve mudança significante dos índices da VFC (controle autonômico do coração) no grupo experimental e controle, haja vista que esse método indica associação com estresse. No grupo controle os resultados interpretaram sobrecarga no coração durante e ao longo de todos os 30 minutos após o procedimento dentário. Por outro lado, as respostas cardíacas autonômicas foram atenuadas no grupo exposto à música, apontando que a música colaborou para o alívio do estresse cardíaco no decorrer do método endodôntico.

Isto posto, nosso grupo intencionou conferir se a música tem efeito em curto prazo sobre a dinâmica do coração diante de uma intervenção farmacológica. O estudo conduzido por Eli Carlos Martiniano e Milana Drumond Ramos Santana em parceria com nossa equipe examinou a VFC de pacientes com hipertensão controlada enquanto tomavam medicamentos anti-hipertensivos. Em um dia os sujeitos tomavam o medicamento e ouviam música com fone de ouvido no decorrer dos 60 minutos após a administração do medicamento. No outro dia (protocolo controle) os mesmos pacientes realizavam protocolo experimental idêntico com fone de ouvido desligado. Os dois dias dos experimentos foram randomizados.

A figura 4 mostra um índice da VFC que compara os dois protocolos e mostra que quando os pacientes administraram o medicamento em associação com a música a resposta da VFC foi mais intensa e duradoura, reiterando o efeito positivo da música. Nessa linha de raciocínio, duas hipóteses são levantadas: 1) a música tem um efeito relaxante que potencializa o efeito dos medicamentos? 2) a música ativou o nervo gástrico vagal (suportado por Nakamura et al, 2009) e melhorou a absorção dos medicamentos? São interessantes indagações que necessitam de pesquisas adicionais para serem esclarecidas.

Em conclusão, os resultados dos projetos que temos desenvolvido sugerem as músicas destacadas como úteis à complementação de tratamentos convencionais. Deste modo, essas evidências reforçam o uso benéfico da música para terapias clínicas.

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