PIAP 40 dentro e fora do ritmo…

40 anos do Grupo de Percussão do Instituto de Artes da Unesp

Formado em 1978 pelo percussionista norte-americano John Boudler, o Grupo PIAP é uma das principais agrupações do gênero no país; um trabalho que, independentemente de ser realizado por alunos de graduação, apresenta níveis de organização e qualidade artística que se comparam aos de grupos profissionais internacionais. Mais do que isso, o Grupo conseguiu manter esses níveis através das décadas, mesmo que a cada ano um quarto de seus integrantes gradue e um outro quarto inicie seu trabalho no primeiro ano do curso; uma capacidade rara que chamou a atenção do músico e professor Jorge Camiruaga, diretor do programa de percussão da Escuela Universitaria de Música de Montevidéu, Uruguai.

Desde sua criação como curso livre em São Bernardo do Campo (1978 a 1980), de onde vem seu nome (o último “P” refere-se ao nome original da instituição, que era localizada no Planalto Paulista – Percussão do Instituto de Artes do Planalto), passando pelos longos anos no Ipiranga (1981 a 2009) depois de tornar-se curso oficial, até ocupar seu atual “quartel-general” na Barra Funda, o Grupo representa a própria essência do curso/programa de Percussão, o espaço no qual todo trabalho pedagógico é testado e colocado em prática.

O Grupo, com o compositor norte-americano John Cage (centro) e Boudler (à direita de Cage)

É impossível separar a existência do Grupo e do Curso de Percussão da Unesp da figura histórica de seu criador, John Boudler (ver Box 1), que os concebeu e, durante 35 anos seguidos, estabeleceu as bases de todo o funcionamento do Laboratório de Percussão da Unesp. Dessa forma, por mais de três décadas, o curso, o Grupo PIAP e o professor Boudler sempre foram vistos como sinônimos.

Durante décadas também atuaram ao seu lado dois outros professores e codiretores do Grupo: Carlos Stasi, que foi o primeiro aluno de percussão a se formar na Unesp em 1984 (contratado em 1987 e atual diretor) e Eduardo Gianesella, formado na Unesp em 1987 e o primeiro ex-aluno a obter o mestrado em percussão, em 1990, na Eastman School of Music – EUA (contratado em 1993).

John Boudler

Professor titular do Instituto de Artes da Unesp que criou e desenvolveu o Curso de Bacharelado em Percussão e o Grupo PIAP. Formado pela Universidade do Estado de Nova Iorque em Buffalo, doutor pelo Conservatório de Música de Chicago e livre-docente pelo Instituto de Artes da Unesp, em 1977, com 23 anos ganhou o mais alto prêmio para percussão solo no 26.º Concurso Internacional de Munique, Alemanha.

Foi timpanista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo durante quinze anos e membro fundador do Grupo Percussão Agora, apresentando concertos em três continentes. Em 1995-96 foi diretor musical de duas aclamadas montagens teatrais de William Shakespeare com o PIAP – Pericles, Príncipe de Tiro e Rei Lear. Dirigiu o Grupo durante 35 anos, atuando como mentor, mestre, líder e regente. Na verdade, apesar de aposentado, participa ainda ativamente do funcionamento do Grupo – oferecendo aulas, masterclasses, regendo e atuando como conselheiro. Boudler será o principal homenageado do evento.

 

“Quartel-general”
O termo “quartel-general”, usado deliberadamente acima, merece alguma consideração, já que em várias conversas informais – aquelas brincadeiras nas quais se diz a “verdade” – alguns alunos de outros cursos, funcionários e professores deixam transparecer a percepção de que o Grupo é regido por um sistema ditatorial e quase militar. Nada mais falacioso, pois quando alguém acompanha o dia a dia das atividades do Grupo percebe que se trata apenas da tentativa de estabelecer uma grande ordem num local com centenas de instrumentos, ferragens, peças de metal e madeira, dezenas de alunos de graduação e pós e uma enorme agenda de atividades de ensaios e apresentações. Claro: ordem na medida do possível!… Em 2015 e 2016, por exemplo, isso levou à estonteante média de 175 músicas tocadas por ano em aproximadamente 25 concertos e recitais e a realização de 70 palestras e oficinas dos mais variados temas. Ou seja, praticamente duas por semana. Assim, sem o mínimo de organização e certo pulso, não haveria como manter uma produção dessas. Sem falar das belezas e do desgaste de relacionamentos pessoais num ambiente compartido quase 24 horas por dia, já que, diferentemente de outros instrumentos, nenhum aluno possui em casa o enorme aparato percussivo necessário para o desenvolvimento dos estudos.

Apesar da rigidez em levar a cabo toda essa produção, assim como a formação dos estudantes, muitas decisões sobre o andamento do curso, propostas de melhoria do Laboratório, repertório, entre outras, são votadas e eleitas pelos próprios alunos, e várias vezes a direção é voto vencido. Guardadas certas proporções e limites – que garantem o seguimento adequado do curso – são as pessoas que mais vivem ali que tomam a frente e a responsabilidade de vários projetos e iniciativas. Ou seja, os próprios estudantes. O site do Grupo, grupopiap.wixsite.com/piap, por exemplo, foi idealizado e criado pela ex-aluna Emília Borba (proveniente do Equador, e atualmente cursando o mestrado na Cal Arts, nos EUA) e segue sendo mantido por mais dois ou três alunos e o diretor a cada ano. Ou seja, além de várias de suas funções, a direção atua como facilitadora de todo o processo de construção de repertório, ensaios, propostas artístico-científicas, agendamento de atividades, etc.

Mudanças
A aposentadoria do professor Boudler em 2015 exigiu uma adequação interna de inúmeras áreas e atividades. Assim, em 2013, começou-se a desenhar um plano de aproximadamente cinco anos para essa complexa transição. Porém, em apenas dois anos e meio as principais mudanças e, principalmente, a manutenção dos altos níveis de produção musical já estavam estabelecidos e garantidos. Além disso, trabalhou-se na ampliação do programa com a abertura da Pós-graduação em Percussão em 2012, a criação da disciplina Percussão Popular Brasileira, da Série Encontros com a Percussão Popular Brasileira, da Bateria de Escola de Samba PIAP (pelo mestrando e doutorando Rafael Y Castro), da Orquestra de Berimbaus (pelo mestrando Fernando Miranda), do Grupo de Pesquisa Percussão, Música e Cultura junto ao CNPq em 2011 e o estabelecimento de atividades de intercâmbio com a percussão de outros países latino-americanos, principalmente a Argentina. Ou seja, a principal mudança é a maneira pela qual a graduação e a pós são articuladas em conjunto. Dessa forma, todos os pós-graduandos atuam como coordenadores assistentes ou mesmo como codiretores do Grupo PIAP, desenvolvendo trabalhos específicos de acordo com seus projetos individuais. Uma engrenagem pensada no sentido de manter a individualidade de cada projeto dos alunos da pós-graduação, em benefício deles mesmos (suas dissertações e teses) e de todos os discentes da graduação.

Paradoxo?
Tanta dedicação parece apresentar um paradoxo, pois apesar de esse grupo de alunos ter historicamente o perfil socioeconômico que apresenta maior vulnerabilidade social em relação a todos os outros cursos de Música dentro do Instituto de Artes, segundo informações da assistente social Janaína Gonçalves Nunes, responsável pelas entrevistas sociais do processo de Permanência Estudantil da Unesp, eles conseguem se dedicar enormemente às atividades do curso e do Grupo, com dezenas de dias e horas extras além do calendário de aulas.

Quadro 1
Quadro 2

Os formados e as principais atividades
Pelo PIAP formaram-se 106 percussionistas que se apresentaram, estudaram e/ou ainda trabalham por todo o Brasil e em mais de 40 países nos cinco continentes. O ex-aluno Fernando Chaib (hoje professor da Universidade Federal de Minas Gerais) oferece quadros sobre a origem dos alunos brasileiros que vieram estudar no PIAP (Ver quadro 1) e sobre o impacto da formação dos alunos do PIAP no cenário nacional e internacional. (Ver quadros 2 e 3)

Alguns dados interessantes, obtidos através do acompanhamento de cada um dos nossos 106 alunos egressos:
32 atuam nos principais grupos sinfônicos profissionais do país.
25 são professores de instituições de ensino superior.
24 atuam como professores em importantes conservatórios e escolas de música.

Metade de nossos egressos (53) são mestres ou estão cursando o mestrado (28 no exterior). E desses mestres, 16 já são doutores ou estão concluindo o doutorado (9 no exterior). E outros 11 realizaram cursos de especialização no exterior.

11 residem e trabalham no exterior (EUA, Portugal, França e Inglaterra) – além, obviamente, dos outros 7 que estão cursando pós-graduação no exterior.

Comprovando a grande influência do Grupo PIAP na formação de seus alunos, praticamente um quarto de nossos formados (26) integra algum grupo de percussão profissional, além dos grupos que dirigem em suas instituições de ensino.

Um importante fator que corrobora o aprofundamento dos estudos da percussão popular no currículo do curso é a constatação de que 28 de nossos formados trabalham majoritariamente na área da música popular.

Temos ainda um ex-aluno que já se aposentou.

E finalmente, homenageamos aqui nossos ex-alunos que, infelizmente, já não estão mais entre nós (entre parênteses está o ano de graduação):
Sergio Gomes (1989), falecido em 2015
Clenio Henrique (2012), falecido em 2016
Marco Goulart (1986), falecido em 2017 e
Carmo Bartoloni (1984), falecido em 2018

Ao longo de seus 40 anos de atividades, o PIAP tem colhido grandes sucessos, firmando-se no cenário artístico nacional através de concertos e gravações em CD, rádio e televisão. O Grupo apresentou-se nos principais festivais de música do Brasil (Bahia, Brasília, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo), assim como em outros países, como os Estados Unidos, México e China. Entre suas atividades, merecem destaque:
1.º lugar no II Prêmio Eldorado de Música – 1986;
Gravação de dois LP em 1986;
Turnê pelos Estados Unidos em 1987, apresentando 11 concertos de Saint Louis a Nova Iorque;
Prêmio Lei Sarney, como Revelação na Categoria Grupo Instrumental em 1988;
Prêmios Mambembe e Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de Melhor Trilha Sonora pela participação na peça Péricles, príncipe de Tiro, de William Shakespeare, em 1995;
Projeto LinC da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo em 1997;
Lançamento do primeiro CD em 1998;
Prêmio Carlos Gomes – Indicação na categoria Melhor Grupo de Música de Câmara em 1999;
Apresentação no “Festival Percusiones del Mundo” na Cidade do México, com transmissão ao vivo via Internet em 2000;
Eleito pela APCA como Melhor Conjunto de Câmara na categoria Música Erudita em 2003;
Lançamento de dois CD em 2007;
Segunda turnê nos Estados Unidos – 37 dias, apresentando 18 concertos e 11 masterclasses – 2010;
Turnê chinesa em 2011;
Atualmente as gravações do Grupo PIAP são encontradas em 2 LPs e 10 CDs.
(ver Discografia)

Colaborações
Com ênfase na performance do repertório contemporâneo para percussão, o PIAP é responsável pela primeira audição de centenas de obras nacionais e internacionais, e sempre encomenda obras originais para vários compositores, o que é uma característica desse tipo de agrupação em todo o país e no mundo. Destacam-se os compositores Roberto Victorio, Arthur Rinaldi, Leonardo Martinelli, Alisson Amador e Flo Menezes (com quem o Grupo realiza atividades regulares junto a um dos principais estúdios de música eletroacústica do país, o PANaroma). Parcerias maravilhosas e mais do que necessárias para qualquer profissional que queira se renovar, aprender, viver novos ares (de cada obra, de cada conceito estabelecido pelo compositor). Obviamente, na maioria das vezes, isso representa determinado desafio técnico musical a ser superado por todos.
Nos últimos anos, o Grupo trabalhou de forma colaborativa em eventos que reunissem os outros dois grupos de percussão das universidades estaduais – o Percussivo USP (dirigido por Ricardo Bologna, ex-PIAP) e o GRUPU da Unicamp (dirigido por Fernando Hashimoto). Para o PIAP é essencial que esse tipo de articulação seja promovida e mantida, independente das características individuais de cada curso/grupo; e felizmente, no âmbito da percussão, essas três universidades públicas paulistas têm conseguido uma grande troca de experiências que tem enriquecido a todos: docentes, discentes e público.

LP – Compositores da Bahia 7. Primeiro registro fonográfico do PIAP, realizado em 1986. Nesse LP, que também contém obras para piano solo com Beatriz Balzi, o Grupo gravou composições de Fernando Cerqueira e Paulo Costa Lima.

 

LP – Grupo de Percussão do Instituto de Artes do Planalto – Unesp – II Prêmio Eldorado de Música – 86. LP resultante da primeira colocação nesse concurso de música (1986). Foram gravadas obras de George H. Green, Marlos Nobre, Camargo Guarnieri, Varése e John Cage.
CD – Roberto Victório – Bifurcações – O Grupo PIAP interpreta 2 das 4 obras desse álbum do compositor Roberto Victório: Codex Troano e Heptaparaparshinokh, gravadas ao vivo na Bienal de Música Brasileira do Rio de Janeiro. Este álbum foi lançado em 1995

 

CD – Grupo PIAP – Obras Brasileiras Inéditas para Percussão. CD gravado em 1997 com apoio da Lei de Incentivo à Cultura (LinC) da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. As obras foram comissionadas a seis compositores das três universidades estaduais paulistas: Flo Menezes e Edmundo Villani Côrtes (Unesp), Eduardo Seincman e Mario Ficarelli (USP), Almeida Prado e José Augusto Mannis (Unicamp).

 

CD – Harry Crowl – CD duplo do compositor Harry Crowl lançado em 2003, contendo a gravação ao vivo, pela Radio Cultura, da estreia da obra No silêncio das noites Estreladas realizada pelo Grupo PIAP no Theatro São Pedro em 1999.
CD – 86. Em 2004, o PIAP lançou este álbum com a remasterização de todas as obras dos 2 LPs gravados em 1986 pelo Grupo.
CD – Grupo PIAP – Symapthia – Gravado e lançado em 2004, esse álbum contém obras de compositores de vários países, como EUA (John Wire, John Bergamo, William Cahn), Alemanha (Johanna Beyer), Suécia (Frederikj Ed) e Brasil (Dimitri Cervo, Edson Zampronha e Leonardo Martinelli).
CD – Toronubá – A música de Dimitri Cervo – CD lançado em 2006 com obras do compositor, contendo, entre outras, a obra título do álbum: Toronubá, gravada pelo Grupo PIAP.
CD – INsonIA – Midia anexa da Revista PETulante nº 3. São Paulo: Grupo PET Música – Unesp. Gravação de várias obras pelo Grupo PIAP. 2009.
CD – Música de Câmara II – Obras de Jorge Antunes. CD contendo obras de Jorge Antunes. O Grupo PIAP gravou as obras Invocação em Defesa da Máquina e Music for eight people playing things, em 2010.
CD – Cachuera de Música – Álbum duplo que contém o registro de uma grande mostra de música promovida pelo Espaço Cachuera, o Grupo PIAP gravou a obra “La Chuete des anges – I. Mov: A ordem”, do compositor mexicano Federico Ibarra:
CD – CAGE+” – CD lançado pelo Selo SESC em 2013, contendo obras de John Cage e compositores brasileiros. No álbum o Grupo PIAP gravou a 1a Construção e a 2a Construção de John Cage, além de A Máquina dos Tempos, de Matheus Bitondi.

Em 40 anos de história, O Grupo de Percussão do Instituto de Artes (PIAP) da UNESP formou 106 percussionistas que se apresentaram, estudaram e/ou ainda trabalham por todo o Brasil e em mais de 40 países nos cinco continentes. África: África do Sul, Namíbia, Botusuana e Moçambique; América Central: Guatemala, Costa Rica, República Dominicana, Cuba, Panamá, Haiti, Aruba, Curaçao, Antígua e Barbuda, Barbado, Ilhas Cayman, Granada, Jamaica, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia e Saint Maarten; América do Norte: México, Estados Unidos e Canadá; América do Sul: todo o continente exceto Guianas e Suriname; Ásia: Cingapura, Coréia do Sul, China, Japão, Índia e Rússia; Europa: Portugal, Espanha, Itália, França, Áustria, Alemanha, Suíça, Inglaterra, escócia, Irlanda, Croácia, Hungria, Polônia, Eslovênia, Turquia, Dinamarca, Finlândia, Bélgica, Noruega, Ucrânia, Letônia, Romênia, Grécia, Bulgária, Macedônia, Sérvia, Islândia, Gilbraltar, Luxemburgo e Mônaco; Oceania: Austrália, Nova Zelândia, Nova Zelândia, Filipinas; Oriente Médio: Israel e Líbano.

PIAP 40

Para celebrar todo esse movimento percussivo constante e regular, levado a cabo durante 40 anos, o Grupo PIAP vai realizar o evento PIAP40, focando na produção do grupo e seus alunos (atuais e formados). Serão 9 concertos, 5 estreias mundiais, 5 mesas-redondas e duas seções de comunicações. O evento será realizado no Instituto de Artes da Unesp entre os dias 25 e 28 de julho próximo.

Fora do ritmo

Uma dessas apresentações foca a principal mudança ocorrida no programa nos últimos cinco anos – a incorporação de gêneros e estilos percussivos da chamada música popular dentro de um dos principais programas de música contemporânea. De forma geral, isso também resulta em “olhares cruzados” de alguns acadêmicos pela suposta “inferioridade e inutilidade” desse tipo de música na Universidade, mas que, em nossa opinião, tem acrescentado muito à formação dos nossos percussionistas. Na noite do dia 27 de julho apresentam-se a Orquestra de Berimbaus, a baterIA PIAP e o trabalho fusion Syntax com o guitarrista Heraldo Paarmann e o baterista Flávio Suete.

A programação geral do evento pode ser acessada no próprio site do PIAP: http://grupopiap.wixsite.com/piap

O Grupo também lançou um financiamento coletivo para custear o evento: https://benfeitoria.com/grupopiap

Carlos Stasi, diretor do curso de Percussão do Instituto de Artes da Unesp, codirige o PIAP com Eduardo Gianesella, professor do curso

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