A internacionalização como um meio para ’driblar’ a crise

texto ◘ Fabio Mazzitelli

Unesp Ciência entrevistou o pesquisador do IPBEN Jéferson Gross, um dos representantes da Unesp no simpósio internacional realizado na Alemanha, onde foi assinado o acordo trilateral que deu origem à Aliança Global em Bioeconomia

Pesquisador do Instituto de Pesquisas em Bioenergia (IPBEN) em Rio Claro, Jéferson Gross foi um dos representantes da Unesp no simpósio “Produtos Naturais: Análises, Biodiversidade e Bioquímica”, realizado em junho na cidade alemã de Straubing.

Na ocasião, a Unesp assinou acordo trilateral com a Technical University of Munich (TUM), da Alemanha, e a Universidade de Queensland (UQ), da Austrália, formando a Aliança Global em Bioeconomia, com o objetivo de fortalecer a cooperação em pesquisa e ensino por meio de workshops, projetos comuns e intercâmbio de pessoal para trocar conhecimento e experiência nesse campo.

A próxima reunião entre Unesp, TUM e UQ será no próximo ano, no Brasil, com a participação de estudantes de doutorado das três universidades e apoio da Unesp e do escritório da TUM em São Paulo. A Unesp Ciência conversou com o Jéferson Gross sobre a Aliança Global em Bioeconomia e o encontro realizado na Alemanha. O pesquisador do IPBEN foi coordenador de projeto no Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes da Fapesp (2013-2016) e é credenciado no Programa Integrado de Doutorado em Bioenergia, que envolve Unesp, USP e Unicamp.

Unesp Ciência Qual é a importância da Aliança Global em Bioeconomia, firmada pela Unesp, para os pesquisadores brasileiros?
Jéferson Gross Vivemos em uma época de transição cultural e tecnológica em que temos o desafio de direcionar nossa sociedade para uma economia sustentável e harmônica com o meio ambiente. Essa tarefa não é simples: precisamos criar novas tecnologias para produção e uso de matérias-primas renováveis, energias alternativas, além de mais alimentos e novos medicamentos para uma população crescente. Tal transição para uma bioeconomia globalizada só será conquistada com forte investimento em pesquisa científica!

Inserindo-se otimamente nesse contexto está a “Aliança Global em Bioeconomia”, firmada entre a Universidade de Queensland (UQ), Universidade Técnica de Munique (TUM) e a Unesp. A aliança trilateral promoverá a colaboração entre cientistas das instituições participantes visando projetos de pesquisa internacionais. Essa aproximação estimulará intercâmbio tecnológico e de recursos humanos, facilitando visitas recíprocas envolvendo pesquisadores e alunos, além de workshops e simpósios entre as três universidades.

A nova aliança tem potencialidade de alavancar pesquisas da Unesp com foco em produção de alimentos, bioenergia e sustentabilidade. Também propiciará que alunos nossos tenham uma formação técnica mais abrangente voltada para internacionalização. Isso é importante, pois o Brasil tem enorme relevância para a nova bioeconomia mundial, já que é grande produtor de alimentos e gerador de biomassa para a química verde emergente. Mas o que precisamos ainda é gerar tecnologias e formar recursos humanos capacitados visando a nossa inserção competitiva na bioeconomia mundial.

O estímulo proporcionado por parcerias internacionais abre portas para esse crescimento tecnológico e insere o pesquisador da Unesp em um contexto global. Por outro lado, os colegas da TUM e UQ reconhecem a potencialidade das pesquisas realizadas no Estado de São Paulo e sabem que o Brasil desempenhará um papel relevante na nova bioeconomia, por isso também querem se beneficiar de parcerias com a nossa Universidade.

 

UC Qual foi o trabalho que você apresentou no simpósio?
JG Minha apresentação colocou uma visão geral sobre os trabalhos realizados em nosso “Laboratório de Genômica e Evolução Experimental de Leveduras”. Eu falei mais especificamente dos dados da minha colaboração com o colega Dr. Cheong Xin Chan, da UQ, Austrália. Juntos estamos utilizando tecnologias modernas de sequenciamento genômico para decifrar em alta resolução o código genético de leveduras produtoras de bioetanol. Também enfoquei os nossos trabalhos de evolução adaptativa de leveduras ao estresse de etanol, o qual é o produto visado na fermentação alcoólica, mas também é tóxico para as células das leveduras. De maneira geral, nossas pesquisas têm por objetivo a identificação de genes que possam servir para a melhoria das leveduras visando maior eficiência do processo de produção do etanol a partir de extratos da cana-de-açúcar.

 

“Vejo a internacionalização como um meio de ’driblar’ as limitações da crise atual de suporte para ciência no Brasil”

 

UC Qual é a importância desse intercâmbio para um pesquisador como você?
JG Sob o guarda-chuva da temática bioeconomia, o simpósio na Alemanha foi de caráter interdisciplinar, com pesquisadores das áreas de alimentos, biotecnologia, química analítica, enzimologia e até bioinformática. O aspecto mais interessante dessa interdisciplinaridade é a identificação de complementaridades entre as áreas de expertise dos pesquisadores. Nesse sentido foi importante aprender como colegas de áreas diversas podem contribuir para aspectos da minha pesquisa. Por exemplo, a identificação de vitaminas (química de alimentos) é interessante para nossa pesquisa com leveduras do bioetanol (biotecnologia), uma vez que essas apresentam biossíntese pronunciada de algumas vitaminas em condições de fermentação industrial no Brasil. Outro exemplo é a potencialidade de se combinar a produção de biocombustíveis por abordagens in vivo (fermentação em leveduras) com abordagens in vitro (por reações químicas controladas por cascatas de enzimas). Esse eixo de complementaridades serviu como base para discussão, entre os pesquisadores presentes no simpósio, visando a formulação de futuros projetos trilaterais.

 

O pesquisador do IPBEN Jéferson Gross

UC O que projeta para o futuro, dentro dessa perspectiva de parcerias ou trocas com pesquisadores de outros países?
JG Vejo a internacionalização como uma excelente perspectiva para minha carreira como pesquisador no Estado de São Paulo. Como mencionado, tenho uma parceria em andamento com o colega CX Chan, bioinformacionista da UQ que estive visitando em janeiro último (bolsa de intercâmbio Unesp-AREX/UQ) e com o qual agora submeti um projeto de mobilidade junto a Fapesp e UQ. Espero que esse modelo ativo de parceria seja comum no futuro, com colaborações promissoras com outros cientistas da UQ e da TUM e oportunidades de submeter projetos conjuntos junto às agências de fomento que estejam ao alcance de cada parte. Também projeto (e incentivo) o engajamento dos meus alunos nessas atividades de intercâmbio, pois acredito na importância da internacionalização ainda na fase formativa do cientista. Com a complementaridade técnica e de conhecimento que posso encontrar nos parceiros do exterior, consigo alavancar minhas pesquisas para um patamar de qualidade superior do que conseguiria se trabalhasse só no Brasil. Vejo a internacionalização até como um meio de “driblar” as limitações decorrentes da crise atual de suporte para ciência no nosso país. Dado esse cenário atual não muito promissor, aliado à tendência de globalização da economia, acredito que a internacionalização das universidades brasileiras será cada vez mais buscada no futuro próximo.

UC O IPBEN em Rio Claro ofereceu um curso gratuito em biocombustíveis. Qual é a relevância de capacitar ou engajar jovens para pesquisar na área?
JG O Brasil tem potencialidade de ser o celeiro do planeta e o grande provedor mundial de biomassa para a bioeconomia global. Precisamos ir além do papel de meros fornecedores e nos estabelecermos como fortes produtores. O exemplo bem-sucedido do bioetanol mostra que somos capazes de edificar uma indústria nacional de biocombustíveis. Assim, precisamos engajar e empoderar a nova geração para que assuma papel ativo e dê essa importante contribuição para a bioeconomia nacional. O IPBEN, além de uma atuação forte na pesquisa científica de biocombustíveis e materiais renováveis, também tem por missão a formação de recursos humanos para atuação na área.

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