Memórias de lutas pela paz mundial

texto ◘ Genira Chagas

Documentos relatam congresso organizado no Rio em 1915 por operários contra primeira Grande Guerra

A matéria a seguir tem origem em fatos relativos à Primeira Grande Guerra, ocorridos no longínquo 1915, quando foi realizado, no Rio de Janeiro, um congresso pela paz mundial. Mas caberia perguntar: por qual razão o Brasil, que não foi um ator ativo do conflito, sediou esse evento? Para responder é preciso lembrar a iniciativa da associação cultural de sindicalistas anarquistas espanhóis do município de Ferrol – região da Galícia, a cerca de 50 quilômetros da capital Corunha – de organizar uma oposição à guerra por meio de boicote ao transporte de mercadorias e da convocação de uma greve geral. Para tanto, seria necessária a união dos trabalhadores, em nível internacional, independente do seu espectro político. Segundo os proponentes, os trabalhadores padeciam as tragédias impostas pelos combates. Afinal, formavam a maioria dos soldados na linha de frente dos conflitos.

O congresso deveria ter sido realizado entre 30 de abril e 2 de maio de 1915, em país neutro. A guerra então já contava sete longos e sofridos meses. Tratava-se de um conflito entre nações industrializadas, que envolvia quase toda a Europa e se desenrolava em múltiplas batalhas nas quais os soldados estavam entrincheirados, separados por distâncias de cem ou duzentos metros, com armamentos com grande capacidade de destruição. As munições incluíam canhões, fuzis, tanques, aviões bombardeiros e produtos químicos, sem esquecer a guerra pelos mares, com modernos submarinos.
Nessas condições, não admira que a mortandade fosse enorme, com a agravante de não haver separação entre população civil e militar. Os corpos eram deixados para trás em valas rasas. Não tardou a infestação por insetos e ratos, acompanhada por doenças. Naquele clima de tensão, a realização do congresso, na visão da liderança operária, era urgente.

Contudo, o Congresso Internacional da Paz nem chegou a ser realizado. O governo espanhol não só impediu a reunião como expulsou delegações estrangeiras já presentes em Ferrol. Apesar da proibição, alguns representantes de organizações sindicais, centros de trabalhadores, grupos de operários anarquistas e militantes portugueses reuniram-se clandestinamente. O grupo, então, definiu a criação de um Comitê Permanente do Congresso, com sede em Lisboa, que deveria elaborar textos destinados às trincheiras, a serem distribuídos quinzenalmente.

Vozes da indignação
A notícia da proibição do Congresso proposto pelo Ateneo Sindicalista de Ferrol chegou aos ativistas sindicais brasileiros que, em assembleia no Centro de Estudos Sociais do Rio de Janeiro, corajosamente propuseram a convocação de evento idêntico a realizar-se na capital fluminense, nos dias 14, 15 e 16 de outubro de 1915. A Confederação Operária Brasileira (COB) abraçou a causa e, em 29 de junho, lançou um manifesto às associações operárias e agremiações revolucionárias nacionais e internacionais – socialistas, anarquistas, sindicalistas – convocando-as para o Congresso Internacional da Paz, cuja organização ficou a cargo dos anarquistas Astrojildo Pereira (Ver Box 1) e Antonio Vieytes.

 

 

Importante ressaltar que a COB era formada por federações de trabalhadores ou profissionais autônomos, uniões locais e estaduais de sindicatos, cuja origem remonta ao Primeiro Congresso Operário Nacional, ocorrido em 1906. Na ocasião houve a participação de 43 delegados, representando 28 entidades, com destaque para militantes anarquistas paulistas e fluminenses: Edgard Leuenroth, Astrojildo Pereira, João Crispim, Luigi Magrassi, Giulio Sorelli.

Devido à guerra, as condições econômicas não eram favoráveis e impuseram fortes dificuldades para que as agremiações enviassem seus representantes ao Congresso no Rio de Janeiro. Apesar disso, o relatório da comissão organizadora notificou a presença de 20 delegações do exterior enviadas da Argentina, Portugal, Itália, Espanha e Estados Unidos. Do Brasil, estiveram presentes representantes de 25 entidades dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Alagoas e Minas Gerais, além de adesões pessoais e da imprensa.

 

Apesar das dificuldades, encontro registrou 20 delegações, vindas da Argentina, Portugal, Itália, Espanha e Estados Unidos, além de representantes de entidades de seis Estados brasileiros

 

Na abertura do evento, em 14 de outubro, Astrojildo Pereira, secretário da COB, e Antonio Vieytes saudaram os presentes e, sem seguida, declararam: “Camaradas! Esta assembleia, reunida, apesar de tudo, em meio ao descalabro causado pelo monstruoso crime guerreiro, é uma prova evidente de que as aspirações e os sentimentos do proletariado revolucionário não se acham mortos nem apagados. Podemos gritar para o mundo: ao velho pendão da Internacional nós o empunhamos, por sobre todas as ruínas, como um sinal de energia vital, de energia invencível. Viva a Internacional!”

Vieytes, por sua vez, lembrou: “Considerando que a guerra europeia é um crime de lesa-humanidade, a Confederação Operária Brasileira acordou celebrar um Congresso Internacional da Paz, não como objeto exclusivo de terminar a guerra, mas para afirmar que a Internacional dos Trabalhadores não morreu. Que, apesar dos anos decorridos, hoje vem dizer que não se inaugura uma nova Internacional e sim que continua aberta a sessão da Internacional do ano de 48”. (Supõe-se ser 1848).

A documentação da época aponta que diversos delegados puderam expor seus pontos de vista sobre a guerra, objeto de discussão do evento. Outra manifestação partiu do operário Apolinario Barrera, da Federación Obrera Regional Argentina. Ele disse: “Torna-se mister que o Congresso da Paz veja qual o meio a adotar para terminar com a guerra, pois que o simples pedido às nações beligerantes nada adiantaria”. Na opinião de Barrera “o boycottage” era o meio melhor, mas assim mesmo improfícuo porque não poderia atingir a todas as nações.” Em seguida, outro trabalhador, de nome Mansilla, segundo o Jornal do Brasil, de 15 de outubro de 1915, fez um longo discurso antimilitarista, atacando de modo veemente a guerra e a destruição das obras de arte, “como ora se tem feito na Europa, destruindo assim a obra do operário, que anônimo, faz trabalhos grandiosos, que muitas vezes batiza com seu sangue”.

Após dois dias do Congresso, na noite do dia 16, a mesa colocou em votação a moção do delegado paulista Florentino de Carvalho. O documento gerou intenso debate até serem aprovados por unanimidade os oito artigos, que expressavam os anseios dos delegados presentes (Ver Box 2).

 

 

Além da moção Florentino de Carvalho, o Congresso também deliberou pela criação de um “Comitê de Relações Internacionais”, com sede no Rio de Janeiro, com o objetivo de realizar um Congresso Internacional Sul-Americano para criação da Confederação dos Trabalhadores do Continente, buscando acelerar a organização da Internacional mundial. Ao final, o secretário Astrojildo Pereira propôs uma comissão responsável por levar adiante campanha internacional sistemática contra a guerra.

Os operários também decidiram realizar um grande comício que teve lugar no Largo São Francisco de Paula, a 17 de outubro. Diversos oradores revezaram-se, entre eles os diretores da Federação Operária, delegados de países sul-americanos, da Espanha e de Portugal. O último a discursar foi o líder Florentino de Carvalho. Segundo o Jornal do Brasil, de 18 de outubro de 1915, ele proferiu as palavras de ordem que definiram as intenções do Congresso: “Abaixo a guerra! Viva a solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo! Viva a Revolução Social!”

Repercussão do Congresso na imprensa anarquista
A união da classe operária em prol da realização do Congresso Internacional da Paz, além dos objetivos próprios do evento, também contribuiu para reforçar os laços revolucionários entre a diversas associações classistas em todo o mundo, principalmente as do continente americano e da Península Ibérica. As manifestações dos trabalhadores durante o evento foram registradas pela imprensa sindicalista e progressista da época. Destaque para o Jornal do Brasil que, embora não anarquista, cobriu os três dias do evento e publicou discursos, representações e moções.

No exterior, a imprensa anarquista, como esperado, repercutiu a iniciativa com a publicação, inclusive em matérias na capa, a exemplo de A luz, uma folha quinzenal editada na cidade de New Bedford, em Massachusetts (EUA). Ainda nos EUA, o La Protesta publicou, na primeira página, crônica com avaliação positiva do evento; O italiano Avanti estampou a reportagem “Per um congresso a Rio in favore della pace”. No Brasil, o jornal Epoca, do Rio de Janeiro, registrou o evento na página 2; no semanário fluminense Na Barricada, as notícias do congresso também ocuparam a segunda página.

Já um periódico argentino, não identificado na documentação arquivada por Astrojildo Pereira, publicou longa crítica, em 10 de novembro, definindo o evento como “artificial”: “La conferencia anarquista de Rio y el finalismo artificial”, na qual criticou a supremacia dos intelectuais e suas aspirações com propósitos culturais sobrepondo-se à causa comum.

 

 

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Acervo do Cedem
Todas essas informações e uma vasta documentação sobre o Congresso Internacional da Paz estão disponíveis no Fundo Astrojildo Pereira, do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro (ASMOB em italiano), custodiado no Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp.

No ano em que se comemora o centenário do final da Primeira Grande Guerra, a equipe do CEDEM contribui com a efeméride por meio de uma série de textos publicados em seu site, contextualizando o conflito e o Congresso realizado pela COB, cuja redação coube a historiadora Renata Cotrim. A ideia da professora Tania Regina de Luca, Coordenadora substituta do CEDEM, de explorar esse material de valor histórico surgiu a partir da indicação da historiógrafa Jacy Barletta, que o organizava e chamou a atenção para a importância desse conjunto documental. Acesse: www.cedem.unesp.br

 

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