Escritor americano oferece ao leitor possibilidade de se curar dos traumas

texto ◘ João Paulo Vani

Dois livros de Jonathan Safran Foer resgatam os bens arqueológicos da Humanidade, seja no século XX, com o Holocausto, seja no século XXI, com o 11 de setembro

O fascínio que a Arqueologia exerce sobre as pessoas, com seus sítios repletos de novidades seculares trazidas a público em meio a mistérios e fantasias que permeiam o imaginário. É impossível estar diante das ruínas do Fórum Imperial em Roma e não se permitir pensar sobre os acontecimentos daquele momento histórico e sobre as personagens que habitam aqueles espaços; não se permitir imaginar como seria a vida no Império de César. Ou o Egito dos faraós, ou a Terra Santa de Jesus Cristo.

Assim podem ser também consideradas as histórias familiares, cujo apagamento do tempo – ou do trauma – fazem com que as novas gerações não apenas desejem saber mais sobre sua própria identidade, como também se permitam imaginar os cenários pelos quais aquelas pessoas que estão tão perto-longe transitaram.

Em seu livro de estreia Everything is Illuminated (2002), o autor judeu-americano Jonathan Safran Foer apresenta o narrador-personagem-autor homônimo, que faz uma viagem à Ucrânia em busca de informações sobre seu avô, judeu, que fora abrigado e salvo dos nazistas por uma mulher chamada Augustine; nessa trama, Foer (o autor), terceira geração de judeus sobreviventes ao Holocausto, convida o leitor a revisitar criticamente o passado, uma forma de gerações atuais restabelecerem contato com seus antepassados.

 

Everything is Illuminated (2002); 276 páginas

 

No desenrolar da narrativa, muitos elementos sobre o trauma atávico do povo judeu aparecem, e o fato de Foer (o narrador-personagem) não ter conseguido localizar a ficcional Trachimbold, a Shtetl [aldeia, cidadela, em iídiche] em que seu avô morava.

A cidadela ficcional de Foer é uma referência direta a Trochenbrod, cidadela transformada em gueto, liquidado entre agosto e setembro de 1942 em uma série de massacres perpetrados pela polícia ucraniana. O Museu da História dos Judeus Poloneses em Varsóvia, Polônia, estima em 5.000 o número de judeus mortos em Trochenbrod; estima ainda que cerca de 200 homens entre 30 e 40 anos tenham conseguido fugir pela floresta. Aqueles que sobreviveram foram localizados em uma área próxima a Lutsk. A história revela que os soldados nazistas não se limitaram a acabar com os judeus de Trochenbrod: a vila foi totalmente destruída e incendiada, tendo seu território posteriormente nivelado – e totalmente apagado do mapa da Ucrânia.

Em seu segundo romance, Extremely Loud & Incredibly Close (2005), ambientado em uma Nova York pós-11 de setembro, Jonathan Safran Foer revela, em uma das três linhas narrativas (a mesma que foi levada às telas do cinema com Tom Hanks e Sandra Bullock), a história de Oskar Schell, um menino de 9 anos que perde o pai, Thomas Schell, nos atentados terroristas contra as Torres Gêmeas.

 

Extremely Loud & Incredibly Close (2005); 326 páginas

 

Para Oskar, a fantasia do que não viveu ao lado do pai é apagada pelo pesadelo de tentar recompor os últimos momentos vividos por todos os que estavam no World Trade Center naquele dia – para Oskar, o pior dos dias.

Na tentativa de reencontrar seu pai, pelo cheiro, pela sua forte presença que ainda resiste em seu closet, intacto, Oskar entra no armário no dia em que os atentados completam o primeiro aniversário e, mexendo nas prateleiras, quebra um vaso e descobre um envelope com uma chave dentro. A única inscrição no envelope é “Black”, o que insere o menino em uma busca fantasiosa, em uma “expedição de reconhecimento” pela cidade de Nova York nos endereços habitados por famílias de sobrenome “Black”, em uma busca de uma fechadura para sua chave, processo que não apenas evita o esquecimento, mas leva ao amadurecimento e à cura.

Em contato com outras pessoas, Oskar (re)descobre um mundo que havia ficado soterrado nos escombros dos prédios, um processo quase arqueológico de desenterrar a vida que vivia antes do “pior dos dias”, de se permitir encontrar o que havia ficado pra trás, numa ruptura emocional absolutamente indesejada.

Foer resgata os bens arqueológicos da Humanidade, seja no século XX, com o Holocausto, seja no século XXI, com o 11 de setembro, e oferece ao leitor uma possibilidade de se identificar, revisitar, descobrir e redescobrir e, principalmente, se curar dos traumas.

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João Paulo Vani é aluno de doutorado do Programa de Pós-graduação em Letras da Unesp/São José do Rio Preto, é mestre em Teoria Literária (Unesp) e especialista em Administração (MBA) com ênfase em Comunicação e Marketing. É presidente da Academia Brasileira de Escritores e coordenador do programa “Brazilian Studies” da University of Louisville, nos Estados Unidos.

 

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