O jornalismo diante das Fake News

Dois especialistas da Unesp discutem as notícias falsas: fenômeno não é novo, mas apesar das iniciativas para combater a desinformação, medidas ainda parecem distantes de encontrar uma solução

DESINFORMAÇÃO E CRISE DE CREDIBILIDADE
texto ◘ Francisco Rolfsen Belda e Angela Pimenta

A crise de desconfiança que atinge diversas instituições da sociedade civil, em âmbito global, imprensa inclusa, ganhou impulso e visibilidade especial nos últimos anos com a popularização da expressão fake news. Mas se, à primeira vista, o termo parece instigante para referir uma boa parte dos fenômenos contemporâneos da desinformação, ou mesmo útil para ajudar a promover o necessário debate sobre o tema, o fato é que se trata de um rótulo impreciso.

Primeiro, porque fake news é um termo contraditório. Afinal, se é notícia, não poderia ser falsa. Pode ser, sim, fraudulenta, ou mesmo falsificada. Ou pode estar errada, incorretamente apurada – e não é esse o problema de que aqui se trata aqui. Mas o rótulo é impreciso, principalmente, porque a ideia que carrega é ambígua e simplista demais para descrever o que está por trás das várias formas de engano – deliberado ou não – que pululam atualmente na internet, como estudos recentes têm apontado.

Antes de conhecê-las, vale lembrar que não é nova a prática de falsificar relatos sobre acontecimentos de atualidade para difamar, caluniar ou confundir a opinião pública. Esse tipo de tática já foi usada, por exemplo, durante o império romano (para atacar o general Marco Antônio), na renascença italiana (para tentar influenciar o conclave que elegeu Adriano VI), na Revolução Francesa (contra o Conde de Maurepas, do ministério do rei Luís XVI), além de ter ocupado divulgadores da ciência no século 19 (que afirmaram haver vida na Lua) e pelo nazismo no século 20 (na promoção da agenda hitlerista e do antissemitismo) [1].

Ao buscarem uma taxonomia para o atual ecossistema da desinformação no meio digital, os pesquisadores Claire Wardle e Hossein Derakhshan, autores de Information Disorder – Toward an interdisciplinary framework for research and policy making [2], comparam o cenário de produção, difusão e consumo de lixo informativo na internet ao da poluição ambiental, e explicitam a natureza complexa e diversa desses conteúdos. De acordo com a classificação proposta pela dupla, há pelo menos sete tipos de isca a espreitar os internautas ávidos por clicar em qualquer coisa que pareça informação na rede. São eles:

  1. Falsa conexão: quando manchetes, ilustrações ou legendas não confirmam o conteúdo
  2. Falso contexto: quando conteúdo genuíno é acompanhado de informação contextual falsa
  3. Manipulação do contexto: quando informação ou imagem genuína é manipulada para enganar
  4. Sátira ou paródia: conteúdo sem intenção de prejudicar, mas com potencial para enganar
  5. Conteúdo enganoso: enquadramento ilusório de informação real sobre algo ou alguém
  6. Conteúdo impostor: quando fontes genuínas são imitadas
  7. Conteúdo fabricado: completamente falso, criado para ludibriar e prejudicar.

A rigor, informações fraudulentas – deliberadamente falsificadas – se relacionam com este último tipo.
Ainda segundo os autores do estudo, estes sete tipos de conteúdo que fomentam confusão no meio digital podem ser separados em duas grandes esferas interseccionadas. De um lado estão os conteúdos nitidamente falsos, ou baseados em informação incorreta, a que correspondem as classificações de falsa conexão e conteúdo enganoso. Do outro lado estão os conteúdos nocivos, que podem ser chamadas de mal-informação e estão relacionada ao dolo, à intenção de agredir e causar dano, incluindo vazamentos, assédio e o discurso do ódio, fenômenos que geralmente extrapolam o campo jornalístico. No centro, ou na intersecção dessas esferas, estaria a des-informação, correspondente às classificações de falso contexto, conteúdo impostor e conteúdo fabricado. (veja o quadro a seguir)

 

 

Mas se estes conteúdos fabricados, ou as chamadas fake news, são apenas um dos vários elementos que compõem o ecossistema da desinformação, vale notar que eles tampouco devem ser tomados como fator isolado ao se considerarem as causas da crise de confiança que se projeta, atualmente, sobre o ambiente comunicacional da esfera pública. Também concorrem nesse cenário uma série de outros fenômenos correlatos, e não menos preocupantes, que, em seu conjunto, contribuem para deteriorar o pacto que sustenta a relação entre os meios e a sociedade. Ao se buscar as raízes da crise de credibilidade que ronda o jornalismo, encontra-se, muito mais até do que relatos pseudo-noticiosos deliberadamente falsos, fenômenos igualmente complexos, como os seguintes:

  • A fragmentação da notícia no meio digital: ao migrar das páginas impressas de jornais e revistas para as timelines das redes sociais, o conteúdo noticioso se mistura – e é frequentemente confundido – com o ruído digital
  • A desintermediação da notícia no ambiente da internet: possibilidade que fontes, sobretudo governamentais e/ou políticas, têm de evitar o escrutínio jornalístico através de seus canais diretos de comunicação, como perfis e contas em mídias sociais
  • A polarização política da sociedade brasileira: situada em campos ideológicos opostos e antagônicos, uma parte substancial do eleitorado tende a desacreditar de informações verdadeiras que prejudiquem seus aliados e/ou candidatos ou que beneficiem seus oponentes
    O viés de confirmação: tendência natural que as pessoas têm de lembrar, interpretar ou pesquisar informações para confirmar crenças ou hipóteses iniciais. Uma das causas da polarização política, o conceito de viés de confirmação foi cunhado pela dupla de psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky na década de 1970
  • Os filtros bolhas nas redes sociais (conceito cunhado pelo jornalista americano Eli Pariser por volta de 2010): confinadas às suas bolhas, as pessoas tendem a só se relacionar com quem pensa como elas, ignorando o discurso contraditório e a realidade fora de seu ambiente
  • Quando se trata da produção de notícias, o viés da confirmação e os filtros bolhas também podem levar à apuração enviesada de informações – com sérios prejuízos para a integridade do conteúdo final
  • A precarização da profissão jornalística: em grande medida resultante do avanço da publicidade digital, a contínua crise financeira dos veículos jornalísticos impressos têm causado cortes de vagas, achatamento salarial e a substituição nas redações de jornalistas mais velhos e mais bem pagos por repórteres mais jovens e inexperientes.
  • Outras deficiências no fazer jornalístico: tais como a falta de princípios éticos, o não cumprimento desses princípios por veículos que afirmam adotá-los e a falta de transparência em comunicá-los

Para ajudar a enfrentar o problema, lançamos, há cerca de dois anos, o projeto Credibilidade, como capítulo brasileiro do Trust Project. Idealizada pela pesquisadora norte-americana Sally Lehrman, da Santa Clara University, a iniciativa envolve aproximadamente cem organizações jornalísticas em âmbito mundial. Seu objetivo é desenvolver ferramentas e técnicas para identificar e promover um jornalismo digital confiável e de qualidade em meio digital. Para isso, propõe um conjunto de indicadores de credibilidade a serem adotados por veículos interessados em distinguir seu conteúdo do ruído que, cada vez mais, concorre pela atenção dos leitores de notícias na internet.

O projeto Credibilidade propõe um conjunto de indicadores a serem adotados por veículos interessados em distinguir seu conteúdo do ruído que, cada vez mais, concorre pela atenção dos leitores de notícias na internet

Esses indicadores envolvem, por exemplo, a observância de princípios éticos do jornalismo, transparência em relação a fontes de financiamento dos veículos, a diversidade da equipe editorial e das vozes representadas no discurso jornalístico, a identificação de autoria dos textos e das imagens publicadas, a clara diferenciação entre conteúdos informativos, opinativos e publicitários, além da explicitação dos métodos de apuração de reportagens, a documentação de citações e referências nos textos, sinais de geolocalização, possibilidade de contato entre os leitores e a redação, entre outros.

No Brasil, o projeto é coordenado por meio de uma parceria entre o Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo – Projor e o Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia (PPGMIT) da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Unesp. Seu consórcio de mídia conta com 18 veículos jornalísticos, de diferentes portes e regiões do país, além do apoio institucional da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Google e Facebook patrocinam o projeto.

Desde 2016, já foram realizadas uma pesquisa com mais de 300 jornalistas e editores brasileiros, dois eventos com foco em design de usabilidade para a expressão do sistema de indicadores, além de diversas reuniões com representantes dos veículos que integram o consórcio de mídia, visando a implementação do protocolo de credibilidade. Em paralelo, são mantidas atividades de educação midiática, com palestras e difusão de material informativo com o objetivo de conscientizar estudantes, educadores e comunicadores em relação aos fenômenos – e os riscos – da desinformação no meio digital.

Nossa esperança é que este seja um trabalho útil não apenas aos profissionais da área, mas a todos os que se interessam pelo jornalismo, sobretudo pela ligação umbilical entre a democracia e a produção de informações qualificadas que guiem decisões de interesse público. Afinal, essa relação é crítica para a própria qualidade da democracia contemporânea, da qual o jornalismo e a credibilidade que lhe deveria ser intrínseca são, mais do nunca, um pilar fundamental.

_____________

Para saber mais, visite: www.manualdacredibilidade.com.br

[1] Para uma história das chamadas notícias falsas, ver a linha do tempo publicada pelo International Center for Journalists e também o artigo The true story of fake news, do historiador Robert Darnton:

Julie Posetti and Alice Matthews. A short guide to the history of ‘fake news’ and disinformation. ICFJ, 2018. Disponível em: <https://goo.gl/qN95W6>.

Robert Darnton. The True History of Fake News. The New York Times Review of Books. February 13, 2017. Disponível em: <https://goo.gl/XqwngR>.

[2] Claire Wardle e Hossein Derakhshan. Information Disorder – Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Council of Europe Report. 2017. Disponível em: <https://goo.gl/UzYWM8>.

Francisco Rolfsen Belda, docente do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Unesp.

Angela Pimenta, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo – Projor, mestre em Jornalismo pela Universidade Columbia (Nova York).

 

DENUNCIAR NOTÍCIAS FALSAS AINDA NÃO É TUDO, INFELIZMENTE
texto ◘ Danilo Rothberg

A rede social online mais popular atualmente no Ocidente anunciou em abril de 2018 os alegados avanços em torno de seu denominado “programa de verificação de fatos” no Brasil. Agências de checagem de informações foram escolhidas como parceiras, e seus vereditos devem passar a influenciar a lógica da rede a fim de desacelerar a propagação do que for detectado como não “verdadeiro”. Muitos otimistas viram na novidade um indício de que a Internet poderia começar a ser desinfetada dos trapaceiros da informação. Ainda mais porque o tal programa foi duramente criticado por fontes sabidamente difusoras das mais grosseiras invenções, muito embora sejam capazes de mobilizar dezenas de milhares, tanto virtualmente quanto nas ruas, com o pretexto de criar um país “livre”. Se tais fontes se sentiram ameaçadas pelo tal programa, ele só poderia ser muito bom. Certo?

Não necessariamente. Isso porque a controvérsia em torno das notícias falsas e das formas de combatê-las raramente tem superado o senso comum em relação a dois aspectos: primeiro, o de que as agências de verificação de fatos seriam sempre confiáveis e, seus critérios, absolutos; e, segundo, o de que seria possível traçar linhas definitivas entre o “verdadeiro” e o “falso”. Essas crenças comuns precisam ser questionadas, mas a rede social e os entusiastas de seu programa de verificação não parecem muito propensos a isso.

Em relação ao primeiro aspecto, a confiabilidade das agências, cabe indicar que a elas também deve ser aplicado o clássico preceito de crítica de mídia dirigido ao jornalismo industrial, segundo o qual uma característica básica das notícias é sua seletividade, obscurecida pela imagem da isenção. Ou seja, o foco de denúncias, enquadramentos críticos e do jornalismo alegadamente investigativo costuma ser construído preferencialmente em direção aos personagens e setores não alinhados com os interesses das empresas de mídia, de base econômica ou política, enquanto os costumes desabonadores de apadrinhados tendem a receber menos atenção. Mas as práticas editoriais seletivas são convenientemente revestidas pelo usual discurso de marketing empregado pelo jornalismo comercial para ganhar credibilidade, que promete entregar uma cobertura apartidária e luta para manter invisíveis os critérios de produção de notícias e alvos preferenciais.

 

 

Ora, as agências de checagem ainda precisam provar que não operam, furtivamente, com uma similar seletividade, escolhendo aqui e ali seus alvos, enquanto ignoram ou são condescendentes com outros. Em seu favor, podemos notar que muitas parecem ter percebido que o desafio não é insignificante, e se declaram associadas a uma rede internacional de iniciativas engajadas na verificação de fatos, fundada por renomado instituto de ensino e pesquisa em jornalismo. Os associados (48 de todo o planeta, até este momento) devem adotar um código de conduta e compromissos com cânones tradicionais do jornalismo, incluindo apartidarismo, equidade, transparência sobre metodologias e financiadores
(mais em <https://bit.ly/2wvy0KB>).

Aqui começamos a notar a complexidade do desafio posto aos checadores de fatos. A dificuldade de o jornalismo industrial sustentar sua independência editorial é, provavelmente, uma das maiores ameaças à democracia em toda a parte, reconhecida dentro da academia e fora dela, à esquerda e à direita. Do ponto de vista teórico, admite-se ser improvável a conquista de independência em patamares satisfatórios. As diversas linhas de estudo científico das rotinas de produção da notícia como produto à venda tendem a convergir para a negação da própria possibilidade de autonomia. E, no âmbito das pesquisas sobre as práticas profissionais, a teoria tem sido corroborada. Daí ter nascido, em muitos países da Europa Ocidental, o serviço público de radiodifusão e jornalismo, a exemplo da BBC, uma aposta das democracias para remediar as insuficiências do jornalismo comercial. É verdade que a crise contemporânea de credibilidade tanto do jornalismo quanto da democracia não poupou os países europeus e nem seu jornalismo como serviço público, mas há evidências de que por lá a informação jornalística produzida com recursos públicos tem se saído melhor na busca pela confiança de quem ainda se interessa por ler notícias e não restringe sua internet às redes sociais.

Se o próprio jornalismo tem dificuldade em assegurar sua independência, tanto em sua conduta efetiva quanto aos olhos do público, o que dizer das agências incumbidas justamente de verificar se as notícias entregam o que foi prometido pelas empresas de mídia? São empresas que, não por coincidência, têm abraçado alegremente parcerias com tais agências e submetido seu produto à checagem controlada por elas. Há um longo caminho a percorrer.

Os pedregulhos desse caminho nos levam ao segundo aspecto enunciado acima, o de que seria possível às agências de checagem traçar linhas definitivas entre o ‘verdadeiro’ e o ‘falso’. Ironicamente, nem elas pretendem chegar a tanto. A renúncia das agências à usual meta profissional de objetividade poderia ser tranquilizadora, mas as metodologias que praticam são bastante perturbadoras. Vejamos.
A agência de checagem Aos fatos classifica as notícias com os selos ‘verdadeiro’, ‘impreciso’, ‘exagerado’, ‘falso’, ‘insustentável’ e ‘contraditório’. A Lupa utiliza os rótulos ‘falso’, ‘contraditório’, ‘verdadeiro’, ‘ainda é cedo para dizer’, ‘exagerado’, ‘insustentável’, ‘verdadeiro, mas’ e ‘de olho’. Já a Pública emprega ‘verdadeiro’, ‘sem contexto’, ‘contraditório’, ‘discutível’, ‘exagerado’, ‘distorcido’, ‘impossível provar’ e ‘falso’.

Não é preciso ser especialista na área para, no mínimo, apreciar tais classificações com estranhamento, por sua falta de objetividade. E uma rápida olhada comparativa nos resultados das verificações indica contradições importantes. Não raro, uma mesma linha, proferida por político ou candidato frequentador de primeiras páginas, é classificada de maneira diferente entre as agências. Esta insuficiência das práticas de verificação de informações tem levado muitos a aumentar sua desconfiança em relação à indústria jornalística, agora adicionando as agências de checagem como parte do problema.

Obviamente, não cabe aqui a pretensão de resolver esse imbróglio. Mas não fará mal revisar preceitos da sociologia do jornalismo úteis no contexto, em particular quando alimentam as práticas de crítica de mídia.

As agências de checagem ainda precisam provar que não operam, furtivamente, com uma similar seletividade, escolhendo aqui e ali seus alvos, enquanto ignoram ou são condescendentes com outros

Na crítica de mídia especializada, é comum apontar, como compromissos do jornalismo na condição de comunicação pública e democrática, a conformidade com exigências de contextualização, equilíbrio e pluralidade. Esta última pode ser chamada de imparcialidade, palavra de uso tão controverso no Brasil, mas ponto pacífico entre as guias de conduta editorial da BBC, nas quais ela significa apenas o dever ético-profissional de apresentar, com acurácia e equidade, as diversas perspectivas em jogo em determinado fato ou acontecimento.

Embora alguns dos rótulos empregados pelas agências de checagem até possam se relacionar indiretamente às exigências de contextualização, equilíbrio e pluralidade, seu uso não tem sugerido preocupação com um enfrentamento sério de tais requisitos. Talvez porque enfrentá-los poderia colocar em questão o modo como ocorrem os julgamentos sobre o que é ou não notícia e como deve ser noticiado, que estão exatamente no âmbito das práticas editoriais seletivas. Isto é, parece fácil a uma agência verificar se um número está correto ou não, mas é difícil apontar quais números deveriam ser sustentados por perspectivas concorrentes, a fim de compor a pluralidade necessária. Isto exigiria, além de independência editorial, conhecimento nem sempre existente entre os recursos humanos disponíveis. A verificação de fatos não tem entrado nesse domínio, e por isso as agências ainda precisam avançar para serem reconhecidas como parte da solução para a crise de credibilidade do jornalismo e da democracia.

_____________

Danilo Rothberg é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac)
da Unesp.

 

Deixe uma resposta

*