Machismo e seu Impacto na Carreira de Mulheres Cientistas

texto ◘ Vívian Vanessa França

Se a participação feminina já é numericamente igual ou maior na graduação e pós, porque o mesmo não se repete nos cargos de liderança?

Desde os primeiros movimentos femininos – do fim do século XIX e início do século XX – até a atualidade, muitos foram os avanços na promoção dos direitos das mulheres e no estímulo à igualdade de gênero nas diversas áreas intelectuais, como por exemplo nas carreiras científicas.

Um exemplo desse progresso é a proporção entre homens e mulheres ingressantes em cursos de graduação no Brasil: 57% mulheres, contra 43% homens. Ao observarmos a evolução dos percentuais de homens e mulheres ao longo da formação, verifica-se entretanto que o percentual feminino vai diminuindo. Apesar disso, até o doutorado, a participação feminina se mantém superior ou igual ao percentual masculino: na iniciação científica 55% são mulheres, no mestrado 52% e no doutorado 50% [1].

Assim, se nos concentramos nesse período de formação, nos parece que a promoção da participação feminina em carreiras intelectuais já é uma conquista. Mas a realidade é que na maioria das áreas científicas, a carreira só começa de fato após o doutoramento (e frequentemente alguns anos de pós-doutorado). E é justamente a partir desse estágio que observa-se ampla discrepância entre homens e mulheres. Por exemplo, as mulheres representam 47% das lideranças de grupos de pesquisa, 46% dos docentes universitários e apenas 36% dos pesquisadores reconhecidos no meio científico como aqueles de grande produtividade (avaliados pelo CNPq, através do Programa de Bolsas de Produtividade em Pesquisa) [2].

O que mais impressiona é que esta nítida inversão de percentuais de homens e mulheres, à medida que avançam na carreira científica, ocorre inclusive para as áreas cujo ingresso feminino corresponde à quase 80% do total, como ciências da saúde. Note portanto que não estamos nos referindo à maior ou menor preferência das mulheres em uma área ou outra: observa-se que, independentemente da área, as mulheres não atingem as lideranças e excelências entre seus pares tanto quanto os homens o fazem. Existem muitos fatores que podem ser responsabilizados por esta mitigação da mulher nos estágios avançados da carreira científica. Mas acreditamos que o machismo está entre um dos fatores mais determinantes neste caso, como circunstanciamos a seguir.

Preceitos sócio-culturais, conservados e catalisados em nossa cultura, sustentam uma sociedade machista, isto é, que subordina as mulheres a papéis menos relevantes e com dificuldade da própria mulher em conceber suas capacidades e assim se auto-valorizar, afinal mulheres também são machistas. Como discutido recentemente no artigo Mulheres na Ciência: papel da educação sem desigualdade de gênero [3], tais comportamentos machistas são intrínsecos à sociedade e perpetuados de geração em geração, através da educação distinta para meninos e meninas.

Meninas desde muito jovens são educadas para se comportar bem, ter bons modos, cuidar da aparência, cuidar de afazeres domésticos e aprender a cuidar de outras pessoas. Tais ensinamentos são fertilizados com os brinquedos típicos: casinhas em miniaturas, bebês e seus utensílios, kits de maquiagem e beleza. Em grande contraste, comportamentos menos polidos são tolerados em meninos, que por sua vez são educados para ser fortes, corajosos e engenhosos. Assim, recebem estímulos muito diferentes dos oferecidos às meninas: seus brinquedos incluem jogos, desafios e engenhocas, que incitam curiosidade e criatividade.

 

 

Em tempos remotos tal distinção entre homens e mulheres era compreensível: o homem precisava ser corajoso e habilidoso para trazer alimento à família, que ficava aos cuidados da mulher em algum abrigo. Mas nos tempos de hoje não há mais essa diferença. Mulheres trabalham, constroem carreira e compõem a renda da família. Homens cuidam da casa, de afazeres domésticos e dos filhos. Nos parece então que a educação contemporânea deve ser desvinculada do gênero, isto é, meninos e meninas devem ser educados para ter bons modos, ser fortes, corajosos e engenhosos, cuidar da aparência, dos afazeres domésticos e do próximo.

Especificamente no caso das mulheres cientistas, podemos supor que são mulheres que de uma forma ou de outra superaram o machismo ou então não receberam essa educação distinta por gênero, afinal sua criatividade e interesse por ciência foram despertados e seguiram a trajetória científica. Entretanto no momento da maternidade – que na média ocorre aos 32 anos [4] – todo o machismo cultural que fora outrora suplantado pela cientista, brota novamente e a restringe de atingir os mais altos patamares da carreira científica.

Isso porque, uma vez mãe, a mulher consciente ou inconscientemente se sujeita ao machismo que lhe fora impregnado desde a mais tenra infância. Se preocupa em estar em casa, cuidando dos filhos, e quando não o faz se depara muitas vezes com um sentimento de culpa como se não estivesse cumprindo bem o seu papel. Assim, a cientista diminui suas viagens e colaborações, em especial as internacionais, para não se ausentar. Frequentemente é também quem mais assume outras atividades relacionadas aos filhos, como buscar na escola, levar ao médico, etc. De forma complementar, o machismo também aflige o comportamento masculino, que na maioria dos casos se mantém indiferente ao desequilíbrio entre a dedicação feminina e a masculina ao núcleo familiar. O homem machista acredita que já está cumprindo muito bem o seu papel ao sair diariamente para o trabalho.

As consequências desse machismo incluem i) cientistas sobrecarregadas, fazendo absurdos malabarismos com a carreira e a família para se manterem competitivas e não serem engolidas pelo atual sistema de avaliação de produtividade e mérito; ii) cientistas conformadas com uma posição menos relevante na carreira, para se sentirem em paz com seu suposto papel de mulher; ou iii) cientistas que simplesmente optam por não ter filhos para não prejudicar a carreira. Este foi justamente o tema debatido na V Edição do Mulheres na Ciência do IQ-UNESP, realizado em Agosto de 2018 em Araraquara [5].

É claro que existe o impacto real e prático da maternidade na carreira da cientista – como vem demonstrando o belíssimo estudo do grupo Parent in Science [4]. Filhos demandam cuidados exclusivos da mãe, considerando que até os 6 meses de idade recomenda-se amamentação exclusiva e em livre-demanda, mas que deve ser mantida até pelo menos 2 anos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Mas é justamente extirpando o machismo da nossa cultura que será possível conscientizar e sensibilizar a sociedade para conclamar políticas sensíveis a este cenário da maternidade. Políticas que permitam que mães, cientistas ou não, tenham condições de retomar o nível de excelência em suas carreiras após a vinda dos filhos. Como discutido no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência em Maio de 2018 [6], tais ações permitiriam a diversidade em todos os estágios da carreira, enriquecendo de forma geral a Ciência.

Acreditamos que essas medidas são capazes de amenizar o problema enquanto a sociedade não se reinventa menos machista de fato. Quando as nossas crianças forem educadas com igualdade, expostas aos mesmos estímulos e incentivadas à explorar suas potencialidades, sem estabelecer o que é papel de mulher e o que é papel de homem, a sensibilidade ao momento maternidade será natural. Afinal, não são as mulheres que precisam se construir heroínas, a sociedade deve dar o suporte para que homens e mulheres sejam o que desejarem.

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Vívian Vanessa França <vivian.franca@unesp.br>, Física Teórica, professora da Unesp desde 2013, no Instituto de Química de Araraquara. Idealizadora e coordenadora do ciclo de seminários Mulheres na Ciência do IQ-Unesp. Mãe de dois filhos, Júlia de 4 anos e Artur de 1 ano.

[1] Revista Gênero e Número, Edição No 10.

[2] Estatísticas do CNPq.

[3] Mulheres na Ciência: papel da educação sem desigualdade de gênero, A. B. Lazzarini, C. P. Sampaio, V. S. Gonçalves, E. R. Filletti, F. M. V. Pereira, V. V. França, Revista Ciência em Extensão (2018). <http://ojs.unesp.br/index.php/revista_proex/article/download/1717/2019>

[4] Parent in Science: <www.parentinscience.com>.

[5] V Mulheres na Ciência do IQ-UNESP, 20 de Agosto de 2018, Araraquara, SP. Mais informações: <iq.unesp.br/mulheres-na-ciencia>.

[6] I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, 10-11 de Maio de 2018, Porto Alegre, RS. Vídeos disponíveis no Canal do Parent in Science no Youtube.

 

 

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