Embates sem contexto e democracias sem liderança

texto ◘ Heloisa Pait

Impactos da vivência das redes sociais em nossas escolhas eleitorais

Nesse momento de pânico entre os democratas brasileiros, onde as redes sociais parecem dissolver como um ácido as estruturas mais estáveis da política nacional, nós cientistas sociais devemos buscar no nosso repertório conceitual chaves que possam nos ajudar a compreender o momento atual. Nesse breve artigo, vou resgatar a idéia de “círculo social”, de Georg Simmel, e de “audiência”, de Erving Goffman, para iluminar o tipo de relação social que travamos na Internet todos os dias, e que pode estar relacionada a essa catástrofe nacional e também global. Meu objetivo é olhar esse fenômeno complexo, de causas múltiplas – a subida ao poder, por meio de eleições, de candidatos contrários não apenas às regras democráticas mas aos valores mais profundos de suas nações – por um ângulo ainda não muito explorado.

A introdução de novos meios de comunicação apresenta desafios e possibilidades, particularmente duras para as estruturas políticas de uma comunidade. A imprensa questiona o poder estatal, ao mesmo tempo que expande seu alcance dentro do território nacional. A invenção do telégrafo redefine a diplomacia. O toca-discos portátil cria ambientes privados para os jovens do pós-guerra, criando uma cultura autônoma que desemboca nos protestos dos anos 1960. O telefone permite que uma megalópole posse funcionar de modo orgânico. Sabemos tudo isso, mas como exatamente as redes sociais impactaram nossa sociabilidade, nossa forma de nos relacionarmos uns com os outros cotidianamente? Em outras palavras, por que estamos nos batendo no WhatsApp, no Facebook e no Twitter? E quais as consequências dessa nova sociabilidade para a política e a vida social?

Simmel definiu a sociedade moderna como aquela onde somos membros de vários círculos, alguns por iniciativa nossa. Na sociedade tradicional, essencialmente somos membros de um clã, e as poucas diferenciações sociais dizem respeito a estruturas hierárquicas pouco flexíveis ou a grupos etários e de gênero, mas rígidos ainda. Com a urbanização e a divisão do trabalho abrem-se espaços para associações entre as pessoas as mais variadas. Algumas ainda são relativamente rígidas, como a etnia e o gênero, é verdade. Mas o anonimato e a impessoalidade da cidade moderna permitem que ocupemos papéis muito distintos e às vezes até contraditórios na vida cotidiana. Vêm-me à cabeça o filme Belle de jour, de Luis Buñuel, ou a novela O grito, de Jorge Andrade, onde uma mulher e um homem, respectivamente, vivem vidas paralelas em meio ao turbilhão urbano.

 

O melhor algoritmo é, ainda, a escuta, o olho no olho, o confronto verdadeiro, o entendimento e o diálogo. É a partir daí que surgirão lideranças que poderão reerguer nossas democracias tordoadas

 

Nós, habitantes da cidade, somos membros de uma pluralidade enorme de círculos, ainda que não tão picantes como Deneuve e de Falco. Somos clientes de um loja, membros da associação de pais e mestres, funcionários de uma empresa, sócios de um clube, frequentadores de um parque público, público de um programa de TV, membros de uma família, e assim por diante. Alguns desses círculos são bastante rígidos, em outros entramos e saímos quando queremos. Para Simmel, o conjunto dos círculos a que pertencemos é que nos confere a individualidade, pois ninguém pertence aos exatos mesmos círculos que outro, numa sociedade moderna. Cada um de vocês, leitores, pertence a um conjunto de círculos distintos, ainda que muitos desses círculos sejam comuns a vocês, pelo fato de serem falantes de português ou de estarem lendo este texto. Isso confere não só individualidade a vocês, mas também garante a privacidade, pois os membros de cada círculo em que vocês estejam no momento não têm acesso a sua vida no interior dos demais – o seu mundo pessoal.

Reiterando: a vida moderna e essa capacidade de proteger nossa vida pessoal estão indissoluvelmente ligadas. As nossas liberdades conquistadas, especialmente no caso das mulheres, estão ligadas ao fato de que somos capazes de sair pelas ruas sem dar satisfações, nos relacionando com uma pluralidade de pessoas muito além do nosso círculo familiar restrito. A relação entre essas liberdades e a expansão dos meios de comunicação é direta: as mulheres que leem expandem horizontes culturais, os homens que leem podem se conectar a movimentos políticos. Os meios de comunicação, novos e velhos, expandem brutalmente o número de círculos sociais a que podemos pertencer, e daí nossa individualidade e também privacidade.

Goffman parte dessas idéias para examinar como, na prática, as pessoas constroem tais círculos, como definem pertencimentos e como ativamente preservam sua privacidade na vida social. Sua obra mais conhecida tem o eloquente título “A representação do eu na vida cotidiana”. Para Goffman, estamos o tempo todo atentos às situações sociais nos quais nos encontramos, cautelosamente escolhendo modos de vestir, de falar e de agir para que caibamos nessa situação, colocando de lado comportamentos que seriam aceitáveis em outros ambientes. Ou seja, Goffman analisa o esforço do indivíduo em pertencer e não pertencer, sendo sua obra uma espécie de manual prático do indivíduo simmeliano. Usando metáforas teatrais, ele explica a confusão que dá quando duas audiências – dois círculos sociais a que pertencemos – subitamente se encontram, nos obrigando a oferecer uma performance comum. Numa sociedade moderna, esse desafio é raro: apenas quando encontramos, por exemplo, um grupo de amigos na companhia da família, e ficamos sem saber que linguajar usar. No mais, nossas audiências são estanques, limitadas sobretudo espacialmente.

Se os meios de comunicação modernos abriram possibilidades para a emergência da individualidade, entendida como a singularidade pessoal dentro de uma sociedade de massa e anônima, os meios de comunicação digitais minam essa compartimentalização dos círculos sociais da qual dependemos enquanto indivíduos. Nossos familiares, nas redes sociais, sabem de coisas de nossa vida social que antes apenas nossos amigos sabiam. Nós sabemos de posições políticas desses mesmos familiares, com quem anteriormente apenas trocávamos receitas e histórias de família. Não há mais assuntos definidos para cada grupo social ao qual pertencemos. Nossos alunos acompanham nossos maus humores e viagens, quando descuidadamente aceitamos um deles no mar das redes sociais. Prestadores de serviço, que antes nos viam apenas a cada um ou dois meses, de repente acompanham nossas publicações como se fôssemos celebridades. Em cada encontro físico com um conhecido, ficamos em dúvida: o que essa pessoa sabe de mim, sem eu nunca lhe ter contado?

Não temos mais nossos cantinhos secretos, nossos hobbies que ninguém conhece, nossas arenas estritamente pessoais. Perdemos, por livre e espontânea vontade, aqueles momentos do dia em que podíamos nos refazer e nos reafirmar como indivíduos. Perdemos nossa “felicidade clandestina”, como diz Clarice Lispector, nosso puro deleite em estarmos a sós, com um livro desejado e desejado. Perdemos a individualidade? Queria, se pudesse, perguntar para Simmel: “Que acontece se fizermos parte de vários grupos, como na modernidade, mas todos totais, como na sociedade tradicional?”

E mais ainda: não sabemos mais como agir em cada grupo. Usamos termos acadêmicos para falar com os familiares, e tratamos amigos com a rispidez com que deveríamos devotar apenas a estranhos. Uma certa quebra de protocolos nos pareceu, no começo da década, positiva, pois os homens públicos estavam lá acessíveis, pela primeira vez, às nossas demandas. Mas o resultado geral é que foram embora as dicas que o lugar do encontro e a aparência de nossos interlocutores davam para que nós construíssemos nossas falas, criando toda a sorte de mal entendidos. Como nos relacionarmos sem as regras da sociabilidade? Como falar com professores graduados do modo como nos dirigimos ao motorista que nos cortou no trânsito? A Goffman eu gostaria de perguntar: “Como interagir quando não temos a menor idéia do setting onde nossa atuação se dá?”

 

 

Finalmente, sem ter nosso backstage, com o setting indeterminado, ainda podemos sumir simplesmente de qualquer situação social. Os conflitos começados pela irritação natural de estarmos sem o respiro da privacidade ou pela insegurança quanto aos contextos da interação simplesmente são interrompidos sem mais nem porquê. Numa discussão face a face, há todo um ritual, uma narrativa: os argumentos, o acirramento da discussão, as ofensas, as ponderações, as desculpas, o fim da briga. Ou, na pior das hipóteses, o rompimento. Nas redes sociais, não chegamos a brigar: abandonamos aquela discussão antes de um verdadeiro enfrentamento e de buscar compromissos. Pulamos de um conflito inconsequente a outro, sem de fato buscar resolver nossas diferenças, como o faríamos numa situação com objetivos determinados.

E como isso tudo se manifesta politicamente? Vejam as falas dos candidatos que conhecemos mais, desta leva antidemocrática, como o atual ocupante da Casa Branca e o recém eleito presidente do Brasil. Elas não se assemelham ao discurso de um apresentador de TV, buscando falar para multidões, com um discurso compreensível a todos, que abarque o público. São muito distintos dos “painhos” das novelas brasileiras, na casa de quem cabia todo mundo, ou das figuras carismáticas dos seriados americanos dos anos 1960 e 1970. Ao contrário, essas falas se parecem com nossos comentários aleatórios nas redes sociais, quando respondemos num post com uma ironia dirigida a um outro post. Notem como suas falas entrecortadas, desconexas, inapropriadas e fora de contexto parecem-se com nossos embates fúteis nas redes sociais, jogando uma raiva de uma conversa interrompida em outra que mal começou.

Esses novos desafios de convivência poderiam ser tratados por arquitetos digitais, por educadores e pela prática cívica, criando toda uma nova etiqueta comunicativa. Mas como agir conjuntamente em torno desse objetivo se estamos virando do avesso o próprio espaço de discussão, tratando de questões públicas, que exigem razão, no espaço vulnerável da intimidade? Hannah Arendt apresentou esse argumento meio século atrás e hoje parece dolorosamente apropriado. E Jack Snyder apontou, mais recentemente, para os riscos da informação monopolista em promover o totalitarismo, examinando o papel dos jornais afiliados a publicações nazistas no interior da Alemanha e do rádio incitador no genocídio de Ruanda. Para ambos, de modo muito simplificado, é preciso que as idéias circulem numa esfera pública – ou num mercado de idéias – onde elas possam ser contrastadas umas com as outras diante de todos. A defesa da liberdade de expressão numa arena pública deve ser ampla, pois aí as idéias se contrabalançam, isolando os extremos. Mas a ruptura dos espaços privados enquanto tais – do backstage de Goffman e da esfera privada para Arendt – nos torna vulneráveis na intimidade e impotentes na esfera pública.

Claro que as situações políticas, sociais, culturais têm enorme impacto nas escolhas que fizemos aqui no Brasil e lá nos Estados Unidos. Além disso, as questões comunicativas em si têm também sua importância, como as fake news e as bolhas de opinião. Nesse texto, entretanto, tratei de um outro fenômeno, que é a modalidade comunicativa que a sociabilidade digital nos propõe, e o modo como ela se expressa na escolha de nossos líderes. Espelhamo-nos em alguém que late, pois nós também estamos latindo uns para os outros, sem nunca chegar a um conflito, pois conflitos podem ter solução, mas meros latidos, não. Reconhecemo-nos nesses indivíduos no mais desqualificados e, de modo surpreendente, estamos dando a eles carta branca para determinar nossos destinos. Que fazer, então?

De minha parte, decidi oferecer um curso este ano sobre a conversa, que pode ser acessado em minha página <www.marilia.unesp.br/helopait>. Precisamos retomar a conversa, mesmo no interior das redes sociais. Enquanto estivermos nos sentindo isolados, vamos continuar delegando a falsos bravos nossa vontade de brigar. O melhor algoritmo até hoje é, ainda, a escuta, o olho no olho, o confronto verdadeiro, o entendimento e o diálogo. É a partir daí que surgirão lideranças que poderão resistir aos novos tempos e reerguer nossas democracias atordoadas.

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Heloisa Pait é professora de Sociologia na Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), Câmpus da Unesp de Marília.

 

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