A inovação empresarial no Brasil: A expectativa e a realidade

texto ◘ David Ferreira Lopes Santos

Inovar não é uma ação trivial e não ocorre apenas pelo discurso

As transformações econômicas e sociais contemporâneas foram condicionadas, entre outros motivos, pelo desenvolvimento institucional e tecnológico dos países, com reflexos nas diferentes formas de inovação. As alterações provocadas pelas inovações na sociedade têm como característica atual um ritmo mais acelerado do que no passado, por isso a “mudança é cada vez mais constante”.

No meio empresarial, o acompanhamento e a adequação às transformações é uma prerrogativa à sustentabilidade das empresas e das cadeias produtivas, tendo em vista que as mudanças científicas e tecnológicas alteram as estruturas de oferta com novos e/ou melhores produtos e processos e as culturais e sociais redimensionam o perfil e as características do mercado consumidor.

Assim, novas qualificações ao termo inovação (tecnológica, mercadológica, administrativa, financeira, ambiental, social, entre outras) são incorporadas e ampliam a importância e o alcance da inovação em todos os estratos sociais e segmentos empresariais, tornando-os mais competitivos e dinâmicos.
A percepção representada em expressões conhecidas como as “mudanças são mais frequentes”, “o passado não é como era antes” ou “o futuro é cada vez mais incerto” pode ser verificada, por exemplo, na quantidade histórica de patentes depositadas no mundo.

O Gráfico 1 traz o quantitativo acumulado de patentes, desde 1884, considerando os dez principais escritórios responsáveis pelo registro no mundo.
Sabe-se que o processo de inovação não está associado, tão somente, à solicitação e/ou depósito de patentes, porém em razão da melhor qualidade dos registros históricos, torna-se um indicador ilustrativo e proxy do aumento das inovações na sociedade.

 

 

Observa-se que o crescimento marginal do acumulado de patentes, a partir da década de 1980, é superior ao dos 100 anos anteriores. Nos últimos 10 anos da série a taxa de crescimento médio dos depósitos de patentes foi próxima a 4,46% a.a. (WIPO, 2014). Nessa taxa, o estoque de patentes mundiais dobra a cada 17 anos; por outro modo, pode-se inferir que em menos de 20 anos praticamente tudo o que se conhece em produtos é substituído ou modificado!

Na dimensão econômica, Schumpeter (1927) foi o autor que melhor compreendeu, inicialmente, a importância da inovação no sistema capitalista e trouxe para o interior das empresas o ambiente mais propício para o seu fomento, especialmente pelo importante papel do empreendedor, contrapondo-se ao pensamento ortodoxo.

Países e empresas tornaram o crescimento científico, tecnológico e inovador um vetor de suas estratégias com vistas ao seu desenvolvimento. No entanto, fazer ciência, tecnologia e inovação não são ações “simples”, tampouco céleres ou previsíveis; e ainda, quase sempre, exige dispêndios elevados de recursos financeiros.

A literatura especializada reconhece que ciência, tecnologia e inovação são elos da mesma corrente, cujo processo é recursivo e dinâmico entre eles, de modo que dificilmente seria suportado pela atuação isolada dos agentes econômicos (Grupp, 1998). Portanto, as empresas que reconhecem a importância da inovação para os seus negócios devem ter uma estrutura interna (formal ou informal) alinhada à sua estratégia e com processos gerenciais orientados a resultados.

De outro modo, as empresas precisam empreender dentro da sua estrutura uma capacidade inovadora, por meio de um sistema de gestão de recursos internos e externos que se estendam desde a concepção técnico-científica de novos produtos ou processos à introdução destes no mercado ou à gestão de mudanças no seu interior, enquanto inovações de processos ou inovações organizacionais.

Gerenciar a capacidade de inovar de uma empresa é um desafio, pois os recursos de inovação são conhecidos na literatura pela sua complexidade e característica evolucionária, isto é, o processo que envolve pesquisa, desenvolvimento e inovação percorre caminhos que combinam seleção, acumulação de experiência e aperfeiçoamento de conhecimento.

Nesse sentido, o tempo também é uma variável importante para que a gestão da capacidade de inovar expresse ou, ao menos, comece a demonstrar o seu potencial, com o desenvolvimento de novos produtos e processos, e para que estes contribuam para a competitividade das empresas. Portanto, o tempo e a gestão são duas das principais variáveis para potencializar os resultados dos investimentos em inovação.

O caso da indústria brasileira ilustra essa realidade, pois, apesar de os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D,I) crescerem mais de 130% neste século (2000-2014), a competitividade da indústria nacional, sob diferentes rankings, mantém-se estagnada e distante do potencial econômico do país. O Gráfico 2 apresenta a evolução estratificada dos principais investimentos em inovação na indústria brasileira.

 

 

Nota-se no Gráfico 2 que há uma tendência de crescimento dos investimentos em inovação dos setores industriais brasileiros, bem como uma alteração no perfil desses investimentos, pois no início da série praticamente 50% dos desembolsos em inovação, em verdade, representavam gastos com a aquisição de novas máquinas e equipamentos, sendo que esse tipo de investimento está mais associado à modernização ou à atualização dos recursos internos, ainda que possam representar, também, ativos fixos destinados às inovações. Com o curso do tempo, os gastos mais relacionados à inovação (P&D interno, P&D externo e aquisição de conhecimentos externos) assumem maior preponderância.

Ressalte-se que os declínios observados nos triênios de 2006/2008 e 2012/2014 tendem a refletir os efeitos das crises econômicas externas e internas do país que reduziram linhas de financiamento e comprimiram a capacidade de geração de caixa das empresas e seu potencial de investimento.

Tem-se a expectativa de aumento da competitividade da indústria nacional no médio e longo prazo com o crescimento dos investimentos em inovação e uma maior representatividade dos dispêndios em P&D nos gastos dedicados à capacidade de inovar. Todavia, a realização de investimentos em P&D pressupõe a expansão em quantidade e qualidade de recursos humanos capazes de (intra)empreender novos produtos e processos. O Gráfico 3 apresenta a participação de pós-graduados (mestres e doutores) dedicados ao P&D nas empresas.

 

 

Verifica-se que a participação de profissionais com formação em pesquisa atuando em atividades de P&D nas empresas industriais brasileiras é pouco expressiva. Segundo a última Pesquisa de Inovação Tecnológica para o Brasil (Pintec) realizada pelo IBGE entre 2012/2014, para cada 1.000 trabalhadores na indústria brasileira, pouco mais de 1 profissional possui pós-graduação com atuação em P&D. Esses resultados concordam com outros indicativos que demonstram a baixa inserção dos egressos da pós-graduação brasileira no mercado de trabalho não acadêmico, como o levantamento demográfico realizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, em que menos de 1% dos formados na pós-graduação do Brasil atuam com vínculo empregatício em empresas no país.

A fraca inserção no mercado empresarial de profissionais com formação em pesquisa tem sido alvo de discussão acadêmica, empresarial e de políticas públicas sob diferentes perspectivas. De modo restrito às empresas, observa-se que a inovação ainda não está inserida nas estratégias e na própria estrutura produtiva do setor industrial brasileiro, haja vista que, na última pesquisa da Pintec/IBGE, entre as 128.699 empresas pesquisadas, apenas 7.447 reportaram investimentos realizados em P&D interno, ou seja, menos 6% da indústria brasileira possui atividade formal de pesquisa e desenvolvimento.

Esse contexto retrata a necessidade de compreender a importância dos investimentos em inovação associada a uma estrutura interna das empresas capaz de integrar as diferentes fontes de inovação e o capital humano através de um sistema de gestão da inovação.

Os gastos com recursos dedicados à inovação são expressivos para aquelas empresas que investem, por isso deve-se ter um sistema de gestão da inovação integrado ao modelo de negócio da empresa, orientado ao uso eficiente dos recursos e resultados, tendo como premissa o processo acumulativo da capacidade de inovar das empresas.

Não há dúvidas quanto à importância da inovação para o desenvolvimento econômico de países e regiões e para a competitividade empresarial; porém, resultados de inovação não são alcançados simplesmente com dispêndio de recursos, ações isoladas e não continuadas e com a ausência de um modelo de longo prazo.

Por isso, inovar não é uma ação trivial e não ocorre pelo discurso; deve-se ter orçamento estável para inovação como forma de garantir os investimentos necessários à evolução da capacidade de inovar estruturada sob um sistema de gestão da inovação que congregue de forma sinérgica o capital humano.

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