“Nós não sabemos, hoje, no Brasil, até onde irá o sertão”

entrevista a ◘ Diego Moura

Luiz Roncari joga luz sobre aspectos da obra de Guimarães Rosa que não receberam atenção da crítica

Lutas e auroras
Os avessos do Grande sertão: veredas
Luiz Roncari,
Editora Unesp,
170 páginas, R$54.

Após mais de 30 anos de estudos em torno de Guimarães Rosa, Luiz Roncari, professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, publica o quarto livro sobre o escritor. Lançado pela Editora Unesp Luta e auroras – os avessos de Grande sertão: veredas… apresenta uma nova perspectiva de análise do livro do escritor mineiro, trabalhando em aspectos ainda não explorados por outros críticos da obra, como a tensão representada por um Brasil dividido entre a cultura da cidade e a tradição violenta do sertão. Nesta entrevista, Roncari descreve sua trajetória estudando a obra de Guimarães Rosa e a analisa à luz dos acontecimentos recentes no país.

unespciência Professor, conte para nós um pouco dos seus estudos sobre a obra de João Guimarães Rosa.
Luiz Roncari Em 1987, antes ainda de defender o doutorado, prestei concurso na USP para a cadeira de Literatura Brasileira. Para começar a lecionar, era uma exigência da faculdade o ensino, a pesquisa e a extensão, por isso tive que apresentar um projeto de pesquisa. Como já estava interessado na obra de João Guimarães Rosa, sobretudo no seu primeiro livro, Sagarana, fiz um projeto sobre ele. Até esse momento, tinha me dedicado mais ao estudo de Machado de Assis, sobre quem fiz o meu mestrado. No novo projeto, eu previa escrever quatro livros – veja a pretensão! – sobre um autor difícil, complicado, mas mesmo assim sobre quem muito se publicava, a sua bibliografia crítica é enorme. Fiz isso há mais de 30 anos e o livro que publico agora é o quarto, estou pagando o que prometi.

uc O Luta e auroras – os avessos de Grande sertão: veredas…
Roncari Isso. Em 1988, defendi o doutoramento e comecei a pensar na livre docência. O resultado dela foi o primeiro livro, O Brasil de Rosa: o amor e o poder, publicado em 2004. Junto ou paralelo a ele, escrevi o Literatura brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos, publicado pela Edusp, em 2002, na sua versão definitiva.

uc Esses quatro livros sobre Guimarães Rosa fecham um ciclo então?
Roncari Sim, eles completam o projeto de 1987. O primeiro livro foi O Brasil de Rosa, como disse acima, publicado em 2004; ele teve uma primeira reimpressão em 2007 e outra agora, em 2018. Nesse meio tempo, eu tinha escrito uma série de ensaios sobre Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e o próprio Guimarães Rosa – um longo ensaio sobre a novela Dão-Lalalão/Lão Dalalão, uma das de Corpo de baile. Então eu os reuni e publiquei com o título de O cão do sertão, também pela Editora Unesp, em 2007. Eu continuei estudando Corpo de baile, achava que tinha que tirá-lo da frente primeiro para poder me concentrar no Grande sertão, e escrevi o livro Buriti do Brasil e da Grécia: patriarcalismo e dionisismo no sertão de Guimarães Rosa, sobre a novela Buriti, a última do livro, e o publiquei pela Editora 34. Já na Introdução ao Brasil de Rosa eu previa um segundo volume, que é este que conclui agora, o Lutas e auroras.

uc Então Lutas e auroras é uma espécie de continuação de O Brasil de Rosa?
Roncari Sim, mas ao mesmo tempo, é também um livro autônomo sobre o romance de Guimarães Rosa, todo ele concentrado numa leitura muito própria do Grande sertão: veredas. Para os que já leram o romance, seria uma ótima oportunidade de repensá-lo, creio que seria como se olhássem uma outra face da Lua, a oculta.

uc E como ele se conecta ao primeiro livro?
Roncari É que o próprio Grande sertão pode ser dividido em duas partes. Uma primeira, a inicial, é uma narrativa que reúne os episódios que falam da formação do herói. Ela conta o encontro de Riobaldo com o Menino, Diadorim, e a travessia de ambos do Rio São Francisco. Esse episódio foi importante para ele como tomada de consciência do outro e de si, das suas diferenças e desiguldades. Ele se encontra com um menino que em tudo era diferente dele e, ao mesmo tempo, era tudo o que ele gostaria de ser, sem saber que era uma menina travestida de menino. O pai, Joca Ramiro, criou Diadorim, possivelmente, fato só aventado, como alguém que pudesse vingá-lo um dia em caso de sua morte à traição, que era uma das regras do sertão. Então, embora fosse uma menina, ele a criou como um menino valente. Outro episódio é quando a mãe morre e ele vai para a fazenda do padrinho, a São Gregório. É aí que ele aprende as primeiras letras, do amor e dos livros, assim como onde vê pela primeira vez Joca Ramiro e o Hermógenes, e ouve também a canção de Siruiz. Enfim, a primeira parte narra uma série de episódios que falam da formação dele ainda menino, além das batalhas que lhe permitem saber muito de si e dos homens. O que ele aprende por etapas é a necessidade de superar a si mesmo, a sua origem humilde e a falta do pai, o que ensina o poder do mando e da autoridade. O que era (ou é?) norma no Brasil, alguns nascem apenas para mandar e outros só para obedecer. Para isso ele teria que deixar de ser o que era para ser igual aos seus outros, como Zé Bebelo e Diadorim, e negar a si mesmo. Até o tribunal do julgamento de Zé Bebelo ele está sempre procurando um modelo a quem imitar, ele que cresceu sem pai e, portanto, sem um modelo paterno. O que parece encontrar durante o julgamento na figura de Titão Passos, um chefe jagunço aliado de Joca Ramiro, que reunia em si a tradição do sertão com o moderno urbano, ele que já havia sido jurado na cidade da Januária.

uc O senhor faz a distinção entre uma primeira parte branca e outra negra do romance, assim como uma camada mais aparente e outra menos visível, subterrânea, que chamou de “os avessos”.
Roncari Isso, a parte clara, branca, é a que fala do processo de formação e autoconsciência do herói, que chega até o julgamento de Zé Bebelo, que é quando Joca Ramiro tenta plantar no sertão uma instituição que o negava e era própria da cidade. O sertão é o lugar de homens bravos, da lei do mais forte e astuto, em que se mata à traição e se busca a vingança, enquanto que o julgamento, o tribunal, é uma instituição da cidade, urbana, onde predominam os costumes civis, não agressivos. Lá os problemas são resolvidos não pelas vias de fato, mas sim pela solução civil, em que um juiz é capaz de avaliar uma falta e dar a sentença justa ao crime cometido, nem mais nem menos. Então ele marca o momento alto do livro, quando a busca da justiça no sertão supera a busca da vingança.

uc E a parte negra?
Roncari Bom, acontece que Joca Ramiro é morto à traição depois do julgamento pelos homens do Hermógenes. É aí que o romance deixa de ser o da busca da justiça, como tinha sido até a instituição do Tribunal, e passa a ser o da procura da vingança. Com isso o sertão volta a ser o que era antes do Tribunal. Então começa a parte negra, porque o que a domina são todas as batalhas atrás da vingança, uma sequência de lutas, mortes e perdas. O sertão volta a ser sertão, todos estão mais ou menos em guerra contra todos, o bando jagunço leal a Joca Ramiro sob o comando de Zé Bebelo contra o bando do Hermógenes e Ricardão, e todos lutando contra os soldados do governo e perseguidos ou aliados a eles. Aí o romance desanda inteiro, na forma e no conteúdo, porque substitui a ordem da simultaneidade da primeira parte, pela forma sequencial da épica na segunda, até chegar às lutas de mortes, punição dos traidores, mas também da morte de Diadorim, o amor e demônio interno do herói. A narrativa alterna também, na sequência dos acontecimentos, as reflexões do herói, por isso ele é chamado de um “guerreiro penseroso”, entre uma luta e outra a narrativa é entremeada por reflexões elevadas sobre Deus, a vida, o sentido, o mal no mundo e entre os homens.

uc O senhor também faz uma distinção no título aos avessos e auroras.
Roncari Auroras porque, entre os episódios de lutas, mortes e perdas, há também momentos de iluminação e de transcendência. Já em relação aos avessos, como tudo, o romance tem uma parte mais superficial, mais visível e uma parte subterrânea, menos aparente, que interessou também menos à crítica, talvez por ser mais prosaica. Então, em vez de eu falar sobre as partes mais chamativas, procurei as mais ocultas. É o mesmo processo de avaliação de uma roupa: para se comprá-la, não se deve olhar apenas as partes direitas, as frentes, mas também os seus avessos, é por ali que se pode ver a qualidade das costuras e cerzidos.

uc E como se chega a esses avessos?
Roncari É dando importância àquilo a que a crítica não deu muita atenção. Por exemplo, na Fazenda dos Tucanos, o foco do leitor vai mais para as batalhas, as lutas de mortes, como a matança dos cavalos; mas não se deu tanta importância para o embate dramático entre o herói e Zé Bebelo. E eu me concentrei nele, porque é nesse entrevero que o herói toma consciência de que ele terá um dia que ser o chefe, e para isso precisará se superar e aprender a mandar. É o que faz a narrativa avançar e se configurar, mais do que os episódios emocionantes.

uc E como se dá essa tomada de consciência?
Roncari No embate entre um e outro, o herói percebe que depende do chefe, da astúcia de Zé Bebelo para fugirem ao cerco em que caíram na Fazenda dos Tucanos. Mas também de que o chefe depende dele, pela boa pontaria, pelo que era como jagunço e a sua força. Aí é quando o herói se impõe e faz o chefe sentir que a dependência era mútua, e chega à consciência de que terá que deixar de ser o segundo para ser um dia o primeiro.

uc Em que outros episódios se processa esse subterrâneo da narrativa?
Roncari Um outro episódio muito estudado do livro é o da busca do pacto com o demônio pelo herói, o que nós nunca ficamos sabendo se houve ou não. Acontece que esse episódio é emoldurado por dois encontros de Riobaldo com seu Abrão/Habão, um grande fazendeiro. E foi nesses encontros que ele firmou uma aliança com ele, que representa o novo poder no sertão, o do grande proprietário só preocupado com o ganho econômico, especializado nele, e por isso interessado no poder militar do outro para a sua garantia. Ele é um sujeito só voltado para a economia, a acumulação. No segundo encontro, depois do pacto que não sabemos se houve ou não, seu Habão presenteia o herói com o seu cavalo, a quem Riobaldo dá o nome de Siruiz. Porém isso o torna num seu devedor, que poderá um dia ser cobrado. Ou seja: Riobaldo já está praticamente chefe e vira devedor do poder econômico, ele percebe isso e fica desconfiado, acha que aquele sujeito esperto transformaria a todos em seus escravos, como assalariados. A crítica se deteve muito no estudo do pacto, porque ele chama para o místico, o mágico, o contato com o transcendente e é um tema tradicional da literatura, o pacto com o demônio. Porém, pouco parou para analisar os encontros com um homem só comercial, preocupado com coisas comezinhas, como o dinheiro, o dia a dia prosaico dos homens, mas a base concreta de sua vida. Isso que eu chamo de avessos.

uc Hoje, à luz dos acontecimentos no país, que lugar ocupa a obra de João Guimarães Rosa?
Roncari Uma posição alta e de ponta. A obra dele está no mesmo patamar da dos grandes autores nacionais, como a de Gonçalves Dias, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Carlos Drummond, Clarice Lispector e outras. Pelas suas grandezas, elas têm muito ainda a serem estudadas e exploradas, apesar de já terem uma bibliografia crítica imensa. No caso de Guimarães, como outros grandes autores, ele não é só um importante escritor de literatura, mas também um grande pensador do Brasil. E esse aspecto tem que ser bem levado em conta no seu estudo.

uc E o Grande sertão: veredas é um livro difícil, com muita coisa a ser decifrada, não?
Roncari Sim. Eu o li ainda novo e entendi muito pouco, porém esse pouco foi o bastante para me despertar a curiosidade e inquietar. Só depois de ter esmiuçado e estudado bem Sagarana e Corpo de baile, o que me revelou muitos dos seus processos criativos, nos vários aspectos, linguísticos, sociológicos, filosóficos, é que passei a entendê-lo melhor. E procurei fazer também uma leitura do que Guimarães Rosa poderia ter lido no seu tempo sobre o Brasil e a literatura, porque ele tinha pretensões muito elevadas não só da literatura brasileira, mas da clássica. Ele lia muito os gregos, os latinos e os modernos, geralmente no original, nas línguas respectivas, que ele também sabia muitas. Além disso, ele era diplomata, lia e sabia muito sobre o Brasil, e um debate muito importante, no tempo em que escreveu, entre os homens inteligentes do país, que nesse tempo não pensavam ainda em se mudar para Miami ou Paris, era se o Brasil iria dar sertão ou civilização. Sertão é o que nós vivemos um pouco hoje: as instituições frágeis, com baixa credibilidade, instáveis e suspeitas. O Brasil é ciclotímico, oscila muito entre o alto e o baixo, parece que estamos agora na baixa. E nós não sabemos até onde aqui tudo poderá virar sertão.

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Foto: Luiz Roncari é professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

 

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