Como alimentar 9,6 bilhões de pessoas em 2050?

texto ◘ Milton Lima Neto

Estudos sobre resiliência das plantas alimentícias não convencionais (PANCS) pode nos dar pistas de como atender a demanda por alimentos em um cenário de mudanças climáticas

Atualmente, vivemos um cenário deveras preocupante. Dados do World Resources Institute, estimam que no ano de 2050 o planeta abrigará 9,6 bilhões de pessoas, com projeções de 10 bilhões de pessoas no ano de 2100. Dessa forma, precisamos urgentemente preencher uma lacuna de aproximadamente 70% entre a quantidade de comida disponível atualmente e o que será requerido em 2050 para alimentar toda a população. Com esse crescimento populacional, que se dará principalmente em países em desenvolvimento, ocorrerá um aumento do consumo e da demanda por água potável, fontes de energia sustentáveis e alimentos.

Todo essa problemática se torna ainda mais preocupante quando levamos em consideração o atual cenário de mudanças climáticas. Estudos independentes, realizados por diversas instituições de pesquisa do mundo, mostram que a temperatura global tem aumentado desde a revolução industrial. Tomando a África do Sul como exemplo, um estudo desenvolvido pelo German Federal Ministry for the Environment, Nature Conservation and Nuclear Safety, estima um aquecimento de 5 a 8oC até 2050 no interior do País. Com esse cenário, os oceanos se tornam mais quentes, o que acarretará em uma maior frequência de tempestades e alagamentos, bem como períodos de seca mais longos e intensos. Áreas hoje semiáridas sofrerão processos de desertificação, tornando esses ambientes inviáveis para o cultivo de plantas.

 

 

Neste contexto, é interessante levarmos em consideração que atualmente 2/3 das calorias ingeridas no mundo veem apenas de três culturas: arroz, trigo e milho. Em um estudo desenvolvido pela professora Alice Bows-Larkin, da University of Manchester, no Reino Unido, foi demonstrado que um aumento de 4oC na temperatura do planeta levará a uma queda de 40% na produtividade de trigo e milho e de 30% na produtividade de arroz. Dessa forma, como conseguiremos aumentar a produtividade em 70% para suprir a demanda de 9,6 bilhões de pessoas em 2050, se com atual cenário de aquecimento global são estimadas quedas preocupantes em nossa produção agrícola? Esse problema mundial já faz parte da agenda de desenvolvimento em diversos países e diversas frentes de estudo estão buscando respostas.

Na Unesp, um grupo de estudo que compõe o Laboratório de Metabolismo de Plantas do Instituto de Biociências do Campus do Litoral Paulista tem como objetivo principal o estudo da fotossíntese e dos mecanismos fotoprotetores em plantas, frente a diversos fatores abióticos como altas temperaturas, seca e salinidade.

 

Essas plantas são cultivadas em escala doméstica e são alternativa para uso alimentício em diversas comunidades pelo mundo. No entanto, poucos estudos foram realizados com essas espécies.

 

Coordenado pelo professor Milton Lima Neto, o grupo busca entender como plantas “rústicas” conseguem produzir e crescer em ambientes onde outras espécies não têm sucesso. Quais mecanismos fisiológicos são empregados por essas espécies para lidar e continuar produzindo em ambientes com esses fatores estressantes ocorrendo mutualmente? E como esses mecanismos podem ser aproveitados em nossas culturas de maior interesse econômico?

Atualmente, o grupo do Laboratório de Metabolismo de Plantas está realizando um projeto em parceria com a universidade de Kwazulu-Natal, sediada em Durban na África do Sul, onde busca-se entender como diferentes espécies de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) contornam o problema da alta temperatura e continuam produzindo.

As PANCs, são espécies rústicas, tolerantes à diversas condições de estresse, que crescem e se espalham em áreas livres sem a necessidade de manejo ou cultivo. Essas plantas costumam ser cultivadas em escala doméstica e são uma alternativa para uso alimentício em diversas comunidades espalhadas pelo mundo. No entanto, poucos estudos foram realizados com essas espécies, o que compromete sua utilização e o incentivo de seu aproveitamento.

 

 

Nesse trabalho em colaboração, nós utilizamos como modelo de estudo algumas espécies que são utilizadas como PANCs na África do Sul, como a Amaranthus dubius, conhecida popularmente como caruru ou bredo, e a Galinsoga parviflora, conhecida como picão branco ou botão de ouro. A pesquisa conta com auxílios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unesp e do The National Research Foundation (NFR), agência federal sul-africana de fomento à pesquisa.

O objetivo é entender como essas plantas conseguem se manter produtivas em ambientes que possuem, durante grande parte do ano, condições de alta irradiância solar, seca e altas temperaturas. Quais mecanismos são empregados por essas espécies? Como elas se protegem dessas condições ambientais tão hostis? A partir desse entendimento, nós poderemos aumentar a produtividade de nossas espécies cultiváveis, sem a necessidade do aumento da área plantada. Além disso, é importante buscarmos alternativas alimentares. Com o incentivo e conhecimento sobre a fisiologia e biologia das PANCs, essas espécies podem ocupar uma lacuna importante na produção de alimentos que tanto nos preocupa no atual cenário de mudanças climáticas globais.

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Milton Lima Neto, professor do Instituto de Biociências do câmpus do Litoral Paulista.

 

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