Equipe da Unesp obtém conquista histórica para o Brasil nos EUA

texto ◘ Fábio Mazzitelli

Alunos da FCF e do IQ alcançam o melhor desempenho de uma universidade brasileira no iGEM

O time da Unesp composto por 17 estudantes de graduação de duas unidades do câmpus de Araraquara, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas e o Instituto de Química, obteve a melhor performance de uma universidade brasileira na história do iGEM (Competição Internacional de Máquinas Geneticamente Modificadas), a mais importante competição universitária de biotecnologia do mundo.

Sediada em Boston, nos Estados Unidos, a fase final da competição foi realizada de 24 a 28 de outubro e a participação da equipe da Unesp se encerrou com a medalha de ouro, em razão do cumprimento de metas gerais estabelecidas pela organização do iGEM, a conquista do prêmio especial de melhor hardware, superando as outras 316 equipes participantes, e mais duas indicações aos prêmios especiais de melhor coleção de partes biológicas e melhor projeto educacional e de engajamento público.

 

Alguns integrantes, em Boston.

 

Participaram da edição de 2018 do iGEM 317 times das principais universidades do mundo, muitas das quais líderes no ensino de biotecnologia, como o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), as universidades de Boston e de Stanford e as universidades europeias de Munique (Alemanha) e de Zurique (Suíça). Do Brasil, a Universidade de São Paulo também participou e foi premiada – a USP levou um prêmio especial, mas ficou com uma medalha de prata no geral.
O desempenho histórico da Unesp ocorre apenas na segunda participação da Universidade nesta competição. A primeira ocorreu em 2017, quando o time unespiano também conquistara a medalha de ouro. Até a edição deste ano nenhuma equipe brasileira havia ganho prêmio especial.

“Esse resultado tem ainda mais relevância para nós porque todas essas grandes universidades que geralmente levam os prêmios especiais têm uma estrutura gigantesca ao redor da competição e a participação delas já é institucionalizada como uma disciplina dentro do curso”, pontua a professora Danielle Biscaro Pedrolli, coordenadora da equipe iGEM na Unesp ao lado professor Marcel Otavio Cerri.

Biorreator
O troféu pela premiação especial foi conferido ao trabalho de desenvolvimento e construção de um biorreator de proporções semelhantes às do intestino humano. Trata-se de um recipiente usado para se cultivar bactérias intestinais e assim simular o comportamento das bactérias terapêuticas neste ambiente.
A equipe desenvolveu um sistema de produção controlada de biofármacos por bactérias probióticas, conhecidas por causarem benefícios ao organismo. Também foi construído um mecanismo para transporte do biofármaco através do epitélio intestinal.

O biorreator, usado para testar in vitro os probióticos geneticamente modificados, simula uma porção do intestino, tendo como dimensões 25cm de comprimento por 6cm de diâmetro e foi construído com mangueiras daquelas de regar jardim residencial e peças de plástico produzidas por meio de impressora 3D.
“Fizemos um projeto aberto com materiais acessíveis, que podem ser reproduzidos facilmente”, conta Danielle.

O projeto de construir um biorreator que simula o crescimento de bactérias probióticas geneticamente modificadas no intestino humano também carrega consigo a ideia de se reduzir o número de testes feitos com animais no desenvolvimento de um medicamento.
Reproduzidos no ambiente do biorreator, esses microrganismos fazem a produção e a entrega (delivery) dos biofármacos para tratar a doença diretamente no intestino da pessoa.

A realização desta simulação prévia pode eliminar algumas possibilidades durante o processo de desenvolvimento da terapia viva, descartando cenários que não funcionam e levando o mínimo possível de testes para o modelo animal.

“É realmente uma possibilidade de, pelo menos, reduzir os testes feitos em animais”, diz a professora.

O biorreator é um subprojeto integrante do projeto Hope, de desenvolvimento de uma plataforma microbiana para terapia viva, com objetivo de tratar desordens metabólicas humanas. As informações do projeto inscrito pelo time da Unesp no iGEM 2018 estão detalhadas no site desenvolvido para a competição, que seguirá em funcionamento: <http://2018.igem.org/Team:Unesp_Brazil>. A equipe também mantém uma página no Facebook em que detalha a experiência: <facebook.com/igem.unespbrazil/>.

“O nosso projeto só tinha alunos de graduação e concorreu com times que tinham integrantes da pós-graduação. Conseguimos mostrar a importância do nosso trabalho e isso acabou virando trabalho de iniciação científica deles. Pelo grande volume de resultados, a ideia é que os dados sejam publicados em um artigo no ano que vem”, afirma a professora Danielle Pedrolli.

Interação com comunidade externa
O iGEM é uma competição criada no MIT no início dos anos 2000 e, após tomar proporções globais depois de alguns anos, passou a ser organizada por uma fundação própria, reunindo um número cada vez maior de universidades participantes. Por ser fundamentada nos princípios da biologia sintética, a competição apresenta aos participantes o desafio de desenvolver um projeto inovador e interdisciplinar, integrando conhecimentos de biotecnologia, engenharias, farmácia, química e matemática.

O desafio inclui ainda o envolvimento da comunidade externa à universidade, o que foi feito em Araraquara na escola pública do Assentamento Bela Vista, localizado na cidade.O time da Unesp desenvolveu na escola, durante dois meses, o projeto “Mulheres na Ciência”, dentro do qual os alunos do 9º ano do ensino fundamental puderam descobrir juntos as contribuições científicas e tecnológicas das mulheres ao longo da história. Tudo com material didático, e lúdico, desenvolvido pela própria equipe unespiana.

 

Foto do time de 2018.

 

Os estudantes que compuseram a equipe vitoriosa da Unesp no iGEM 2018 foram, do curso de engenharia de bioprocessos e biotecnologia, Amanda Gracindo, Ana Flávia Martins Costa, Bruna Fernandes Silva, Daniel Augusto Cozetto, Débora Zamaro Toledo dos Santos, Mariana Biondi Cesar, Mariana Santana da Mota, Nathan Vinicius Ribeiro, Patrick Neves Squizato, Paulo Jose Correa Freire, Rafael Brull Tuma, Victor Nunes de Jesus e Vitor Teixeira Mazziero; do curso de farmácia-bioquímica, Ana Paula Cardoso, Larissa de Souza Crispim, Nadine Vaz Vanini; e do curso de engenharia química, Natália Agostinis Silva.
A viagem do time unespiano contou com o apoio do Convênio Unesp-Santander, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e do Instituto de Química, além de recursos das empresas Promega, Kasvi, Mendel e Merck.

Além dos docentes Danielle Biscaro Pedrolli e Marcel Otavio Cerri, coordenadores do projeto, foram conselheiros os professores Guilherme Peixoto, Álvaro de Baptista Neto, Sidineia Barrozo e Gustavo Nakamura Alves Vieira. Trabalharam como instrutores de apoio técnico Flavio Pereira Picheli, Gabriela Barbosa de Paiva e Rone Aparecido De Grandis.

 

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