A Ilustração

texto ◘ Genira Chagas

Tania Regina de Luca fala sobre livro que lançou a respeito de revista que circulou no Brasil, em Portugal e na França entre 1884 e 1892

A Ilustração (1884-1892) – Circulação de textos e imagens entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro,
Tania Regina de Luca,
Editora Unesp,
274 páginas, R$ 68.

A Illustração – Revista quinzenal para Portugal e Brasil circulou entre os anos de 1884 e 1892, além dos países citados na epígrafe, também na França. A publicação foi idealizada pelo português residente no Brasil Elísio Mendes, proprietário do jornal fluminense Gazeta de Notícias. O projeto da publicação já previa sua edição em Paris, tarefa realizada pelo português Mariano Pina. Em seus oito anos, A Illustração fez circular ideias, textos e imagens de forma simultânea nos três países. A história e a importância da publicação são temas de livro homônimo, de autoria de Tania Regina de Luca, lançado pela Editora Unesp neste 2018, com apoio da Fapesp. Tania é historiadora e docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis. Para fazer sua pesquisa, a docente permaneceu três meses em Lisboa, vasculhando os arquivos da revista na Biblioteca Nacional de Portugal.

O livro A Ilustração resulta do Projeto Temático financiado pela Fapesp “Circulação Transatlântica dos Impressos – a globalização da cultura no século XIX.” A iniciativa reúne 40 pesquisadores de 23 instituições de pesquisa do Brasil, França, Inglaterra e Portugal. Além de A Ilustração, o projeto rendeu mais cinco publicações, sendo uma dela somente para a Inglaterra, pela Taurus. Esse livro inglês deriva de um sub-projeto, um curso chamado Escola São Paulo, durante o qual foram reunidos cem alunos, sendo 50 do Brasil e 50 de outras partes do mundo.

O objetivo do Projeto é dar a conhecer os impressos e as ideias em circulação dos quatro países no “longo século XIX” (1789-1914). Seus principais objetivos são identificar e analisar os processos culturais, políticos e econômicos colocados em movimento pela circulação dos impressos e ideias em escala transnacional, analisando as apropriações dessas ideias nos quatro países. Para saber mais sobre o Projeto consulte o site <http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/>

UC O que fez despertar seu interesse por estudar a trajetória de A Illustração?
TANIA DE LUCA Foi por mero acaso. Eu recebi um convite da professora Márcia Azevedo de Abreu, do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp. Ela estava reunindo pesquisadores para integrar um Projeto Temático da Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) intitulado “Circulação Transatlântica dos Impressos – a globalização da cultura no século XIX”. Um projeto dessa natureza se caracteriza por reunir cientistas de diferentes instituições e distintos paises. Esse Projeto Temático tem a periodização de 1789 a 1914, correspondente a metodologia dos historiadores de marcar os séculos não pelos seus limites cronológicos, mas a partir de processos. Por esse entendimento, o século XIX começa com a Revolução Francesa (que ainda ocorre no XVIII) e acaba com a Primeira Guerra Mundial. Em compensação, o século XX começa em 1918 e termina com a queda do muro de Berlim. Esse período marca uma mudança importante na política e na cultura com o fim da Guerra Fria. Então, se o século XIX é longo, o século XX é curto. Raramente o período do século dos historiadores corresponde ao do século civil.

Voltando à questão da escolha, naquele momento eu trabalhava com a revista Diretrizes, uma publicação que circulou no Estado Novo (1937-1945), portanto, um período posterior. Então eu agradeci o convite. Mas a professora da Unicamp insistiu. Com o chamado em mente, fui ao setor de obras raras da Faculdade de Ciências e Letras, Câmpus de Assis, onde realizo minhas atividades acadêmicas-científicas, e me deparei com oito volumes de algo que eu não sabia o que era. Quando abri um volume estava escrito: A Illustração – Paris, com o preço do número em Lisboa e no Rio de Janeiro, o que despertou, de imediato, a minha a atenção. Esse impresso circulou entre 1884 e 1892, entre Paris, onde era impressa, Portugal e Brasil. Eu havia encontrado um material que respondia perfeitamente aos interesses do projeto.

Eu não conhecia a revista. Fui procurar na documentação da Faculdade a origem da coleção. Vi que havia sido comprada de um sebo, na década de 1960, possivelmente por algum professor que percebeu a importância do material, ainda inédito em termos de pesquisa. Depois verifiquei se existia algum estudo sobre essa revista. Achei um conjunto de artigos escritos por Elza Miné, professora da USP, que já tinha consultado não só a revista, mas o acervo do diretor, um jornalista português chamado Mariano Pina. Embora ela não tivesse feito um estudo sistemático, apontou uma questão interessante e que me ajudou bastante. Elza descobriu que a ideia de fundar a revista foi de um empresário do ramo jornalístico, Elíseo Mendes, proprietário do Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, um dos principais jornais do Brasil naquele momento, década de 1880. Era considerado um jornal moderno, com uma tipografia robusta. Só que ele não era um homem de letras. Era um português que vivia entre Lisboa e Rio de Janeiro. Ele percebe que não existe condição no Brasil de se fazer uma revista, a preços competitivos, nos moldes de A Illustração – tamanho grande, totalmente ilustrada.

Mendes, que conhecia a lógica empresarial da imprensa, percebeu que se fizesse um acordo com uma tipografia europeia ele conseguiria concretizar seu projeto e, ainda, ganharia dinheiro. Assim, contratou os serviços de uma grande tipografia francesa, chamada Sociedade Anônima de Publicações Periódicas. A empresa publicava mais de dez títulos, entre eles, uma revista intitulada Le Monde Illustré, que circulava desde 1853. O contrato se baseava na utilização de ilustrações de segunda mão, ou seja, que já tivessem sido publicadas no Le Monde Illustré. Isso fazia cair o preço da Illustração, pois elas eram revendidas já com direito autoral incluso.

O que era caro na revista eram justamente as imagens. Feito o acordo, ele contratou o português Mariano Pina, correspondente em Paris do jornal Gazeta de Notícias. Mendes ficou responsável por A Illustração até 1885. Depois se afastou e a propriedade passou para as mãos de Pina e assim permaneceu até o encerramento do periódico, em 1892.

UC Quem foi Mariano Pina?
TANIA DE LUCA  Pina foi jornalista. Tinha pouco mais de 20 anos quando assumiu o cargo de editor de A Illustração. Desde 1882 era correspondente em Paris do jornal Gazeta de Notícias. Cabia a ele responder pela edição de A Illustração, o que incluía recrutar os autores dos textos e escolher as imagens dentre as do acervo do Le Monde Illustré. Quando se lê a revista, não aparece outro nome além do de Mariano Pina. Mas na documentação relativa à publicação, depositada na Biblioteca Nacional de Portugal, observa-se a colaboração de seu irmão, Augusto Pina, importante artista plástico e que chegou a ajudar na supervisão da impressão da publicação. Nota-se aí a relevância de Elíseo Mendes na concepção e lançamento da publicação.

UC Qual era o diferencial de A Illustração?
TANIA DE LUCA  O importante nela não era a notícia como entendemos hoje, mas a novidade. Esse tipo de publicação surgiu na Europa em meados do século XIX. A primeira revista desse gênero foi The Illustrated London News, iniciada em 1842, na Inglaterra. No ano seguinte, surgiu La Ilustración, na França. Esse estilo de publicação caracteriza-se por ter metade composta por textos e a outra metade por imagens. O difícil naquela época era a composição das ilustrações. Embora já existisse a fotografia, ainda não havia a técnica para imprimi-la diretamente nos periódicos. Em geral, as ilustrações eram feitas a partir do trabalho de um desenhista, que compunha um rascunho do que deveria ser a imagem de um determinado local ou pessoa. Em seguida, aquele rascunho era enviado ao estúdio, onde alguém, que não necessariamente estivera no local em que o primeiro registro fora feito, concluía o desenho que, posteriormente, era entalhado em madeira. Só depois desse processo é que a matriz estava pronta para a impressão. Era um procedimento longo e caro que, no Brasil, nem sempre se podia fazer a preços competitivos. Por vezes, o processo tinha início com uma fotografia e não com um desenho.

UC Como foi o lançamento da revista no Brasil e quem eram os leitores?
TANIA DE LUCA  Houve uma panfletagem no Rio de Janeiro, com a edição do número zero, em tamanho de bolso, que eles chamavam bijou. A chegada da revista, a cada quinze dias, era motivo de anúncio nos grandes jornais, não somente na Gazeta de Notícias, interessada na publicação. As cartas que Pina trocava com autores brasileiros mostram que a revista era lida pela elite alfabetizada. Os contratos de edição indicam a impressão de uma média de quatro mil exemplares por edição quinzenal.

UC Qual era o conteúdo da publicação?
TANIA DE LUCA  A revista era feita para encantar o leitor. Os destaques eram a agenda cultural de Paris, literatura, trechos de livros, poemas, teatro. Havia algum espaço para questões políticas. Mais especificamente ligadas às questões europeias e suas colônias. Raramente eram publicados fatos brasileiros. Mas quando houve a proclamação da República, por exemplo, a volta de D. Pedro para a Europa foi destaque na revista. Devemos lembrar que o acordo com a tipografia era para utilização de imagens de segunda mão. Brasil ou Portugal só foram notícias quando acontecia algum fato que justificasse a publicação no Le Monde Illustré. Pina tinha de bancar os custos dos clichês caso desejasse uma publicação específica.

 

Tania Regina de Luca autora do livro A Ilustração (1884-1892) – Circulação de textos e imagens entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro. É professora Livre Docente em História do Brasil Republicano (2009), Unesp. Foi editora da Revista Brasileira de História (ANPUH, biênio 1999/2001) e da revista História (Programas de pós-graduação em História da Unesp/Assis e Franca).

UC No livro a senhora discute o conceito de colaborador. Como eram feitas as colaborações na revista?
TANIA DE LUCA  De acordo com os moldes da publicação, o editor utilizava-se com frequência do método ao qual chamamos na atualidade de “corta e cola”. Olavo Bilac contribuiu com 24 textos, sem nunca ter escrito nada especificamente para a revista. Pina não necessariamente consultava os autores para reproduzir seus textos, uma vez que a lei de direitos autorais ainda não estava em vigor em âmbito internacional. Ele se apropriava de poemas ou textos já publicados de Bilac, assim como de outros escritores, e os reproduzia. Por isso eu discuto no livro a noção de colaborador, que podia acontecer de forma involuntária. Atualmente entendemos essa figura como alguém ativo. Em A Illustração o sentido de colaborador era outro. Eles reproduziam textos não inéditos ou de escritores mortos e, é bom lembrar, sem pagar direitos autorais. O Brasil não era signatário da Convenção de Berna de 1886, relativa à proteção das obras literárias e artísticas. Naquele momento, os direitos autorias não estavam claramente estipulados. Contudo, vez por outra a revista pagava por colaborações encomendadas. Na pesquisa, encontrei documento sobre essa prática. Outra método muito comum naquela época era algum amigo enviar para a publicação um texto sem o conhecimento do seu autor. Assim, o conceito de colaborador era algo fluido. Mas Pina tinha uma noção da importância de fazer crer que o que era publicado na revista provinha de colaboradores, razão pela qual mencionava os nomes de todos os autores no expediente da revista.

UC Mariano Pina não conhecia o Brasil. De que forma isso impactou na publicação?
TANIA DE LUCA  O fato de o editor ser português e ter relações muito próximas com a intelectualidade portuguesa dá uma coloração mais lusitana para a revista. Até pouco profissional do ponto de vista do negócio, uma vez que a quantidade de leitores em potencial no Brasil era maior do que em Portugal. O Brasil era, realmente, uma temática menor. Do ponto de vista da produção, contudo, era mais barato fazer a revista em Paris do que aqui. Podemos dizer que, já no século XIX, existia um mercado globalizado das imagens. Inclusive a imprensa francesa dependia desses negócios internacionais para se manter.

UC A Exposição Universal de 1889 foi um momento importante para a publicação. De que forma A Illustração capitalizou o evento?
TANIA DE LUCA  Foi realmente um momento importante para o editor Mariano Pina, que se mobilizou pela presença portuguesa no evento, o que causava certo constrangimento às monarquias uma vez que, afinal, o que se comemorava era o centenário da Revolução Francesa, que colocou um freio no cadafalso. Em Portugal foi criada uma comissão, não de cunho oficial, para representar o país. Pina foi convidado a fazer parte daquele grupo e usou a revista como instrumento político. Fez tanta oposição ao presidente da comissão que houve mudança da direção, fato que contribuiu para aumentar sua força. E como membro da comissão portuguesa ele teve acesso, em primeira mão, às imagens e dados da exposição. É interessante perceber como o fato de o pavilhão do Brasil estar mais adiantado que o português serviu de arma para criticar o presidente ao qual ele se opôs. Quando ele publicou na revista o projeto do pavilhão brasileiro não foi por interesse no Brasil, mas para mostrar que os portugueses estavam atrasados no projeto. A exposição também foi a porta de entrada de Pina na política. Ele se aproximou de Mariano de Carvalho, o novo articulador e chefe da comissão portuguesa e ex-ministro da fazenda de Portugal. Em 1889, a pauta da revista foi dominada pelo andamento da exposição universal. Talvez tenha sido um dos momentos mais interessantes da revista.

Mostrar o encantamento de subir a torre Eiffel e poder ver Paris do alto, então uma sensação nova e que permitia ter outra apreensão da cidade. A revista também expôs a visão consagrada sobre as regiões coloniais dominadas pela Europa. Dentro da exposição, havia os pavilhões coloniais. Então, França e Inglaterra dominavam grande parte do mundo. Os povos subjugados eram retratados na publicação como exóticos e atrasados. Uma seção inteira da exposição representava aldeias, o que acabava por justificar a dominação colonial pelos povos industrializados. As cabanas e as montagens relativas aos povos e sociedades considerados primitivos estavam entre os espetáculos preferidos das senhoras e crianças. Em um dos artigos da revista lê-se: “Essas cabanas em estado primitivo de habitação onde se vêem os mais interessantes exemplares da grande família humana. Exemplares chegados de todos os campos do globo. A aldeia dos Cabilés é um dos pontos que mais atrai a curiosidade dos visitantes. Já os senhores preferem a rua do Cairu, não pelos bazares, mas porque tinha a dança do ventre”. A publicação também difundia as imagens e construções europeias sobre o oriente. A revista colaborou para a difusão e circulação de ideias e valores culturais europeus no Brasil.

UC Por que A Illustração deixou de circular em 1892?
TANIA DE LUCA a Existe a hipótese de que, a partir da relação de Pina com os membros da comissão da exposição universal, ele tenha se aproximado de Mariano de Carvalho, uma figura importante do ponto de vista político. Pina tornou-se secretário de Carvalho. Além disso, ele assumiu a administração de um jornal em Portugal, fato que o obrigou ficar menos em Paris. A partir de 1890, seu irmão, Augusto Pina, começou a ajudá-lo na tarefa de imprimir a revista. Porém, o negócio começou a desandar. A qualidade da revista caiu e isso deve ter influenciado no número de assinantes. Assim, a publicação acabou morrendo. Enquanto existiu, forneceu uma visão da Paris do Segundo Império, e isso com qualidade técnica dificilmente atingível em publicações feitas no Brasil. Sem o leitor ter ido a Paris, ele conhecia os itens da moda e os costumes do parisiense. O leitor sabia da agenda artística e cultural da cidade. A Illustração também contribuiu para a formação de um gosto estético.

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