A jacutinga e as mudanças climáticas

texto ◘ Mauro Galetti

No passado a jacutinga vivia em bandos enormes e realizava grandes migrações subindo as serras no verão e descendo no inverno. Por ser tão abundante e parecida com uma galinha bem mansa, a ave também começou a ser alvo fácil de caçadores. E assim foi o destino da jacutinga. Mataram milhares delas anualmente. Em Blumenau, Santa Catarina, as jacutingas eram tão comuns que chamou até a atenção de um médico alemão, Fritz Müller. Ele escreveu para o amigo Charles Darwin “O inverno de 1866 foi incomumente frio e as jacutingas vieram da serra em tão grande número que em poucas horas foram abatidas no Itajaí aproximadamente 50.000”. Fritz Müller não era de contar vantagens para Darwin e é bem provável que a jacutinga tenha sido uma das aves de grande porte mais comuns de toda a Mata Atlântica. Elas não chegavam a ser como os pombos passageiros (Ectopistes migratorius), uma espécie de pombo norte americano que possuía uma população estimada em vários bilhões de indivíduos e que foram caçados até sua extinção em 1914. Mas a jacutinga certamente devia ser a ave com maior biomassa na Mata Atlântica. Se cada jacutinga morta em Itajaí pesasse 1,5 quilo, 75 toneladas de jacutingas foram mortas em uma única manhã. Um ditado catarinense diz “Ninguém resiste a jacutinga com arroz”. Hoje, tanto a jacutinga como esse ditado estão ameaçados de extinção. Em Blumenau, não existe mais nenhuma jacutinga.

Os ornitólogos estimam que exista menos de 4 mil indivíduos em toda a Mata Atlântica. Em São Paulo ocorre somente em treze cidades; em Santa Catarina, cinco; no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro ocorre em apenas uma. Em Minas Gerais, somente uma população reintroduzida; na Bahia e Espírito Santo a jacutinga está extinta há muitos anos. As jacutingas deviam ser tão comuns que em Minas Gerais uma cidade foi batizada de Jacutinga. Hoje, não existem mais jacutingas em Jacutinga.

Mas e daí que a jacutinga está sendo extinta? Sabe aquele seu tio chato que te pergunta: mas para que serve o mosquito? Acho que todo biólogo já deve ter sido questionado com esse tipo de pergunta. Por que gastar para conservar a jacutinga se existem tantos problemas como desemprego, saúde, violência e habitação no nosso país? Por que um cidadão comum deveria se preocupar com a extinção de espécies que ele nunca viu e provavelmente nunca verá? Certamente na época de Fritz Müller as pessoas achavam que tinha tanta jacutinga que mesmo caçando muitas, ela nunca iria acabar. Assim, vamos matando e aniquilando uma, duas, dezenas, centenas de espécies, sem descobrir porque essa ou aquela espécie “servia”.

Para minha sorte, as jacutingas não eram tão raras no Saibadela, onde fiz meu doutorado na década de 90. Com o tempo, fui descobrindo que a jacutinga é um mega dispersor de sementes, uma máquina de comer frutos e plantar árvores. Eu e meu colega ornitólogo Alexandre Aleixo registramos mais de 40 árvores que são plantadas pelas jacutingas, entre elas, várias plantas medicinais como a espinheira-santa (Maytenus ilicifolia), popularmente utilizada no tratamento de gastrite, úlcera e azia. Tenho certeza que você já ouviu falar do chá da espinheira santa. Dê graças a jacutinga de termos muita espinheira santa na mata. Se extinguirmos as aves dispersoras de sementes como a jacutinga, estaremos perdendo não apenas uma ave, mas o que os cientistas chamam de “serviço ambiental”, ou seja, algo que o ser humano utiliza de graça e que advém da natureza.

 

Na época de Fritz Müller as pessoas achavam que tinha tanta jacutinga que mesmo caçando muitas, ela nunca iria acabar

 

Recentemente, juntamente com a professora Laurence Culot, do Departamento de Zoologia da Unesp de Rio Claro, e minha aluna de doutorado Carolina Bello, calculamos quanto vale o serviço da jacutinga em plantar uma única árvore na Mata Atlântica. Escolhemos uma árvore que captura muito carbono da atmosfera, a canela nós moscada (Cryptocarya mandioccana). Árvores “de lei” ou de madeira dura, são particularmente importantes de serem plantadas porque retiram mais carbono da atmosfera. Como o ser humano libera muito carbono na forma de gases CO2 com a queima de combustíveis fósseis na atmosfera, as espécies de árvores que absorvem bastante carbono podem nos ajudar a reverter mudanças climáticas. Pois bem, nós quantificamos quantas canelas são potencialmente produzidas pelas jacutingas. Como o carbono é uma commodity, ou seja, uma mercadoria que você pode comprar e vender na bolsa de valores, estimar quanto vale uma jacutinga é até simples. Primeiro tivemos que quantificar quantas sementes uma jacutinga come, quantas dessas sementes viram plântulas e qual a chance dessas pequenas plântulas virarem uma árvore adulta. Depois medimos a quantidade de canelas na floresta e calculamos quanto de carbono cada árvore estoca.

Para nossa surpresa, descobrimos que somente uma população de algumas dezenas de jacutingas vale 12,50 dólares por hectare (um hectare é um campo de futebol) por seus serviços de plantadora de carbono advindos da canela. Pode parecer pouco não é mesmo? mas somente em um único parque na Mata Atlântica a jacutinga vale mais de 1 milhão de dólares. Isso plantando apenas canelas, sem contar com a espinheira santa do seu chá, ou o plantio de outras árvores que ajudam a estabilizar o solo íngreme das Serras. Ainda bem que a jacutinga não está cobrando nada por esse serviço. Nem a jacutinga, nem o mono carvoeiro, nem o tangará, nem o sairá-sete-cores. A natureza não cobra nada. Não cobra o carbono que absorve e que deixa o planeta menos quente, não cobra pela água limpa que tomamos, nem pelos remédios produzidos para curar nossas doenças. Talvez damos pouco valor a ela simplesmente por isso. Por isso quando seu tio chato te perguntar para que serve o mosquito, a rã, a cobra, conte para ele sobre a jacutinga. Talvez depois de te ouvir, ele diga aos amigos que tem orgulho de ter um sobrinho biólogo.

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Mauro Galetti é um Naturalista no Antropoceno, <www.maurogaletti.com>.

Texto publicado originalmente no site O Eco: <www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/a-jacutinga-e-as-mudancas-climaticas/>.

 

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