A entropia, o tempo e nós

text ◘ Paulo Cesar Razuk

Caminhamos pela natureza como um surdo na Avenida Paulista, sentindo apenas algumas poucas vibrações

Ensinam na escola que é a energia que faz o mundo girar. Obtemos energia de várias fontes: do petróleo, do carvão, dos ventos, do sol, entre outras. A energia faz os motores se movimentarem, promove o crescimento das plantas e nos faz acordar cheios de vida toda manhã. Também ensinam na escola que a energia se conserva: não se cria e não se destrói. Se ela se conserva, que necessidade temos de buscar mais energia? Por que não usamos sempre a mesma? A verdade é que temos energia em abundância e ela não se consome. Não é de energia que o mundo precisa para avançar. É de baixa entropia.

Sempre que a energia se transforma uma parte dela se perde e não há mais como trazê-la de volta gratuitamente e reutilizá-la para fazer crescer uma planta ou movimentar um motor. Nesse processo a energia continua a mesma, mas a entropia aumenta e é ela que não retorna. O que faz o mundo girar não são as fontes de energia, são as fontes de baixa entropia. Perto de nós há uma fonte riquíssima de baixa entropia, o sol, que nasceu de uma configuração de entropia ainda menor – a nuvem primordial da qual se formou o sistema solar. E assim sucessivamente para trás, até a baixíssima entropia inicial do universo. Se o universo fosse um relógio, poderia dizer que, alguém deu corda para que ele começasse a se movimentar e a partir daí o tempo começou a fluir no sentido do aumento da entropia.

 

Nesta poeirinha azul, onde vivem milhões de organismos, entre plantas, micróbios, fungos e animais, estamos nós, seres completamente limitados

 

Passado e futuro são diferentes. Causas precedem efeitos. A dor vem depois da ferida, não antes. O copo se quebra em mil pedaços e os mil pedaços não reconstituem o copo. Não podemos mudar o passado, podemos ter arrependimentos, lembranças de momentos felizes. O futuro, por sua vez, é incerteza, desejo, inquietude, talvez destino. Podemos escolhê-lo porque ainda não existe; nele tudo é possível. O tempo não é uma linha com duas direções iguais: é uma flecha, com extremidades diferentes. Essa é a principal questão do tempo, mais do que a velocidade com que passamos por ele. O tempo é desacelerado pelas massas e pela velocidade, mas, para nós, sempre flui na direção do aumento da entropia e é medido pela lembrança, pela saudade. Vivemos de emoções e pensamentos num canto deste imenso e desordenado universo. Neste cantinho, nas franjas de nossa galáxia, existe um grão de poeira que chamamos de lar em meio a cem bilhões ou mais de outras galáxias no universo.

Nesta poeirinha azul, onde vivem milhões de organismos, entre plantas, micróbios, fungos e animais, estamos nós, seres completamente limitados. Nossa visão se baseia numa nesga de energia quase infinitesimal, de quatrocentos a setecentos nanômetros no espectro eletromagnético. O restante desse espectro, que satura o universo, vai dos raios gama, trilhões de vezes menores que o segmento visual humano, até as ondas de rádio, trilhões de vezes maiores. Pessoas saudáveis acreditam que podem ouvir qualquer som, contudo, nossa espécie é programada para detectar apenas de vinte a vinte mil hertz. Acima disso, os morcegos fazem a festa e abaixo disso os elefantes bradam mensagens para outros membros da manada. Caminhamos pela natureza como um surdo na Avenida Paulista, sentindo apenas algumas poucas vibrações e incapazes de interpretar o que está acontecendo ali. De todos os organismos da Terra, são os seres humanos que têm o olfato mais limitado, tão limitado que precisamos de um cão treinado para nos conduzir pelo mundo olfativo. Nosso corpo não é sólido, é uma interação momentânea de forças em um processo que, por um breve instante, consegue se manter em equilíbrio e reter aquilo que somos. Quando não conseguimos mais transformar energia, quando nosso corpo cessa de vibrar, a entropia vence, isto é, ela aumenta. Nessa hora flutuaremos no espaço e no tempo em direção ao nosso derradeiro destino.

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Paulo Cesar Razuk é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp – câmpus de Bauru.

Artigo originalmente publicado no Jornal da Cidade – Bauru.

 

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