Os sentidos possíveis (1970-1980)

texto ◘ Zélia Lopes da Silva

As musas inspiradoras dos enredos das escolas de samba de São Paulo

Carnaval Brasileiro.
O Vivido e o Mito;
Maria Isaura Pereira Queiroz;
Editora Brasiliense;
240 páginas.

O foco destas reflexões volta-se para alguns enredos que tiveram as mulheres como musas inspiradoras para estruturar os desfiles dos carnavais paulistanos exibidos nas passarelas oficiais nas décadas de 1970 e 1980. Esse período evidencia o aparecimento do maior número de enredos femininos, independentemente de injunções externas e internas favoráveis ou não ao assunto. A década de 70, por exemplo, ganhou visibilidade pela decretação pela ONU, em 1975, do Ano Internacional da Mulher e pela definição do dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. O objetivo era abrir espaço para a promoção de debate mundial de valorização e de combate a todas as formas de preconceitos praticadas contra as mulheres.

O Brasil ignorou o assunto, considerando as práticas de tortura da ditadura militar contra as mulheres que se engajaram na política e que foram presas. Muitas delas foram mortas sob tortura. Já na década de 1980 evidenciou-se o maior número de tributos às mulheres pelas escolas de samba classificadas nos diferentes grupos, sem que houvesse interrelação com o término da ditadura em 1985.

 

Dionísio Barbosa, aos 85 anos, fundador do primeiro cordão carnavalesco paulista, O Grupo Carnavalesco da Barra Funda, mais tarde popularmente chamado de Camisa Verde. (USP Imagens)

 

Adentrar o mundo feminino com a carnavalização da vida de algumas mulheres exige imaginação e perspicácia para a abordagem do assunto, não somente pelo objeto em si, mas pelo período, parte dele marcado pela supressão da liberdade de expressão. Aparentemente tais características não afetaram as criações dos carnavalescos das escolas de samba, que tinham que se adequar às regras exigidas pelos carnavais oficiais, cujos temas deveriam voltar-se para o folclore (lendas, mitos, etc.) e para a história do país de modo a lhes conferir o perfil de brasilidade desejada pelos circuitos oficiais. Em que pesem tais exigências, convém lembrar que o carnaval é um fenômeno transnacional não estando adstrito a um único país.

O interesse dos intelectuais brasileiros das áreas de humanidades sobre essas festividades era irrelevante até bem pouco tempo, o que não se pode dizer atualmente. Os primeiros estudos direcionaram-se para os carnavais do Rio de Janeiro, que já foi (e continua sendo) bastante inquirido. Nesse sentido, certas matrizes interpretativas nucleadas em torno das investigações de Maria Isaura Pereira de Queiroz e Roberto da Matta tornaram-se referência para os pesquisadores sobre o assunto, seja para concordar ou não com tais abordagens.

 

Carnaval no Parque do Ibirapuera, Escola de Samba Nenê de Vila Matilde – Homem passista, 1960. (Arquivo Histórico de São Paulo).

 

Contudo, as análises de Queiroz ganharam projeção e passaram a definir os caminhos para os estudos dos folguedos do país até 2000. Essa reviravolta significou a interposição de suas interpretações, já consagradas sobre esses folguedos, que se definiam pela periodização firmada pela autora, na longa duração: o período colonial, com o entrudo seguido de o grande carnaval (ou carnaval burguês) de 1850 até a década de 1930 e, a partir daí, o carnaval popular, com o predomínio das escolas de samba, modelo que teria se consagrado no país.

Os carnavais de São Paulo foram analisados seguindo esse mesmo roteiro, considerando que os primeiros estudos sobre o assunto foram de Olga von Simson, sob a orientação de Queiroz. Em meados dos anos 1980, afora os memorialistas, os conhecimentos acadêmicos sobre os carnavais ocorridos na cidade de São Paulo resumiam-se aos textos de Ieda Marques Britto e de Olga von Simson. Além desses estudos, Maria Isaura P. Queiroz abordou o assunto no livro Carnaval brasileiro: o vivido e o mito, publicado em 1992. As suas interpretações estendiam-se aos carnavais de outras regiões, incorporando também os carnavais de São Paulo. Nesse rol, inclui-se o livreto de divulgação de José Carlos Sebe Bom Meihy intitulado Carnaval, carnavais (1986). Essas abordagens, embora não tenham estudado especificamente os carnavais paulistanos, decretaram o seu esgotamento nos anos 1930, insistindo que nos anos seguintes teria havido uma debacle dessas festividades na cidade.

 

Samba enredo: A Marquesa de Santos. Desfile da Escola de Samba Nenê da Vila Matilde (1961). (Fonte: SIMSON, 2007, p.322).

 

Na atualidade, outros estudos apareceram sobre os carnavais paulistanos, centrados nas escolas de samba. Destacam-se os livros de Leila Blass, Desfile na avenida, trabalho na escola de samba: a dupla face do carnaval, publicado em 2007; e de Alessandro Dozena, divulgado em 2009, sob o título A geografia do samba na cidade de São Paulo. E, em 2015, veio a público o livro Transformações na avenida. História das escolas de samba da cidade de São Paulo (1968-1996), de Bruno Sanches Baronetti.

Dialogando com essa produção, minhas pesquisas centraram-se em dois momentos: de 1923 a 1938, o auge dos carnavais da cidade, e de 1940 a 1964, considerado o período de “morte do carnaval” paulistano, tese essa rebatida em meus estudos. Entendo que os efeitos provocados pela II Guerra Mundial – alto custo de vida, controle dos combustíveis, desemprego, falta de apoio financeiro aos folguedos – sobre as exibições de foliões nos espaços públicos da cidade foram significativos, mas não foram suficientes para eliminar tais pândegas.

É nesse contexto que voltamos o olhar para as mulheres brincantes dessas folganças. As inquirições sobre tais protagonistas são bastante reduzidas, sejam atinentes aos carnavais do Rio de Janeiro, sejam referentes a São Paulo. Olga von Simson escreveu um artigo geral sobre o assunto, e nele faz referências às folionas de São Paulo. Recentemente publiquei dois textos sobre as mulheres, um sobre as folionas negras e o outro enfocando as mulheres, independentemente da cor, que foram homenageadas nos sambas-enredo.

 

Em 1988 a Unidos do Peruche muda a história e o conceito do Carnaval Paulistano. Ala da bateria com fantasias. (Museu dos eventos –Anhembi Parque)

 

Neste texto, o foco da análise volta-se para os enredos das escolas de samba classificadas no Grupo 1 e Especial, entre os anos de 1974 e 1988. Para iniciar essa discussão apresentamos a cartografia dos enredos dedicados às mulheres, na década de 1950 (data do primeiro registro sobre o assunto) a 1991, ano de criação do Sambódromo Grande Otelo. Os dados coletados na SASP envolvem escolas de sambas dos Grupos Especial, 1, 2, 3, 4 e Vaga Aberta. Ao todo são apenas 38 sambas-enredo sobre as mulheres que se tornaram musas inspiradoras, durante as décadas de 1950 (um enredo), 1960 (quatro enredos), 1970 (dez enredos), 1980 (19 enredos) e 1990/1991 (quatro enredos), cujos critérios não eram apenas a cor e sim sua visibilidade político-cultural ou envolvimento com o samba. Algumas mulheres – Chica da Silva, Marquesa de Santos, Dona Beja, Clara Nunes, Chiquinha Gonzaga e Carmem Miranda – foram homenageadas mais de uma vez.

 

 

A obrigatoriedade do enredo/tema foi definido em 1968, com a oficialização do carnaval. Mas tem-se antes desse ano algumas mulheres que foram inspiração para os enredos. Destacou-se entre as agremiações a Escola de Samba Nenê da Vila Matilde, que trouxe em 1959, 1961 e 1962 mulheres como temas de seus enredos, antecipando-se em relação às suas congêneres. Os motes das homenagens foram figuras femininas que se projetaram no imaginário coletivo por suas façanhas singulares e amorosas, como a escrava Chica da Silva, a Marquesa de Santos e a personagem Isaura, do romance de Bernardo Guimarães.

 

Desfile de escola de samba no Carnaval de São Paulo, década de 1970. (Arquivo Nacional – Fundo documental: Correio da Manhã)

 

Os enredos, após 1968, sobre mulheres trouxeram a Marquesa de Santos, escolhida em 1969 pela E. S. Acadêmicos do Peruche, classificada no Grupo 2. Em 1972, a Escola Primeira de Santo Estevão (fundada em 1954) discutiu em seu enredo Maria Quitéria – O Rio faz festa para um soldado, personagem singular que se projetou por seu engajamento nas tropas em defesa da independência do país. Neste texto, porém, serão enfocados apenas os enredos do Grupo 1 e Especial, por terem suas letras publicadas no Portal da SASP.

Assim, ao trazer esta análise para as escolas de samba que tinham maior visibilidade nas passarelas do samba e na mídia, esse número ficou reduzido a apenas cinco escolas cujos enredos trataram do assunto, conforme o Quadro 1. O destaque foi a Escola de Samba Camisa Verde e Branco que em 1974 e 1980 trouxe para a avenida a mulher como mote de seus desfiles.

Os temas dos enredos enfocaram três musas negras ou “mulheres símbolos” que objetivavam não apenas plasmar aspectos do universo feminino, mas também demarcar as referências do próprio grupo. Uma Certa Nega Fulô (1974) é uma personagem de romance do mesmo nome. Com esse enredo dos compositores Ideval/ Zelão/ Miro (1974) a Escola de Samba Camisa Verde e Branco sagrou-se campeã, fato inédito nesses enredos dedicados às mulheres. Os compositores foram bem-sucedidos ao cantar em seus versos a proeza de uma mucama que se tornou senhora, rompendo assim os grilhões da escravidão pelo casamento com o senhor branco. Os versos são os seguintes:

Da senzala à nobreza/Seu amor, sua beleza/As cantigas de ninar/Veio ao salão para dançar/Ô abram ala, pois chegou Nega Fulô/E chegou de verde e branco/Espalhando seu encanto/Uma filha de Nagô/Embala o Erê, ô Graúna/Pode embalar/Nas mãos de Catambu/Este negro vai trabalhar/Esta mucama/Que se tornou grande senhora/Não podia imaginar/Novo romper da aurora/Grilhões caíram/E o negro então sorriu/Com o branco ao seu lado/Sob este céu cor de anil/Sob este céu cor de anil/Vamos cantar minha gente/La la lauê/Dunga tará/Tará sinherê.

Em 1986, a Escola de Samba Imperador do Ipiranga apresentou na Avenida o samba-enredo Festa para uma Rainha Negra, elaborado pelos compositores Mestre Lagrilla e Ideval, que homenageou Luiza, protagonista da revolta dos Malês na Bahia. Nesse sentido, o tom épico não é uma alegoria ou metáfora e sim louvor à guerreira Luíza, que lutou para libertar os negros do cativeiro. O samba de ritmo rápido visou o acompanhamento da tensão da trama.

Uma época distante, senhor/lá pra os lados da Bahia/Era lei do cativeiro senhor/
para o negro que sofria/A razão chegou mais forte porque/a revolta dos Malês/Nega “Luíza” mulher sofrida/entra na luta filha de Gegê/Olê olá lalá/acende a fogueira, o batuque não pode parar/Olê olá lalá/segura na barra da saia, senão ela pode queimar/
Menino toca o ganzê ou ganzá/esta noite é pra cantar/Aqui só há alegria e amor/hoje é festa no Congar/O terreiro enfeitado e no céu/a lua a clarear/Não chores não, corre pra ver/Luiza rainha, filha de Gegê/Olê olá lalá /acende a fogueira, o batuque não pode parar/Olê olá lalá /segura na barra da saia, senão ela pode queimar/Bate a cabeça no chão, oh senhor/ela acabou de chegar
No tempo da escravidão, o que fez?/Guerreou pra nos salvar/Para a deusa de bronze, o quê?/Oferendas vamos dar/E esta noite é pra você/nossa rainha filha de Gegê
Olê olá lalá /acende a fogueira, o batuque não pode parar
Olê olá lalá /segura na barra da saia, senão ela pode queimar.

O terceiro enredo discutiu o centenário da abolição da escravidão no Brasil. Os compositores Joaquim e Benê da Escola de Samba Unidos do Peruche optaram, no samba-enredo Filhos de Mãe Preta (1988), por uma perspectiva transoceânica para falar da luta pela liberdade dos negros. Os elementos simbólicos (as divindades protetoras de matriz afro) foram acionados para pensar tais acontecimentos, optando a Escola de Samba Unidos do Peruche por evocar os grandes líderes negros que lutaram pela liberdade dos seus, tais como Zumbi, Luther King e Mandella. Foram vistos como pessoas iluminadas pelas causas defendidas, demonstrando que eram filhos de Mãe Preta e netos de Iorubá, símbolos máximos culturais e marcos memoriais para o grupo. O ritmo do samba-enredo acompanhou a trama do enredo e foi marcado de forma densa, com batuque acelerado dos tambores visando assim acertar o compasso, de acordo com o seu conteúdo. Os versos, abaixo, expõem o mote do enredo:

Atotô Oabaluaê/Atotô Oabaluaê/Vem oh claridade/a Peruche canta a liberdade
Ê! Mãe África/espalhando seus filhos no mundo/Esse banzo tão profundo/que despertam num segundo/Quando alegre a caminhar/tantas estrelas a brilhar ao léu/
Não é brinquedo de Isabel/Pixinguinha e Clementina/Uma força que domina/uma luz que vem do céu/Oiá, ieô/da raiz a flor mais bela/Oiá, ieô/é Zumbi é Luther King e Mandella
Negras pedras preciosas/levam o barco a remar/Essa gente tão formosa/ilumina meu cantar
Quilombo/um canto livre ecoou/Malê Gegê filho de Zambi/Anuanas que vem de Nagô
Filhos de Mãe Preta/netos de Yorubá/Contagiando o mundo/exaltando os Orixás

Cabe assinalar que o enredo Os Filhos de Mãe Preta não traz nenhuma analogia ao monumento Mãe Preta, originário de negociações dos negros paulistanos para sua inserção nos marcos memoriais do IV Centenário da cidade de São Paulo. Nesse sentido, tais querelas apresentam outras questões como, por exemplo, o reconhecimento de sua participação no constructo da Nação, diferentemente dos versos dos compositores que discutiram os sentidos do centenário da abolição da escravidão no Brasil, articulados àqueles que deram a vida pela causa da liberdade. Os compositores trouxeram para o centro das reflexões os líderes que lutaram pela libertação dos negros da escravidão, como Zumbi e também Luther King e Mandella que, na contemporaneidade, continuaram a luta para garantir direitos civis e políticos para os negros que eram cerceados nessas pretensões, situação que ia muito além de um tempo histórico específico.

Os demais enredos, fora do universo afro, abordaram três personalidades que se projetaram em tempos distintos: a primeira, a bela índia Paraguaçu, que se envolveu com o português Diogo, o Caramuru, e com ele foi para a Europa travestindo-se numa francesa ao tornar-se Catarina; a segunda era uma cortesã do século XIX, das Minas Gerais que encantou os homens da elite, com a sua beleza e seu poder de sedução [Dona Beja (1980)]; e a última era a cantora Elis Regina (1984) que foi celebrada, no enredo, pelo talento e alegria voltados para a música. Os compositores Nelson Coelho, Roberto Lindolfo e Ditão usaram estrofes com os lugares da trajetória profissional da cantora no Rio Grande do Sul e as letras de músicas que a tornaram reconhecida, a exemplo de Upa neguinho, etc. para traçar o seu perfil.

 

Cordões carnavalescos desfilavam na Avenida São João/Vale do Anhagabaú. Em 1967 os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo foram oficializados e no ano seguinte aconteceu o primeiro desfile oficial. Em 1977, o desfile foi transferido para a Avenida Tiradentes e a partir daí, o carnaval paulistano não parou de crescer e de se profissionalizar. (© Foto: Acervo / SRZD)

 

O epílogo poderia arguir se houve mudança no enfoque dos motes dos enredos da década de 1980 em relação à anterior, que fora marcada pela censura e ausência de liberdade de expressão. Algumas visões conformistas e alienadas presentes nos enredos sugerem uma linha de continuidade de seus conteúdos entre essas décadas. Diria que os enredos Uma certa Nega Fulô e aqueles que trataram sobre as vidas da índia Paraguaçu, Dona Beja e Elis Regina não apresentam rupturas ou sinais indicativos de elementos críticos. A exposição de suas vidas de forma carnavalizada nas passarelas a partir de uma trama leve reforçou a perspectiva de sagração de um mundo idílico, sem conflitos ou tensões, considerando que o foco dos enredos sobre essas musas voltou-se para aspectos pitorescos, elogio à beleza angelical/sensualidade e a sonoridade/alegria contagiantes na forma de cantar. Em outras palavras, o que fica sobre os sentidos de tais representações anódinas é o descompasso entre suas vivências e a leitura feita sobre elas pelos compositores que desconsideraram o confronto de valores que essas mulheres impuseram à sociedade (brasileira) de seu tempo.

 

 

REFERÊNCIA

SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes von. Mulher e carnaval: mito e realidade (Análise da atuação feminina nos folguedos de Momo desde o Entrudo até as Escolas de Samba). Revista História, São Paulo, n. 125-126, p. 7-32, ago-dez/91 a jan-jul/92.

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Zélia Lopes da Silva é professora da Faculdade de Ciências e Letras do câmpus de Assis.

Foto de abertura: Montagem.

  1. Maria Quitéria de Jesus Medeiros. Foi a primeira mulher das Forças Armadas Brasileiras
  2. Domitila de Castro Canto e Mello, a Marquesa de Santos. Foi amante de Dom Pedro I, imperador do Brasil
  3. Ana Jacinta de São José, Dona Beja, já idosa. Foi uma personalidade influente no século XIX
  4. Chica da Silva, foi uma escrava, posteriormente alforriada
  5. Chiquinha Gonzaga. Foi a primeira pianista chorona, (musicista de choro), autora da primeira marcha carnavalesca com letra (“Ó Abre Alas”, 1899)
  6. Clara Nunes, cantora e compositora brasileira
  7. Carmen Miranda, cantora e atriz luso-brasileira

 

 

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