Cidades médias e consumo

texto ◘ Maria Encarnação Beltrão Sposito*

Lógicas econômicas e práticas sociais contemporâneas

As desigualdades socioespaciais marcam a urbanização na América Latina, subcontinente em que as cidades revelam e reproduzem a sua história de iniquidades econômicas, políticas, sociais e culturais. Tomando essa realidade como contexto geral, o Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, câmpus de Presidente Prudente, realizou pesquisa para estudar as particularidades da urbanização contemporânea em cidades médias, compreendidas como espaços de articulações espaciais em múltiplas escalas geográficas.

A pesquisa, que se desenvolveu entre 2012 e 2017, assentou-se em alguns objetivos. O central foi analisar tais cidades no início do século XXI, considerando-se a redefinição de seus papéis na rede urbana e de suas estruturas espaciais a partir de um conjunto de mudanças na economia e na sociedade que impõem essas transformações tanto quanto as expressam.

 

Na foto, vista da cidade de Londrina, no Paraná, uma das cidades selecionadas por terem origem e desenvolvimento associados à articulação entre complexo cafeeiro, industrialização e rede urbana

 

O meio para realizar a análise foi o consumo, associado ao papel do crédito, como plano para a compreensão do processo de produção do espaço urbano. Por meio do estudo do consumo de bens e serviços, buscamos compreender a ampliação e/ou a complexificação da divisão interurbana do trabalho, segundo a qual as relações entre metrópoles, cidades médias e pequenas se alteram, bem como se modifica a divisão econômica e social dos espaços urbanos.

A análise das relações entre mudanças das práticas espaciais e das lógicas espaciais das grandes empresas foi o caminho escolhido para a compreensão da posição das cidades na rede urbana e das reestruturações que nelas ocorrem. Isso implica o pressuposto de que tanto as redes urbanas regionais e nacionais quanto os citadinos, cada vez mais, articulam-se a fluxos de amplitude internacional num período de mundialização da economia e globalização da sociedade, respondendo a interesses e influências de múltiplas escalas geográficas.

 

Riberão Preto

 

A pesquisa, organizada como projeto temático da Fapesp, ao qual se vincularam mais de 50 subprojetos, da iniciação científica ao pós-doutoramento, teve como um dos seus principais desafios a conformação da metodologia e sua aplicação em seis cidades (Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São Carlos, Marília e Presidente Prudente no Estado de São Paulo, e Londrina, no Estado do Paraná), utilizando os procedimentos e as técnicas mais adequadas, e as linguagens que elas requerem.

Partindo-se desses pressupostos, o método foi estruturado em pares dialéticos, tais como quantidade e qualidade, processo e forma, espaço e tempo, sempre tomados como articulações entre múltiplas escalas geográficas. A metodologia baseou-se em diferentes procedimentos e variáveis selecionadas para fazer face aos desafios de explicar as características das cidades médias e do papel delas na rede urbana. Ela foi de natureza quali-quantitativa. Compusemos bancos de dados e utilizamos aqueles organizados por várias instituições (IBGE, Seade, IPC, etc.). Foram aplicados questionários e enquetes que propiciaram uma primeira aproximação da realidade estudada. Realizamos entrevistas com agentes bem informados e citadinos para aprofundar a análise, além de termos efetuado observações de vários tipos para compreender como as mudanças em curso, nos planos econômico e político, alteram as ações sociais e as práticas espaciais. Por essas razões, um ponto alto da pesquisa foram os trabalhos de campo.

 

São Carlos

 

Foram consideradas quatro dimensões empíricas: 1) ramos de atividades comerciais e de serviços; 2) formas de organização da comercialização de bens e serviços; 3) meios que vêm sendo oferecidos à consecução dessas novas formas de consumo; 4) localização e conteúdo dos novos espaços onde o consumo se realiza.

Para sintetizar o processo de realizar a pesquisa, reproduzimos o que está na apresentação do livro Consumo, crédito e direito à cidade, em etapa final de publicação pela Editora Appris: “A experiência de realizar coletivamente uma pesquisa durante seis anos, desde a construção de sua metodologia, passando pelo desenvolvimento dela, incluindo a realização de inúmeros trabalhos de campo” foi importante para demonstrar como “algumas práticas espaciais de consumo decorrentes do crédito têm possibilitado novas perspectivas de realização do cotidiano urbano que apresentam uma série de potencialidades, quanto à criação de identidades e de novas formas de cidadania, que convergem para um entendimento do consumo e do crédito em outras bases”. Foi importante articular “consumo, crédito e direito à cidade” por meio de “políticas habitacionais, shopping centers, e-commerce etc., que mereceram atenção especial e possibilitaram a constatação de que um processo de fragmentação socioespacial está em curso nas cidades médias”.

Associadas a esse fio condutor da pesquisa que o livro apresenta, foram desenvolvidas várias frentes para que a abordagem das cidades médias pudesse ser ampla e, ao mesmo tempo, específica em alguns recortes. Para tal, identificamos, também, o alcance e o papel que desempenham os novos produtos imobiliários (sobretudo, espaços fechados, condominiais ou não, dotados de serviços de controle e vigilância) na nova racionalidade que pauta os modos atuais de produzir e consumir as/nas cidades médias, com especial atenção à proliferação e naturalização da presença de equipamentos de segurança em espaços privados e públicos.
As dinâmicas dos mercados imobiliários e, principalmente, das terras urbanas foram analisadas com o objetivo de compreender as dimensões econômicas e espaciais da produção do espaço urbano. Foi realizado levantamento sistemático e abrangente dos preços de ofertas de imóveis, identificação e entrevistas com os principais agentes econômicos de sua comercialização, construção e incorporação, a regulamentação urbanística de cada cidade e as tipologias imobiliárias, com ênfase para aquelas da verticalização, dos espaços residenciais fechados horizontais e do Programa Minha Casa Minha Vida.

 

Marília

 

A produção imobiliária, grande propulsora do processo de dispersão urbana, levou à investigação sobre o fato urbano em termos de aglomerados urbanos, partindo da hipótese de que as cifras oficiais sobre a população urbana são superdimensionadas, porque se baseiam nos perímetros urbanos legais das cidades ou vilas que são delimitados pelo poder público municipal, enquanto nós procuramos nos basear nos critérios demográficos e geográficos e, mais precisamente, na ocupação do solo. Para cada aglomerado, o contorno do espaço urbanizado foi digitalizado a partir de imagens de satélite e a população residente reavaliada a partir dos dados de população publicados pelo IBGE na escala dos setores censitários. Esses aspectos foram considerados porque eles estão, de maneira geral, contribuindo em termos de formas espaciais para o processo de fragmentação socioespacial.

No entanto, este processo não pode ser visto apenas como formas espaciais e foi complementado pela análise das práticas espaciais de citadinos de vários estratos sociais, de diferentes idades e profissões, bem como residentes tanto em áreas centrais e pericentrais como periféricas, por meio de suas interações espaciais com a cidade, mediadas pelo consumo que se realiza nela e por meio dela.

Foi possível compreender as práticas espaciais decorrentes das reestruturações urbana e da cidade, com enfoque naquelas ligadas especificamente ao consumo de bens culturais e ao consumo do espaço urbano, pelo estudo das novas centralidades em cidades médias, além do estudo dos ramos de atividades mais representativos do processo de concentração econômica e de ampliação territorial da ação das empresas comerciais e de serviços para avaliar como elas influenciam a redefinição dos papéis das cidades médias e, ao se instalarem nelas, ampliam as formas de consumo e as diversificam, tornando imperiosa a demanda de bens e serviços globalizados, antes afeitos aos espaços metropolitanos.

Essa análise levou à compreensão da produção de novas áreas centrais (shopping centers, hipermercados e suas lojas e serviços de apoio) com a transformação do conteúdo dos centros tradicionais e sua relação com elementos definidores de um novo consumo.

Afinal, por que foram estudadas essas cidades?
Escolhemos seis cidades, cuja origem e desenvolvimento estão associados à articulação entre complexo cafeeiro, industrialização e rede urbana, na perspectiva de compreender que papéis se mantiveram a partir dessa tríade e quais se modificaram, ainda que as funções regionais tenham se mantido.

Três delas, Presidente Prudente, Marília e São Carlos, possuem portes demográficos (pouco mais de 200 mil habitantes em 2010) e ritmos de crescimento semelhantes, considerando os últimos censos demográficos do IBGE relativos à população urbana. Três outras, São José do Rio Preto, Londrina e Ribeirão Preto (com tamanhos populacionais que variam de 370 mil a 690 mil habitantes em 2010), apresentam mais diferenças entre si.

Um fator que orientou a escolha baseia-se no fato de que, com exceção de Ribeirão Preto, são cidades que vinham sendo objeto de inúmeras pesquisas já realizadas ou em andamento no GAsPERR e no âmbito da ReCiMe (Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias), rede à qual se associa o grupo. A opção por estudar várias cidades possibilitou análise comparativa que revelou diferenças substanciais no que concerne às formas segundo as quais a expansão territorial dessas cidades se realiza, constituindo morfologias urbanas que se distinguem, o que é fator orientador das lógicas de estruturação da cidade e, portanto, pode ter rebatimento sobre as formas de uso do tempo e do espaço urbano. Tais diferenças apareceram também expressas nas lógicas de estruturação de seus espaços urbanos e nos ritmos desses processos, em grande medida orientados pelas coalisões e conflitos entre grupos econômicos e políticos.

Para todas as cidades, foram feitos mapas sínteses como o de São José do Rio Preto que ilustra esta matéria. Os números grandes correspondem aos locais de moradia de nossos entrevistados, as áreas rosadas são aquelas ocupadas pelos que ganham menos e as azuis pelos que ganham mais. Estão delimitados em preto os espaços residenciais fechados, chamados de condomínios horizontais e, em vermelho, temos os conjuntos habitacionais construídos com recursos do Programa Minha Casa Minha Vida. Os círculos em vermelho correspondem às principais áreas comerciais e de serviços citadas pelos entrevistados, e no caso dessa cidade, como de Ribeirão Preto, Londrina e Presidente Prudente, com maior ênfase, os shopping centers desempenham papel de centralidade principal das cidades. A concentração dos que ganham mais de 20 salários mínimos no sul e no leste, em contraposição ao setor norte, onde estão os que ganham até três salários mínimos, mostra que a fragmentação socioespacial está em curso, pois é notória a tendência ao afastamento socioespacial dos diferentes estratos socioeconômicos. (Figura 1)

 

FIGURA 1 – Mapa de Consumo de São José do Rio Preto (2013) Seu objetivo principal é mostrar a localização das áreas de compra na cidade em relação à origem dos consumidores e às áreas com populações de rendas altas (azul) e rendas baixas (rosa escuro)

 

No geral, os resultados indicam que a chegada de grandes capitais nacionais e internacionais, nas seis cidades, é marcada por duas tendências: 1) reforço das centralidades historicamente estabelecidas, com destaque para o centro principal; 2) novas escolhas espaciais que redefinem a centralidade urbana, tanto na escala da cidade como na escala interurbana, recaindo sobre shopping centers e eixos de grande circulação.

Essas dinâmicas ganham particularidades nas cidades médias, tendo em vista, ao menos, dois processos: a) As escolhas das empresas interferem nas práticas espaciais dos citadinos que se deslocam, progressivamente, a distâncias maiores para aceder a grandes superfícies comerciais e/ou aos espaços de maior prestígio social, seja porque se associam a shopping centers, seja porque se destacam pelas marcas que representam na economia globalizada; b) São menores as distâncias percorridas pelos consumidores do que as observadas em metrópoles e isso possibilita que as escolhas espaciais de consumo em espaços considerados de grande prestígio social sejam feitas por parcelas maiores da sociedade, incluindo a classe média. Isto distingue as formas de separação, com aprofundamento da segregação socioespacial, incluso autossegregação, e ocorrência de dinâmicas de fragmentação socioespacial.

 

FIGURA 2 – LOCALIZAÇÃO DOS ESTABELECIMENTOS DO COMÉRCIO VAREJISTA. PRESIDENTE PRUDENTE – SP Mapa qualitativo de Presidente Prudente com a localização de estabelecimentos do comércio varejista. Seu objetivo é demonstrar como o centro e as diferentes centralidades são representadas na área urbana

 

Mapas como o da Figura 2, elaborados para todas as cidades, com a representação da distribuição do comércio varejista, com destaque para as grandes superfícies – supermercados, hipermercados e shopping centers – mostram claramente como há perda relativa da centralidade exercida pelo centro principal das cidades e, de outro, como grandes empresas têm papel central no processo de descentralização/recentralização, pois é possível notar que marcas como Makro, Walmart, Carrefour e Assaí, localizadas nos setores oeste e sudoeste ao centro, compõem, com o principal shopping center da cidade, uma nova área comercial e de serviços que está localizada em oposição aos espaços residenciais dos mais pobres, no norte (como mostra a Figura 3) e leste da cidade.

 

FIGURA 3 – Imagem do Google Earth que mostra a expansão territorial na cidade de Presidente Prudente ao lado de conjunto habitacional construído dentro do programa Minha Casa, Minha Vida

 

As contribuições à pesquisa, de maneira geral, podem ser assim apresentadas:
1. Desenvolvimento de metodologia de pesquisa, procurando articular, no plano teórico, instrumentos de tratamento objetivo e subjetivo, quantitativo e qualitativo da realidade estudada, com vistas à apreensão de processos e dinâmicas: a) universais num período de globalização, considerando-se escalas internacionais, nacionais e regionais; b) particulares, considerando-se as especificidades da formação socioespacial, c) singulares, tendo em vista o que é relativo a cada uma das cidades médias, objeto desta pesquisa.

2. Contribuição ao adensamento do conceito de rede urbana, a partir da realidade paulista e paranaense, considerando os atributos do período atual e as possibilidades advindas da ampliação das relações interescalares, uma vez que a intensificação das articulações, gerando interações espaciais em múltiplas escalas, integra cada rede urbana, resultado de uma dada formação socioespacial, a outras redes urbanas, historicamente constituídas, segundo processos e dinâmicas diferentes, conformando a imbricação de redes ou o que se poderia chamar de rede de redes, o que leva a uma abrangência internacional.

3. Contribuição ao debate sobre a noção de cidade média, avaliando as possibilidades conceituais que a expressão teria ou superando-a a partir da proposição de novos conceitos capazes de expressar com maior conteúdo teórico as especificidades dessas cidades, vis-à-vis de suas relações com as metrópoles e cidades pequenas, de modo a percebê-las no âmbito do processo de urbanização, ou seja, em suas relações com o conjunto das cidades, e não as tomando em si.

 

 

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*Também participaram da produção deste artigo
Eliseu Savério Sposito, Eda Maria Góes, Everaldo Santos Melazzo, Cathy Chatel, Arthur Magon Whitacker e Vitor Koiti Miyasaki

 

 

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