Uma solução contra muitos males

texto ◘ André Louzas

Composto teve sucesso em testes contra vírus da hepatite C e tem potencial para combater doenças que vão de câncer a zika e febre amarela

Mais de 70 milhões de pessoas no mundo estão infectadas pelo HCV, o vírus causador da Hepatite C. Essa doença se caracteriza por uma inflamação do fígado e frequentemente se torna crônica, podendo evoluir para quadros de cirrose e de carcinoma hepatocelular, o câncer de fígado.

Diversos produtos antivirais são hoje utilizados para combater o HCV. Desse arsenal fazem parte pró-fármacos, medicamentos que são inativos quando introduzidos no organismo, passando depois por uma biotransformação que os torna ativos quando atingem o seu alvo – no caso, a célula infectada pelo HCV. Essa característica tende a reduzir os possíveis prejuízos causados ao organismo.

“Já existem pró-fármacos contra esse vírus, mas eles apresentam efeitos colaterais e um custo bastante elevado”, informa Paula Rahal, professora do Instituto de Biociências e Ciências Exatas (Ibilce) e coordenadora do Laboratório de Estudos Genômicos (Lego), do câmpus da Unesp em São José do Rio Preto.

A equipe do Lego promove o desenvolvimento de um novo pró-fármaco produzido a partir de um peptídeo, em parceria com o grupo do Laboratório de Síntese e Estudos de Biomóleculas (Lasebio), do Instituto de Química (IQ), câmpus da Unesp em Araraquara, coordenado pelo professor Eduardo Maffud Cilli.

 

 

Peptídeos são compostos com estruturas menores que as de proteínas e exercem importantes funções no organismo, atuando como hormônios, neurotransmissores, analgésicos e antibióticos. São formados por unidades denominadas aminoácidos, moléculas responsáveis pela diferenciação desses compostos, de acordo com seu número e sequência.

A pesquisa do medicamento envolve principalmente a colaboração de dois pesquisadores: Paulo Ricardo da Silva Sanches, do Lasebio, e Mariana Nogueira Batista, do Lego. Numa soma de esforços, Sanches e Batista investigam a atividade antiviral e antitumoral de peptídeos, bioconjugados e pró-fármacos.

 

O professor Eduardo Maffud Cilli (dir.) com o pesquisador Paulo Ricardo da Silva Sanches, do Laboratório de Síntese e Estudos de Biomoléculas (Lasebio)

 

É nesse nível molecular que trabalha a equipe do Lasebio, voltado para o estudo e a síntese de biomoléculas, que são moléculas de origem natural ou sintética. Os pesquisadores planejam e sintetizam essas moléculas tendo em vista os mecanismos de replicação de vírus e progressão de células tumorais. Assim, buscam desenvolver moléculas com potencial terapêutico.

Na pesquisa conduzida por Sanches e Batista, foram produzidos bioconjugados, que são compostos formados por diferentes moléculas. Os bioconjugados, no caso, associam peptídeos sintéticos a uma biomolécula, o ácido gálico, uma substância com propriedade antiviral e antitumoral.

Sanches explica que peptídeos têm duas extremidades: uma denominada aminoterminal e outra chamada de carboxiterminal. “As modificações que realizamos foram feitas na extremidade aminoterminal, que apresenta maior facilidade para modificações químicas e é uma região importante para a atividade de muitos peptídeos”, ressalta.

Enquanto o grupo de Lasebio promovia as alterações na estrutura dos peptídeos, o grupo do Lego realizava os testes in vitro. “Os estudos foram feitos em hepatomas, isto é, células tumorais de fígado”, esclarece Mariana.

 

A professora Paula Rahal (dir.) com a pesquisadora Mariana Nogueira Batista, do Laboratório de Estudos Genômicos (Lego)

 

Foram testados seis bioconjugados, sendo que os melhores resultados foram obtidos pelo composto formado pelo GA-Hecate. Segundo Mariana, o GA-Hecate foi eficaz em todo o processo de replicação do vírus – que envolve a entrada na célula, a produção de cópias de seu material genético e a posterior liberação de novos vírus para infectar outras células.

“Os fármacos hoje disponíveis para combater o HCV geralmente atuam apenas numa das etapas de sua replicação, enquanto o bioconjugado que produzimos foi bem-sucedido em praticamente todas essas etapas”, acentua Sanches.

O sucesso do trabalho nos testes in vitro levou à publicação de um artigo na revista Scientific Reports, do Grupo Nature, em setembro do ano passado (www.nature.com/articles/s41598-018-32176-w), que tem Batista e Sanches como principais autores. A revista saudou o estudo como a abertura de uma porta para a obtenção de um novo espectro de produtos antivirais.

O professor Cilli enfatiza que o bioconjugado produzido pelos brasileiros também tem potencial para agir em células cancerosas, bactérias e fungos. Ele garante ainda que, como os vírus do zika e da febre amarela apresentam ciclos de replicação bastante parecidos com o do HCV, o grupo também vai testar a efetividade do AG-hecate para esses vírus.

Segundo a professora Paula Rahal, além de se mostrar mais eficaz contra o vírus da hepatite C, o novo pró-fármaco teria outra vantagem sobre os produtos hoje usados contra esse inimigo: o preço mais acessível. “Nós prevemos que, quando estiver disponível no mercado, esse composto terá um custo menos elevado que os pró-fármacos existentes”, comenta.

Batista assinala que o pró-fármaco obtido pela colaboração entre as equipes de Araraquara e São José do Rio Preto, apesar dos resultados animadores já conseguidos, ainda necessita de ajustes. “O produto ainda tem alguns efeitos tóxicos e por isso precisa ser aprimorado”, adverte a pesquisadora. “Finalizada essa etapa, pretendemos no futuro realizar testes in-vivo.”

_____________

Com informações da Agência Fapesp.

 

Deixe uma resposta

*