Bala perdida no fogo cruzado

texto ◘ Gladis Massini-Cagliari

Unificação do vestibular da Unesp não tem correlação com crise financeira ou com teto salarial

A semântica do teto, texto publicado no espaço “Tendências & Debates” do jornal Folha de S.Paulo em 21/02/2019, vincula a “suspensão do vestibular de meio de ano” da Unesp à sua atual crise financeira e sugere, ainda, relação causal desta com o teto salarial. Essa inadequada vinculação traz prejuízos à imagem da Unesp, uma das melhores universidades públicas do Brasil.

É imprescindível esclarecer que essa ação não tem qualquer relação com a crise financeira e não se trata de corte de vagas, mas sim da unificação do processo de seleção para ingresso na universidade.

Sem querer perder o foco, a crise financeira da Unesp passa ao largo do tema tratado pelos autores, pois entre as suas principais causas estão a crise econômica do país, que tem impacto direto sobre o ICMS paulista e, portanto, sobre a maior fonte de financiamento das universidades paulistas; a expansão de vagas baseada em planejamento pouco adequado que levou à diminuição de nossa sustentabilidade; o custo crescente das políticas de inclusão social e de permanência estudantil; e, principalmente, o crescimento desenfreado dos gastos com previdência, cujo impacto no total dos recursos recebidos do Estado passou, nos últimos dez anos, de 28% para 41%.

A unificação do vestibular foi motivada por questões acadêmicas, envolvendo principalmente as dificuldades de preenchimento das vagas oferecidas no vestibular de meio de ano e a grande desproporção entre os dois vestibulares quanto à oferta de vagas, sendo 95% das vagas (7.365) oferecidas no início do ano e apenas 5% (360) no meio de ano, apesar de a logística e os esforços de operação serem similares.

Essa medida aprovada pelos órgãos colegiados da universidade é a primeira etapa de um processo amplo de reorganização das possibilidades de ingresso aos cursos de graduação da Unesp e faz parte da reforma acadêmica em discussão desde o ano passado.

Trata-se de um profundo debate que intenciona chegar a maior equilíbrio entre dois princípios que se complementam: a busca dos melhores candidatos que possam vir a se constituir nas lideranças do futuro e a busca do melhor atendimento às demandas sociais do Estado de São Paulo. Para atender ao primeiro princípio, estão sendo estudadas possibilidades de preenchimento de vagas remanescentes a partir de processos seletivos de ampla disputa voltados à busca de talentos do ensino médio; para atender ao segundo, estão sendo estudadas medidas de incentivo à regionalização do preenchimento das vagas.

Seria de se esperar que, em uma discussão que objetiva, como escreveram os autores do artigo publicado na Folha, “preservar o patrimônio das Universidades, em benefício da ampliação do acesso à educação e à ciência”, as informações fossem acuradas e checadas antes de serem levadas a público, evitando o efeito de bala perdida num fogo cruzado. A propósito, a transferência do vestibular do meio para o final do ano visa, justamente, a “ampliação do acesso” à Unesp, garantindo melhor preenchimento das vagas oferecidas pela sociedade brasileira e, em especial, pelos contribuintes paulistas.

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Gladis Massini-Cagliari, Pró-Reitora de Graduação da Unesp

 

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