Como estimar a permeabilidade das estradas para o movimento da fauna?

texto ◘ Julia Assis

Conheça a proposta do Índice de Permeabilidade da Estrada

As estradas são uma das principais responsáveis pelo translado de pessoas e produtos ao redor do planeta. Neste cenário, estradas largas, bem asfaltadas e bem sinalizadas – permitindo, assim, velocidades maiores – são geralmente consideradas melhores. Mas se por um lado boas estradas nos permitem viajar longas distâncias em segurança, por outro, elas podem constituir verdadeiras barreiras para outros seres vivos. Isso porque elas podem dificultar ou impedir o movimento dos animais pelas paisagens, reduzindo a conexão entre áreas naturais e aumentando o risco de mortalidade da fauna por atropelamento.

Este tipo de mortalidade da fauna é difícil de ser estimado, e por isso constitui uma ameaça silenciosa. Segundo o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), a projeção é de cerca de 1,3 milhão de animais atropelados por dia no Brasil. A Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) registrou em 2016 cerca de 1,2 mil animais silvestres e domésticos atropelados em 6,9 mil quilômetros de rodovias.

 

Rodovia Fernão Dias próximo a cidade de Terra Preta/SP.

 

Ao longo de seu traçado, as características de uma estrada podem variar tanto em relação à sua estrutura (existência de túneis, viadutos, guard rails, etc) quanto à paisagem onde estão inseridas (relevo plano ou montanhoso, passando sobre rios, em trechos urbanizados ou remanescentes naturais, etc). Os cientistas já sabem que por conta dessas variações, as estradas podem atuar como barreiras ou como filtros para a movimentação da fauna, permitindo que alguns animais consigam atravessar em alguns pontos das estradas, mas não em outros. Essa variação do efeito das estradas é chamada de permeabilidade, e ela não é homogênea ao longo de seu traçado.

Os animais, por sua vez, percebem essas estruturas de maneiras diferentes. Os sapos e pererecas, por exemplo, para evitar a dessecação da pele, não se aproximam das superfícies de asfalto, uma vez que estas, geralmente, absorvem muito calor. Ao contrário, os lagartos, que têm sua temperatura corporal regulada pela temperatura do ambiente, podem ser atraídos para essas superfícies e correm um grande risco de serem atropelados. Alguns mamíferos tendem a fugir quando percebem a aproximação de carros e caminhões, enquanto outros apresentam o comportamento de “congelar”, ou ficar imóvel quando se sentem ameaçados, oferecendo risco inclusive aos usuários das estradas.

 

Rodovia Dom Pedro na altura da cidade de Nazaré Paulista/SP

 

 

São tantas reações e comportamentos possíveis que ainda não se sabe exatamente como cada grupo de animal ou cada espécie se comporta quando se depara com uma estrada e com o seu fluxo de veículos. Ao mesmo tempo, existem muitos especialistas em diversos grupos de animais que conhecem bem o comportamento deles, mesmo sem saber necessariamente como eles reagem às estradas.

A proposta do RPI
Considerando o conhecimento dos especialistas como uma fonte alternativa de informação, no caso de não haver dados empíricos disponíveis ou suficientes, a pesquisa propôs um método formal para incorporar esse conhecimento especializado em avaliações quantitativas da permeabilidade da estrada: o Índice de Permeabilidade da Estrada (com a sigla em inglês RPI). Essa proposta foi iniciada em colaboração com o professor da Unesp de Rio Claro Milton Cezar Ribeiro e posteriormente desenvolvida em um intercâmbio de curta duração na Universidade de Toronto, em 2013. No Canadá, o trabalho recebeu o auxílio do colega Henrique Giacomini, pós-doutorando na instituição canadense, e responsável pela proposição do cálculo do índice de permeabilidade da estrada.

 

Rodovia Fernão Dias próximo a cidade de Atibaia/SP

 

Para calcular o RPI, os pesquisadores combinaram o conhecimento de especialistas, com as características da paisagem e as estruturas da estrada. Este método constitui uma alternativa possível de ser replicada e facilmente adaptada para qualquer ambiente ou qualquer estrada.

O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC), que está localizado no câmpus de Rio Claro e desenvolve pesquisas nas áreas de ecologia espacial, ecologia do movimento, paisagens acústicas, ecologia da paisagem, restauração florestal e conservação da biodiversidade.

Como é calculado
O índice é calculado com base nas características da paisagem e da estrada em cada ponto ou trecho dela, ponderado pela influência de cada uma dessas variáveis sobre um determinado grupo de animais de acordo com a opinião de especialistas nesse grupo. Assim, um trecho da estrada pode apresentar características que facilitam ou dificultam a mobilidade dos organismos de um lado ao outro da estrada, e o resultado do RPI é a soma ponderada de tudo isso. Os autores do trabalho orientam que pelo menos três especialistas por grupo taxonômico devem ser consultados, a fim de minimizar a discordância das informações ou generalizações muito extremas.

O cálculo do índice pode ser usado, por exemplo, para identificar a melhor localização para se instalar passagens de fauna (que asseguram a conexão de um lado ao outro da estrada) ou cercamentos (para impedir o acesso de animais à pista e risco de atropelamento) e para diagnosticar trechos de interesse para o monitoramento da fauna. O RPI também pode ser testado em estudos de impacto ambiental para a construção de novas estradas ou para a duplicação e ampliação de rodovias já existentes, como uma forma rápida de avaliação de pontos estratégicos para otimizar a conectividade da paisagem para a fauna.

Na ausência de dados empíricos sobre o comportamento e a movimentação da fauna, os resultados do RPI podem ajudar a diminuir os impactos negativos das estradas sobre a movimentação da fauna e a mortandade dos animais. Ao mesmo tempo, a confiabilidade do índice pode ser testada e ampliada ao passo que os cientistas avançam no campo da ecologia de estradas, levantando dados empíricos e experimentais para entender melhor os impactos das estradas sobre a biodiversidade.

___________________

Julia Assis desenvolve sua pesquisa de doutorado com serviços ecossistêmicos, sob orientação do professor Milton Cezar Ribeiro, no Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC) na Unesp de Rio Claro. Ela orienta duas pesquisas de iniciação científica na temática de ecologia de estradas. O artigo foi publicado esse ano na revista internacional Ecological Indicators, da editora Elsevier <doi.org/10.1016/j.ecolind.2018.12.012>

 

Deixe uma resposta

*