Produção sintonizada com a natureza

texto ◘ Sérgio Santa Rosa

Pesquisas de grupo de Botucatu sobre fauna orientam empresas no manejo de florestas plantadas

A pujança do setor de árvores plantadas do Brasil impressiona. O país tem hoje 7,84 milhões de hectares de eucalipto, pinus e demais espécies para a produção de painéis de madeira, pisos laminados, celulose, papel, produção energética e biomassa. Além da utilização mais conhecida, na construção civil, nas indústrias moveleira e de papel e celulose ou na geração de calor e energia, as flores, frutos, galhos, cascas, madeira e resina podem estar presentes em alimentos, medicamentos, cosméticos, produtos de limpeza, tecidos, combustíveis, tintas e até mantas asfálticas.

Dados da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) mostram que o setor responde por cerca de 3,7 milhões de empregos diretos ou indiretos, com exportações que somaram cerca de 9 bilhões de dólares em 2017.

Para manter a fidelidade dos exigentes mercados internacionais, obter a certificação da produção é imprescindível. “Contratos só são fechados mediante a condicionante de que a madeira de eucalipto, pinus ou teca, por exemplo, seja oriunda de manejo florestal certificado. Mesmo internamente, as concorrências públicas de diversos estados do Brasil para fornecimento de móveis, divisórias e pisos de madeira ao setor público passaram a exigir a certificação”, comenta José Luiz da Silva Maia, engenheiro florestal formado pela USP e engenheiro de segurança ambiental formado pela Unesp, com cerca de quatro décadas de experiência.

 

Renata Cristina Batista Fonseca é professora do Departamento de Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, Câmpus de Botucatu

 

O reconhecimento do bom manejo florestal é certificado por programas e entidades como o Forest Stewardship Council (FSC) e o Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor).

Os principais aspectos considerados nos processos de certificação são: responsabilidade ambiental, condições de trabalho, cumprimento da legislação, compromisso social da empresa e garantia de continuidade dos negócios. Como parte importante da responsabilidade ambiental das empresas, estão as medidas de proteção a espécies da fauna e flora ameaçadas, quando identificadas nas unidades de manejo.

 

Osório Nascimento Neto, desenvolve em parceria com empresas do setor florestal o monitoramento junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal

 

Monitoramento da fauna
É recorrente em áreas de produção florestal a manutenção de fragmentos de vegetação nativa, por exigência da legislação ambiental e também para obedecer aos preceitos estabelecidos pelas certificadoras. Esse conjunto forma um mosaico vegetacional composto pela floresta plantada e a vegetação nativa. Monitorada, a presença da fauna silvestre nessas áreas é um importante indicador biológico da qualidade do manejo produtivo realizado pelas empresas. “Se há uma diminuição significativa nessas populações, é preciso investigar as causas. Pode ser uma consequência do manejo da empresa ou podem ser efeitos causados pelo entorno da área, como caça, mudança de usos do solo ou uso de algum produto químico na região”, explica a professora Renata Cristina Batista Fonseca, do Departamento de Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, Câmpus de Botucatu. “O monitoramento colabora para balizar as ações das empresas na tomada de medidas que minimizem os possíveis efeitos negativos do manejo florestal nas comunidades naturais.”

 

Ardea cocoi (Garça-moura)

 

Dentre os projetos de monitoramento realizados pela FCA em parceria com empresas do setor florestal está o mestrado do biólogo Osório Nascimento Neto, desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal. O trabalho tem como objetivo conhecer e monitorar as comunidades de aves em áreas pertencentes à empresa Lwarcell, nos municípios de Borebi e Cabrália Paulista.

O pós-graduando utiliza principalmente a metodologia conhecida como pontos de escuta. Ela determina que o pesquisador fique parado por um período de tempo num ponto da floresta identificando as aves pelo canto ou pela observação. Após esse período, ele se desloca para outro ponto suficientemente distante para garantir a independência dos dados e repete a observação. “É preciso ter muita atenção, pois você pode estar ouvindo mais de um indivíduo da mesma espécie ou um mesmo indivíduo que está se movimentando na área. Isso requer treinamento e equipamentos como um guia de aves, binóculo e gravador para registrar e, se não reconhecer as espécies, identificar posteriormente”, conta Nascimento.

Uma precaução imprescindível para a confiabilidade do trabalho é a realização da escuta em diferentes horários, pois cada espécie tem seu período mais ativo em uma hora do dia. Nascimento utiliza uma metodologia chamada de busca ativa ou levantamento exaustivo, em que o pesquisador se desloca pela área estudada em busca de animais que vocalizam pouco. “As aves têm repertórios, cantos característicos para a reprodução ou apenas vocalizações”, adverte.

 

Bando Himantopus melanurus

 

O pós-graduando explica que as áreas de mata adjacentes ao plantio abrigam uma comunidade de aves, definida como a reunião das populações de todas as espécies, com diferentes hábitos e exigências. “Algumas espécies são reconhecidamente exigentes, ou seja, só existem em florestas bem preservadas. Outras são mais flexíveis em relação a seu habitat e podem ser encontradas em áreas mais abertas ou na borda das matas. Procuramos saber quais as espécies presentes e o número relativo de indivíduos.”

Em Cabrália Paulista, a área monitorada é bastante impactada e isolada, e é possível notar que já ocorreu uma diminuição de espécies importantes. Por sua vez, a área estudada em Borebi faz parte da mata ciliar do Rio Claro e tem características de um corredor, que abriga espécies de mata e de borda de mata. “É uma faixa estreita e já impactada. Mas há muitas aves florestais, principalmente típicas de áreas de bordas, mas que, ainda assim são eficientes como bioindicadores”, relata Nascimento. “Em ambas as áreas, uma eventual diminuição das espécies é um indicativo de que o ambiente está mudando e então é preciso averiguar se o manejo da empresa tem relação com isso.” O pesquisador deve defender sua dissertação de mestrado ainda em 2019.

 

Heterospizias meridionalis (Gavião-caboclo)

 

Morcegos
A presença de morcegos constitui outra ótima ferramenta para estudos sobre a biodiversidade em áreas florestais. Eles são a segunda maior ordem de mamíferos em número de espécies e podem representar até 50% da fauna de mamíferos em florestas tropicais. Defendida em janeiro, a dissertação de mestrado de Moisés Guimarães, desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal sob orientação da professora Renata, investigou a ocorrência de morcegos em mosaicos vegetacionais formados por mata nativa e plantio comercial de eucalipto da Duratex, no município de Lençóis Paulista. O estudo incluiu a influência do corte de eucaliptos na comunidade de morcegos.

Guimarães capturou os animais utilizando as chamadas redes de neblina, instrumentos de captura de aves e morcegos para fins científicos. Foram utilizadas 40 redes de neblina de 12 metros de comprimento por 2,5 metros de altura.

 

Himantopus melanurus (pernilongo-de-costas-brancas)

 

Dos 42 dias de captura, metade foi feita após o corte raso do plantio de eucalipto estudado. O pesquisador encontrou morcegos de 20 espécies diferentes, incluindo quatro novas ocorrências para a região estudada: Artibeus planirostris, Eptesicus diminutus, Myotis ruber e Molossops neglectus.

O corte do eucalipto provocou uma mudança na comunidade de morcegos, com a diminuição da diversidade, aumento na população de algumas espécies e diminuição de outras. “As espécies G. soricina, E. diminutus, L. blossevillii e Myotis ruber foram capturadas apenas antes do corte. Platyrrhinus lineatus e M. rufus foram capturados apenas depois do corte e Sturnira lilium teve aumento significativo em sua população após o corte”, conta Guimarães. “Sabíamos que muito provavelmente a diversidade iria diminuir após o corte, pois ao retirar parte do plantio simplificamos o ambiente e, por conseguinte, a fauna local. Agora seria interessante realizar um estudo para saber se a fauna de morcegos voltará à mesma diversidade depois do crescimento do eucalipto nessas áreas.”

Empresas
Os dados dos trabalhos de Nascimento e Guimarães, assim como de outras pesquisas com monitoramento ambiental desenvolvidas na FCA são apresentados às empresas parceiras, como conta a professora Renata. “Nossos relatórios sempre incluem recomendações de manejo. Quando as certificadoras visitam as áreas, elas pedem esses trabalhos e discutem com as empresas a melhoria da gestão ambiental de suas áreas”, afirma.

 

Phaethornis eurynome (rabo-branco-de-garganta-rajada)

 

No relatório final de Guimarães, por exemplo, constam sugestões de medidas como o corte do eucalipto em diferentes faixas ou diferentes momentos. “Esse tipo de corte não retira toda a parte do plantio de uma única vez, corta pedaços isolados para evitar grandes aberturas de ‘clareiras’ na plantação”, explica.
Outras recomendações que podem ser feitas são a implantação de conexões ou corredores ecológicos para garantir a movimentação dos animais, o plantio de bordadura, ou seja, nas bordas de uma área para protegê-la, o reforço na vigilância para coibir a caça, a manutenção do sub-bosque (conjunto de vegetação de baixa estatura) do eucalipto ou enriquecer a área com espécies vegetais importantes para os animais, melhorando a qualidade do habitat para a fauna.

Segundo a professora Renata, apesar dos custos que representam para as empresas, medidas como a diversificação do mosaico florestal, a manutenção de corredores ecológicos e o corte feito em diferentes faixas já têm sido adotadas. “Temos um desenho de produção florestal muito mais harmonioso do que em décadas anteriores e há a preocupação de termos áreas naturais dentro das unidades de manejo florestal para, de alguma forma, garantir um nível de diversidade biológica”, assinala.

Maia concorda que a certificação contribuiu para a sensibilização do setor. “Hoje, a caracterização e o monitoramento da fauna silvestre são realizados pelas empresas do setor florestal dentro dos processos de licenciamento ambiental, para atender a requisitos das certificações, mas também por liberalidade da organização na busca por maior conhecimento do ambiente e de melhores práticas de manejo”, enfatiza.

Preservar para produzir melhor
A biodiversidade é responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas e fonte de um potencial enorme de uso econômico. Há razões éticas, estéticas, políticas e econômicas para preservá-la. O setor florestal, particularmente, tem razões funcionais para cuidar do tema. “Cada vez mais estamos percebendo que os serviços ecossistêmicos prestados por essas áreas naturais e suas comunidades de fauna silvestre são importantes para saúde dos plantios”, explica a professora Renata. “Há insetos polinizadores, dispersores de sementes, inimigos naturais que ajudam a controlar as pragas. ”

Maia corrobora a explicação. “O controle natural que as aves e os tatus exercem sobre as formigas cortadeiras, por exemplo, é emblemático. Sem esse controle natural haveria irreparáveis prejuízos à produção de madeira e seria necessário maior uso de pesticidas no controle da praga”, aponta.

Há trabalhos científicos publicados sobre o controle de pragas da cultura do milho por morcegos. “Estamos em vias de iniciar um projeto para tentar responder se os morcegos são capazes desse controle em plantios de eucalipto”, conta Guimarães. “O desequilíbrio ecológico ajuda a disseminar muitas pragas. Com as áreas naturais próximas, aumentam as chances de termos os predadores próximos e evitar o aumento de população de uma espécie de praga que possa causar um dano, seja para a agricultura ou para o setor florestal”, complementa a professora Renata.

 

Rostrhamus sociabilis (Gavião-caramujeiro) PLUMAGEM INDICA INDIVÍDUO JOVEM

 

Outro exemplo de atividade da fauna, segundo Maia, ocorre nas plantações florestais estabelecidas em áreas degradadas. “A revegetação com espécies nativas das áreas destinadas à preservação permanente e reservas legais tem sido promovida por espécies da fauna silvestre que dispersam as sementes dos frutos de que se alimentam, sem esse auxilio certamente os custos com os plantios de espécies nativas estariam sendo muito mais elevados”, comenta.

Para a professora Renata, as pesquisas contribuem para a valorização dos espaços naturais junto ao setor produtivo. “Há algum tempo havia uma forte dualidade entre o trabalho com produção e o trabalho com preservação. Hoje os dois lados se sensibilizaram. Apenas as unidades de conservação não são capazes de manter a diversidade biológica porque são poucas amostras remanescentes. Precisamos pensar nessa diversidade permeando os nossos processos nas áreas produtivas para convivermos de uma maneira mais tranquila. O diálogo entre os setores é fundamental”, argumenta.

___________________

 

Deixe uma resposta

*