Filosofia no Ensino Médio

texto ◘ Katherine Cortiana Fagundes e Paula Ramos de Oliveira

Pesquisa levanta o que os professores de filosofia esperam que os alunos aprendam nas aulas

Apresentamos o resultado de uma pesquisa de doutorado. Nela partimos do pressuposto de que o ensino de filosofia é necessário para a formação de sujeitos críticos, criativos e autônomos, e, a partir disto, nosso objetivo foi pensarmos sobre a experiência de ser professor de filosofia. Para tanto, entrevistamos professores de filosofia do nível médio do município de Pirassununga/SP, a fim de compreendermos quais são as finalidades que estes concebem à sua prática, ou seja, para que ensinam filosofia: pela utilidade ou pelo sentido? O nosso referencial teórico para pensarmos o conceito de formação está na escola de Frankfurt, mais especificamente nos textos de Theodor W. Adorno sobre Indústria Cultural, educação, formação e semiformação. As discussões relacionadas à filosofia, ao ensino de filosofia e ao aprender e ensinar filosofia foram desenvolvidas a partir das reflexões de Walter Omar Kohan e de Sílvio Gallo.

Introdução
Os professores, ao trabalharem determinados conteúdos nas diferentes disciplinas que compõem o currículo escolar, já sabem antecipadamente o que querem que os alunos aprendam. Por exemplo, ensinam-se o alfabeto e as famílias silábicas para que os educandos aprendam a ler e escrever; ensinam-se os números para que os alunos aprendam a resolver contas de adição, subtração, multiplicação, divisão, equações e problemas matemáticos; ensina-se história para que os alunos conheçam o passado para entenderem o presente e pensar sobre suas ações no futuro; mas, e quando se ensina filosofia o que se pretende? Ou melhor, o que os professores de filosofia do Ensino Médio esperam que os seus alunos aprendam nas aulas de filosofia?

A filosofia distingue-se de disciplinas como a história ou a física por apresentar poucos resultados consensuais: a maioria dos problemas centrais da filosofia continua em aberto. Não há respostas amplamente consensuais sobre se temos ou não livre-arbítrio, se Deus existe, quais são os fundamentos da ética, ou sobre a natureza da arte. Isto contrasta com a história, a biologia ou a física; nestas disciplinas há muitíssimos resultados amplamente consensuais. (MURCHO, 2008, p.80).

Na nossa pesquisa partimos da perspectiva compartilhada por Walter Omar Kohan e Sílvio Gallo que justificam o “para quê” do ensino de filosofia nas escolas a partir da premissa que interroga os seus sentidos. Deste modo, a filosofia – e o seu ensino – é necessária não como algo útil para se chegar a algum objetivo pré-estabelecido, como por exemplo a aquisição de determinados conhecimentos e/ou desenvolvimento de certas habilidades úteis para a inserção no mercado de trabalho, mas enquanto potência para o pensamento, para estimularmos e aperfeiçoarmos o pensamento, para refletirmos e questionarmos sobre o nosso pensamento, enfim, para experienciarmos o pensamento.

Assim, também motivados pelo pensamento adorniano, acreditamos que o ensino de filosofia enquanto experiência do pensamento contribui para a formação de sujeitos autorreflexivos, isto é, que pensam, refletem e problematizam as discrepâncias políticas, econômicas e sociais da realidade vigente a fim de evitarmos o retorno da barbárie. Para tanto, defendemos a tese de que o professor de filosofia precisa ele mesmo ter a disponibilidade em experienciar o pensamento, perguntando, questionando e problematizando o seu ofício. Neste sentido, nosso objetivo na pesquisa foi o de investigar a concepção de ensino de filosofia dos professores de filosofia do nível médio do município de Pirassununga/SP, a fim de compreendermos quais são as finalidades que estes concebem à sua prática, ou seja, para que ensinam filosofia: pela utilidade ou pelo sentido?

Por que e para que ensinar filosofia?
O município de Pirassununga localizado no interior de São Paulo possui um total de sete escolas públicas que oferecem o Ensino Médio são elas: Escola Estadual Nossa Senhora de Loreto; Escola Estadual Pirassununga, Escola Estadual Professora Osmarina Sedeh Padilha; Escola Estadual Professor Paulo de Barros Ferraz; Escola Estadual Professor Doutor René Albers; Escola Estadual Professora Therezinha Rodrigues e Escola Técnica Estadual Gustavo Klug Tenente Aviador. Foram entrevistados seis de um total de sete professores que lecionam filosofia nas referidas escolas. As perguntas feitas aos sujeitos entrevistados perpassaram indagações referentes à formação acadêmica; ao motivo que levou a escolha da profissão; a metodologia utilizada nas aulas e, finalmente, ao por quê e para quê ensinar a filosofia.

As respostas fornecidas pelos docentes deixaram-nos muito esperançosos, porque eles manifestaram confiança e convicção em relação ao por quê e para quê ensinar a filosofia, afirmando a potencialidade deste ensino enquanto contribuição para a formação de sujeitos críticos, criativos e autônomos. Neste sentido, para eles, o objetivo do ensino de filosofia não está direcionado à aquisição de um saber de conteúdos, de um saber para quê vinculado a uma utilidade mercadológica, materialista e profissionalizante, mas está na sua condição enquanto propulsora de outros-novos olhares; de outras-novas formas de pensar; de outras-novas maneiras de ser e estar no mundo; de outras-novas alternativas de vida e de viver como ser pensante e atuante em meio às inconstâncias de uma sociedade tão habituada a seguir e reproduzir parâmetros. Reproduzimos algumas delas a seguir:

(F. C. , 26 anos) – “O objetivo da filosofia no Ensino Médio é proporcionar ao aluno ir além daquilo que ele recebe. Por exemplo, como você vai aprender a ler? Lendo! Como você vai aprender a nadar? Nadando! E como você vai aprender a ir além do conceito? Primeiro, conhecendo os conceitos, e aí quando você se der conta, você vai estar formando novos conceitos e até questionando os que já existem. Porque o conhecimento só nasce a partir do momento que você pergunta, que você questiona; se não tem pergunta, não tem conhecimento, não tem resposta. E a necessidade da filosofia no Ensino Médio é justamente para isso, para o aluno aprender que tudo aquilo que ele aprende, aquela verdade, aquele conceito, não é pronto e isto eles vão levando para a vida prática deles.”

(F. P. , 39 anos) – “Para mim a filosofia é fundamental para os alunos poderem vivenciar o diálogo, a troca de experiências.”

(L. L. , 36 anos) – “Para que a filosofia no ensino médio: antes de falar da criticidade, primeiro de tudo, eu penso que a filosofia é necessária para tornar o aluno mais criterioso e autônomo, porque eu acho que a criticidade do aluno é o final, é o telos desse processo, é o ponto final. Então, eu acho que o aluno vai se tornando mais criativo, autônomo, vai aprendendo a argumentar, melhorando a retórica dele, a capacidade de dialogar, de pensar. Ele vai aprendendo a entender que quando você pensa, você pensa com juízo, você pensa com valores, o aluno precisa ter consciência disso. Eu acho que a filosofia vem para melhorar a imaginação do aluno, a criatividade. Então, para mim, a criticidade é a última parte; aí neste processo, o aluno vai se tornando crítico. Todo dia a gente está sendo mais ou menos crítico, eu acho que a crítica é um vir a ser. Então, eu penso que a filosofia é necessária, principalmente, para tornar o aluno mais autônomo, para ele saber que existem regras para o pensamento, porque quando eu quero argumentar dentro de um estado de razão, eu preciso de regras para isso. Eu posso defender qualquer coisa, mas eu preciso entender que isso é um valor, um juízo de valor, que está dentro de um contexto, de uma cultura.”

(A. P. , 41 anos) – “Eu acho que a filosofia, quando você volta na história, você vê que as ciências primas, as primeiras ciências humanas, elas são filosóficas, as outras vêm depois. A filosofia está na Matemática, está na Lógica, está nas Ciências, ela está em tudo, na forma de você ver e rever as coisas. Se a gente fosse pensar de uma forma bem simples, a filosofia é a mãe de todas as ciências. Você consegue identificar isso quando você articula vários conhecimentos. E ela antecede este conhecimento compartimentado que é fruto dessas modificações curriculares modernas e pós-modernas. Então assim, ela é uma forma de você conseguir trabalhar o conhecimento como ele é. Sem esta fragmentação. Ela é essencial para um aluno que quer aprender de verdade. Se você tem uma boa formação de filosofia no primeiro ano do ensino médio, no segundo ano do ensino médio, para ele entender os mecanismos do conhecimento, você consegue transformar esse aluno apático que vê a escola como um problema em alguma coisa além. Então, se a filosofia for aplicada ela é libertadora. Ela é a essência do conhecimento.”

(F. H. , 43 anos) – “Para mim a filosofia é o que liberta o aluno. Na escola, ela é uma disciplina que tem o poder da libertação da mente do aluno, das expectativas, de quem ele é, do posicionamento crítico que ele pode fazer, para ele pensar que ele não é só um ser ali ouvinte, copiador da lousa. Que ele pode mais! E que a filosofia está ali, na verdade, mais como uma provocação do que uma aula em si. É mais uma provocação! Olha, vamos pensar? Vamos usar a sua mente um pouquinho, pra gente refletir? O que você aprendeu de geografia? O que isto significa na sua vida? Eu acho que a filosofia está ali para despertar uma coisa que está adormecida na maioria dos professores e dos alunos, de modo geral, na rede, como um todo. Que é que a gente pode mudar as coisas. Parece que a gente está num sistema fadado, ruim e que precisamos permanecer nele. A gente não pára e pensa: Opa, está na hora de mudar!”.

(N. A. , 68 anos) – “Eu acho que a filosofia contribui para a formação ética e moral da pessoa e para mim a filosofia é necessária, aliás, não só no Ensino Médio – eu acho que ela deveria começar lá embaixo, nos anos iniciais, porque, de fato, ela é a única disciplina que realmente tenta formar um cidadão crítico, tenta alertar, tenta trazer as pessoas para viver em comunidade.”

Conclusão
Diante das argumentações dos professores entrevistados sobre o porquê da filosofia na escola, vimos o quanto eles acreditam na sua potência transformadora, nos seus sentidos enquanto propulsora de um devir, de um vir a ser, de uma transformação libertadora. Assim, concluímos a nossa pesquisa com o coração cheio de esperança e confiantes em dias melhores para a educação e para a sociedade civil como um todo, pois, apesar de todos os retrocessos educacionais, sociais, políticos e econômicos que estamos presenciando, existem ainda aqueles que acreditam no potencial de transformação da educação e com isso põem-se a pensar continuamente sobre a sua prática docente intervindo filosoficamente sobre ela; problematizando-a e questionando-a, a fim de possibilitar aos educandos um ensino de filosofia efetivamente filosófico. Deste modo, seguimos afirmando e reafirmando a necessidade do ensino de filosofia nas escolas e lutando para que este ensino possibilite encontros felizes e experiências significativas àqueles que aprendem e aos que ensinam para continuarmos gostando tanto dela assim.

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Este artigo é o desdobramento da tese de doutoramento de Katherine Cortiana Fagundes, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras – UNESP/Araraquara.

Paula Ramos é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar e do Departamento de Ciências da Educação, da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCL-UNESP-CAr). Katherine Cortiana Fagundes, sob a orientação da referida professora, concluiu o seu doutorado no ano de 2018 pelo mesmo programa. Atualmente esta trabalhando como gestora na EMEIEF “Catharina Sinotti”, localizada no município de Pirassununga/Sp.

 

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