Correspondência de Euclides da Cunha pode trazer revelações sobre o escritor

texto ◘ Adilson Roberto Gonçalves

Cartas ajudam a entender a conturbada vida pessoal do autor do clássico “Os Sertões”, homenageado da Flip 2019

Euclides da Cunha será o escritor homenageado na FLIP 2019. Uma escolha muito acertada, na opinião de Francisco Sodero Toledo, doutor em História, estudioso do autor de Os sertões e professor na USP, Câmpus de Lorena. Sodero avalia que se “trata, sem dúvida, de um dos mais notáveis escritores brasileiros, autor de uma obra inigualável, que revela o interior do país e o outro lado do homem brasileiro”.

A vida pessoal de Euclides ainda é tabu em muitos aspectos, ainda mais que seu relacionamento amoroso no casamento com Ana de Assis foi conturbado; o fato de Ana ter se casado com o próprio assassino do marido não é trivial. Hoje, descendentes de Euclides e de Ana dão seus depoimentos.

Um dos grandes mistérios na vida pessoal de Euclides são as supostas cartas trocadas com sua irmã Adélia. Janaína da Cunha, bisneta de Euclides, também escritora e mãe da atriz Kim Kamberlly, perguntada sobre as cartas, ficou intrigada. “Há cartas dele [Euclides] para vários escritores, amigos e personalidades da época, inclusive para o primo Nestor da Cunha. Mas, realmente, nunca ouvi falar de cartas para a irmã”.

Felipe Rissato, publicitário de formação e pesquisador por vocação, está ultimando um levantamento da correspondência que Euclides recebeu, em arquivos pessoais e públicos. “No meio de tantas cartas, assim como não nos chegou nenhuma dele à irmã, também não há nenhuma dela para ele”, pondera o pesquisador. “Encontrei apenas duas cartas do Octaviano, marido de Adélia, para o escritor. Entretanto, uma referência interessante está numa das primeiras cartas da coletânea, escrita pelo colega de farda Moreira Guimarães e datada de 6 de fevereiro de 1888, pertencente ao acervo da Biblioteca Nacional, na qual este se revela triste por saber de Euclides que Adélia estava doente à época”, completa Felipe, que lamenta não ter notícia da carta enviada por Euclides.

 

Capa do caderno de Anna de Assis. A caligrafia, segundo a família, é diferente da que consta no interior do documento.

 

O professor Sodero diz que as cartas de Euclides da Cunha evidenciam a “forma correta e mais clara de seus escritos por se tratar de textos confidenciais” e, também, “faz emergir a figura humana escondida entre as preocupações rotineiras com a profissão, a família e sua produção literária”. Sodero informa que em seus estudos usou muito dessa fonte “para procurar compreender o homem e a sua dimensão no tempo em que viveu em Lorena e percorreu o Vale do Paraíba”. Ele completa que foi “muito esclarecedor e enriquecedor”.

 

O caderno da esposa narra detalhes tórridos de sua vida conjugal, mesmo antes de a traição ser revelada. Na foto, Anna de Assis

 

O imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Secchin concorda que as cartas são relevantes para um conhecimento mais aprofundado do escritor, mas ressalva que “Euclides era uma pessoa reservada e não legou correspondência quantitativamente expressiva, embora talvez ainda haja material a ser descoberto”. Sua torcida é para que “se localize uma carta em que ele [Euclides] teça comentários sobre Os sertões”. Secchin recebeu um exemplar da terceira edição de Os Sertões de Euclides da Cunha, publicado em 1905, contendo anotações feitas por seu algoz, Dilermando de Assis, e publicou alguns desses comentários em janeiro de 2018.

A professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, Edna Cunha Lima, revela que a bisavó guardou cartas do marido, que era o tio de Euclides. Ele morou uns tempos com eles. “Tenho as cartas”, afirma. Lamenta, porém, que sejam “histórias que não têm mais as pessoas que contaram e viveram a experiência para contar”, o que não significa que não despertem interesse. Finaliza a conversa com um convite tentador: “Se vier ao Rio, te conto as fofocas familiares e te deixo escanear as cartas”.

Instigada pelos estudos que estão sendo divulgados sobre as cartas de Euclides da Cunha, a terapeuta Anna Sharp, neta de Ana de Assis – a viúva de Euclides da Cunha – e de Dilermando de Assis, que assassinou o escritor em 15 de agosto de 1909, é detentora do diário de sua avó. Ela afirma ter recebido o caderno das mãos de um desconhecido há cinco anos e desabafa: “Infelizmente o gênio literário era emocionalmente perturbado”.

 

A troca de tiros entre Euclides e Dilermando de Assis, ilustrada segundo a revista O Malho

 

Anna está escrevendo um livro já intitulado de Vozes do passado. Um trabalho que se tornou ainda mais difícil depois de ler o diário da avó, a quem foi muito ligada: “Me emociono demais!”, confessa. Questionada se pretende tornar públicas as intimidades da família, ela afirma que vai publicar o diário na íntegra dentro do livro. “Acho que ainda sigo viva apenas para terminar essa missão”, responde.

Há os riscos de adentrar a vida íntima de uma forma que nada contribui para o estabelecimento da obra literária, mas, com certeza, a vida amorosa de Euclides da Cunha é uma névoa. Independente das interpretações – e emoções – a publicação da íntegra do diário seria um ato sensato, altruísta e generoso. Mas o livro de Anna Sharp “vai andando aos poucos”, como afirma laconicamente.

Qual o futuro desse passado?
As cartas trocadas entre familiares retratam momentos íntimos, por muitas vezes desejosos de serem esquecidos. Sendo ao menos um dos interlocutores figura proeminente da história, da política ou da cultura, o documento sofre a transmutação da intimidade para a posteridade, caminho nem sempre desejado por aqueles que detêm aquela carta. A produção epistolar, no entanto, revela detalhes e estratégias de ação e de escrita que não ficam claros nos textos produzidos. E quando há as intrigas familiares, como as envolvendo Euclides da Cunha e Ana de Assis, tanto se torna mais instigante a missiva extraviada, quanto mais inapropriada à vista dos descendentes dos protagonistas.

A publicação da compilação de Rissato das cartas recebidas por Euclides e a marginália em Os Sertões poderão elucidar alguns aspectos da criação literária que essa garimpagem do passado impresso nos proporciona.

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Adilson Roberto Gonçalves é químico, pesquisador do IPBEN-Rio Claro e especialista em Jornalismo Científico

A Festa Literária Internacional de Paraty de 2019 (Flip 2019) será realizada de 10 e 14 de julho, sob a curadoria de Fernanda Diamant. Euclides da Cunha (1866–1909) será o escritor homenageado desta edição da feira.

 

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