Editora Unesp lança mais duas obras de Euclides da Cunha

texto ◘ Diego Moura

Do autor que será homenageado pela Flip 2019, chegam “Ensaios e inéditos” e “À margem da história”, ressaltando a atualidade do grande autor nacional

Reconhecido por sua obra Os sertões, cânone da literatura nacional, Euclides da Cunha reúne prolífica produção de ensaios, artigos e crônicas. A Editora Unesp têm se dedicado a aos leitores brasileiros textos menos conhecidos e até inéditos do escritor, casos mais recentes de Ensaios e inéditos e À margem da história. A unespciência conversou com o professor titular na área de Literatura e outras Produções Culturais na Unicamp Francisco Foot Hardman, coordenador do projeto de organização das obras. Confira trechos da entrevista:

unesp ciência Professor, eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre o livro Ensaios e inéditos. Em linhas gerais, o que o leitor vai encontrar nessa obra?
francisco foot hardman Esse livro reúne vários textos importantes do Euclides da Cunha, que foi, entre outras coisas, desde o começo da sua carreira como escritor, jornalista. Temos sempre de lembrar disso. Ele foi um cronista de jornais, fez matérias para vários jornais no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, ao longo da sua vida: desde a sua juventude até o seu desaparecimento. Então tem alguns desses textos mais importantes dele, algumas versões iniciais de ensaios que depois saíram em alguns livros importantes, como Contrastes e confrontos, entre outros. E são versões diferentes e que têm muito interesse para verificar o processo de escrita do Euclides da Cunha, que era uma pessoa não só de raríssimo valor literário, mas que era pessoalmente bastante obsessivo com a revisão e com a reescrita dos seus próprios textos.

 

À Margem da História; Euclides da Cunha; Porto, Livr. Chardron, de Lello & Irmão, 1909. 391p. il. Edição póstuma. (1. ed.)

uc E esses textos eram de difícil acesso?
hardman Sim, eram de difícil acesso. Alguns dos ensaios depois também foram publicados a partir das versões de jornais. E nunca houve desde as primeiras edições, no início do século XX, nenhum tipo de confronto dessas versões editadas em livros com os originais publicados inicialmente em jornais e revistas. O trabalho todo vai nessa direção. Algumas das fontes literárias e filosóficas, políticas mesmo, do Euclides da Cunha, a relação dele, por exemplo, com os ideários da Revolução Francesa, são alguns aspectos muito importantes que podem ser encontrados nesse volume. A organização dele foi feita, basicamente, pelos colegas Leopoldo Bernucci e Felipe Rissato. Eu participo da coordenação editorial do projeto como um todo.

uc E como nasceu esse projeto?
hardman Nasceu há dez anos, ou até mais já, quando nós estávamos finalizando o projeto de Poesia reunida (Unesp, 2009). Então lá mesmo na Califórnia, onde trabalha o professor Leopoldo Bernucci, eu mesmo propus a ideia de nós trabalharmos na direção de um volume reunindo inéditos.

uc Um ponto que a gente nota, olhando o Ensaios e inéditos, e também o mais recente, À margem da história, é a questão dos erros tipográficos, diferenças de versões etc. Eu gostaria de entender como se processou isso na edição dos dois livros.
hardman Falando sobre o À margem da história, é um volume de extrema importância. Na minha opinião, esse livro é um livro de importância equivalente a Os sertões, a grande obra prima do Euclides da Cunha.

 

Euclides da Cunha: poesia reunida;
Euclides da Cunha;
Leopoldo M. Bernucci (Org.), Francisco Foot Hardman (Org.);
Editora Unesp;
496 páginas

 

uc Por quê?
hardman Porque nesse livro, digamos assim, está sintetizado aquilo que ele pretendia e já tinha anunciado, desde 1904, para vários de seus correspondentes: um trabalho sobre a Amazônia, especialmente na sua grande viagem por lá em 1905, que seria sua segunda vingança contra o deserto. Qual teria sido a primeira? Os sertões. A segunda vingança seria esse livro sobre “os sertões amazônicos”. Porque a ideia de sertão, que devemos muito a Euclides, a sua popularização na linguagem moderna da cultura brasileira, lá na origem está associada não necessariamente ao sertão seco, mas também ao sertão “úmido”, florestal, como era o caso dessa selva amazônica, em grande parte considerada desconhecida. Vários fatores levaram a que Euclides adiasse esse projeto e ele foi então produzindo, desde 1904, vários ensaios – ele viajou em dezembro de 1904 e retornou em janeiro de 1906. Portanto, 1905 é o ano básico dessa longa estadia como enviado especial do governo brasileiro, representante na comissão mista Brasil-Peru de demarcação de terras e limites. Havia conflitos enormes na fronteira que poderiam levar a uma nova guerra, como a guerra do Acre, na fronteira com a Bolívia.

uc Então era um ambiente de tensões.
hardman Sim, havia riscos enormes. Tudo isso ligado à expansão do ciclo da borracha e o Euclides foi lá em uma missão diplomática, na verdade. Mas, ao mesmo tempo, como engenheiro, cientista e como escritor, antes de mais nada, ele pretendeu fazer um grande reconhecimento dessa região. A região do Alto Rio Purus, que é um dos afluentes importantes do Amazonas, era grande parte desconhecida. Tinha mapas que remontavam ao período colonial e particularmente ao século XIX e eram imperfeitos. Euclides também produziu uma correção de toda essa parte cartográfica. Esse é o pano de fundo. Ele escreveu artigos, ensaios, cartas e foi juntando esses materiais. E de fato nós tivemos uma reunião de ensaios e de narrativas, e de crônicas, e de alguns textos que até se assemelham a contos. O Euclides não conseguiu dar ao À margem da história uma narrativa que ele havia conseguido imprimir quando da sua grande narrativa sobre a Guerra de Canudos. Mas isso não diminui a importância, mas ao contrário. Eu diria que até torna mais complexa e interessante, não só pelas razões dessas dificuldades mas também pelo resultado, muito interessante.

 

Ensaios e inéditos;
Euclides da Cunha;
Leopoldo M. Bernucci (Org.) e Felipe Pereira Rissato (Org.),
Editora Unesp;
460 páginas

 

uc O livro saiu em 1909?
hardman Sim, o Euclides, em 1909, decidiu pela publicação do livro tal qual nós o conhecemos. Ele estava fazendo sua segunda revisão, ali pelas alturas de junho, julho de 1909, e lamentavelmente sua morte prematura impediu que ele concluísse essa segunda revisão. O livro saiu postumamente em dezembro com uma nota da editora dizendo que não tinha sido possível ele ter visto as últimas provas etc. Então essa primeira edição já tem problemas de variadas ordens: trechos truncados, erros tipográficos etc. Há até uma pequena errata, que eu chamo de pequena porque ela não dá conta de muitos problemas de texto que existem nessa edição. As dezenas de edições e reimpressões que saíram ao longo do século XX e mesmo no início do século XXI não deram conta disso. Nunca houve esse trabalho. Então, modéstia à parte, o trabalho de Bernucci, Rissato e eu é o primeiro trabalho de edição e revisão crítica.

uc E como foi feito esse trabalho?
hardman O que foi feito foi confrontar todos os textos, todos os capítulos desse livro com as suas versões anteriores, basicamente publicadas em jornais e revistas. Todas elas tiveram versões publicadas em jornais e revistas. Mas, é claro, da versão publicada em jornal ou revista para um manuscrito pode ter um problema. E manuscritos originais, infelizmente, completos e integrais nós não achamos. Eu achei no ano 2000, ainda na Universidade de Berkeley, por meio de colegas da Universidade de Stanford, no acervo de livros raros de lá, um caderno fantástico do Euclides da Cunha, que foi contrabandeado do Brasil, porque é patrimônio histórico. São esboços de vários textos de vários capítulos do livro.

uc É surpreendente que tenha ido parar nos EUA.
hardman Pois é, foi vendido, eu diria até ilegalmente, não se pode fazer, porque é documento primário, foi arrematado lá por um livreiro etc. e foi levado para as obras raras de Stanford. Se o Brasil cuidasse mais do seu patrimônio era o caso até de solicitar a repatriação disso. É mais um caso de falta de preocupação com o patrimônio. O álbum fotográfico fundamental da viagem de Euclides pela Amazônia, feito por um primo dele, foi roubado do arquivo histórico do Itamaraty.

uc Quais outras fontes foram utilizadas?
hardman Fomos atrás desses jornais. O Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, um dos principais do Brasil, há várias edições de alguns dos trabalhos publicados e nós checamos. Algumas dessas coleções estavam disponíveis no Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional, da Unicamp etc. Foi um trabalho longuíssimo.

 

Os Sertões;
Euclides da Cunha;
Campanha de Canudos;
Rio de Janeiro; Laemmert & Cia., 1902; 632 p. ilustr.

 

uc E, por fim, há atualidade na obra de Euclides da Cunha? Como podemos olhar para esses temas tratados por ele à luz do século XXI?
hardman Esse livro, À margem da história, por isso que eu digo que é certamente de importância equivalente a Os sertões. Vou dar algumas razões para isso, que eu considero da mais relevante atualidade. Primeiro, o ponto de vista socioambiental. É um livro que está completamente focado na destruição da Floresta Amazônica, como a cobiça, os interesses capitalistas de expansão do ciclo da borracha levam à destruição do meio ambiente e dos seres humanos. O Euclides está muito atento a isso. Além do que, ele se deu conta, com todo seu espírito nacionalista, e mesmo como representante do Estado Nacional Brasileiro, era muito complicada essa questão das fronteiras nacionais em relação a uma região que era internacional, porque a Amazônia não se restringe a um país – hoje, aliás, sob forte ameaça. Ele se deu conta dessa questão. Outro ponto é o socialismo. Euclides da Cunha ao ver a situação de escravidão dos trabalhadores do seringal, ele se torna um defensor radical, eu diria, de uma legislação do trabalho e de um programa social e político que se aproxima muito do que os partidos sociais-democratas, novos naquele momento, estavam propondo. Em vários textos ele avança sobre esse tema.

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