Renovação do patrimônio

texto ◘ Adalberto Retto Jr

foto ◘ © Acervo da Prefeitura Municipal de Amparo www.amparo.sp.gov.br

Entenda nesta entrevista a metodologia usada para organizar os espaços históricos de amparo, no interior paulista

UNESP CIÊNCIA Em primeiro lugar, acho que seria interessante uma breve apresentação sobre o patrimônio histórico de Amparo – SP e explicar como se deu a aproximação do município com a FAAC/Unesp: unesp ciência Em primeiro lugar, acho que seria interessante uma breve apresentação sobre o patrimônio histórico de Amparo – SP e explicar como se deu a aproximação do município com a FAAC/Unesp:
ADALBERTO RETTO JR. A re(visão) do plano de tombamento da cidade de Amparo – SP, efetuada pela equipe designada pelo Condephaat (2016), foi composta pelos conselheiros Adalberto da Silva Retto Junior e Ana Luiza Martins, e pelos membros da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico (UPPH) Valéria Rossi Domingos, Elisabete Mitiko Watanabe, Lara Melo Souza, José Antônio Chinelato Zagato e Sarita Genovez. Partindo de uma demanda específica da Prefeitura Municipal de Amparo, a ação objetivava revisar o tombamento de conjunto da cidade, em função de questionamentos que transcendiam o caso de estudo específico e eram centrais dentro de uma complexa reflexão sobre a valorização do patrimônio de cidades pequenas, programas de modernização urbana e novos processos de desenvolvimento territorial.

Trata-se de contribuição inovadora sob dois aspectos. No quadro dos estudos urbanísticos, partiu-se da categoria morfotipo, utilizada como unidade analítica e também propositiva, como forma de valorizar a inserção histórica de cada elemento na paisagem e, ao mesmo tempo, administrar a dinâmica das transformações de longa duração. Sua natureza multiescalar e polifuncional seria a base para se “construir a cidade sobre a cidade”, colocando no centro da investigação a urgência de se (re)pensar o patrimônio para uma cidade durável.

No âmbito do Condephaat: como frisou a vice-presidente do órgão, arquiteta Valéria Rossi, ao compor uma equipe mista com conselheiros ligados à universidade e membros do próprio órgão, desenvolveu-se um método de trabalho, até então inédito na própria instituição, e que se aproxima de uma “Câmara Técnica”. Entretanto, tal experiência foi muito próxima àquela que vivenciei como pesquisador visitante no Master Erasmus Mundus TPTI (Techniques, Patrimoine, Territoire de l’Industrie: Histoire, Valorisation, Didactique) na Universitè Paris I Panthéon-Sorbonne.

 

Igreja da Matriz, Amparo– SP, 1910. Acervo do Museu Histórico Bernardino
de Campos © Acervo da Prefeitura Municipal de Amparo www.amparo.sp.gov.br

 

UC Pode explicar brevemente o que são os tais “morfotipos”?
ADALBERTO A abordagem que utiliza Morfotipo Urbano como categoria repensa o patrimônio à luz desse aspecto que coloca como centro do debate urbanístico a ação de requalificação da cidade, em lugar de partir da revitalização nos moldes tradicionais. Do ponto de vista urbanístico, é pensar o patrimônio histórico no seio do projeto da cidade contemporânea: de “bem cultural” e “bem econômico”, à “bem produtivo”. Isso significa uma grande mudança conceitual, na qual o plano de valorização não só funcionaria como instrumento regulador e normativo dos espaços, mas ainda como promotor de desenvolvimento envolvendo o tecido da cidade nas várias formas de regeneração urbana, incorporando princípios de Renovação, Reutilização e Reconversão do Patrimônio (os três Rs).

Tal abordagem objetiva reorganizar o espaço com base em novos princípios e em lógicas de desenvolvimento típicas dos centros de cidades, cuja ideia de recuperação englobaria todos os assuntos que afetam a densidade populacional, a diversidade, a energia ou capacidade de adaptação, a partir de novos modos coletivos.

Dentro desse quadro, com relação às questões de regeneração, novos aspectos emergem como balizadores da proposta: a inovação colocada no centro do debate, não só do ponto de vista construtivo-tecnológico, mas principalmente do social, jurídico e financeiro. Esses pontos de vista poderão ser a prova clara do que realmente pode ocasionar mudança de ritmo, alteração nos caminhos para o desenvolvimento de uma cidade, tomando por base a capacidade de instalar um verdadeiro laboratório para pensar o futuro.

 

Mercado Municipal Fundado em 1912, o Mercado Municipal de Amparo passou por uma grande obra de manutenção e de restauro © Acervo da Prefeitura Municipal de Amparo www.amparo.sp.gov.br

 

Vale ressaltar que o percurso que coloca a metodologia do Morfotipo Urbano como categoria que viria questionar parâmetros consolidados no âmbito da preservação de conjuntos urbanos, como entendido pelo Condephaat por ocasião da Revisão do Tombamento de Conjunto da Cidade de Amparo, inicia-se, na realidade, à luz da discussão que repensa o papel dos “centros históricos” no projeto da cidade contemporânea.

A compreensão e a tomada de consciência de que “a cidade que se lê é aquela na qual se atua” levou-nos a pensar os edifícios, não de forma isolada, mas explorando relações de proximidade e de vizinhança com o entorno, promovendo reinserção paisagística dos bens tombados, observando o diálogo com os usos e as várias camadas de tempo da cidade contemporânea, a partir da concepção de uma ideia de composição urbana (Morfotipos Urbanos).

Assim, as simulações espaciais de recolocação paisagística de cada elemento arquitetônico devem ser normatizadas, não só do ponto de vista do restauro do edifício e de uma simples mudança de uso, mas com formulações capazes de influir sobre as iniciativas dos outros sujeitos públicos e privados. Portanto, a constituição material dos projetos isolados, agregados por homogeneidade, torna-se um “dispositivo” do plano de tombamento, para um itinerário da ocupação futura em um tempo mais longo.

O Morfotipo Urbano possui, portanto, função organizadora, que é primordial para gestão das relações (ou conflitos) entre usos, tempos e espaços, a partir de uma ideia de composição urbana que considera a transformação da cidade dentro de uma visão estratégica complexa; é um instrumento de regulação baseado em parâmetros técnicos, visando resolver uma “equação espaço-temporal”. Entre os diversos dispositivos e operações projetuais, talvez a construção de cenários baseados na formulação dos Morfotipos Urbanos provoque momentos nos quais o projeto possa apresentar-se com maior clareza, sequência coerente e hipóteses futuras explícitas.

 

A abordagem que usa morfotipo objetiva reorganizar o espaço com base em novos princípios e em tópicos de desenvolvimento típicos dos centros de cidades

UC O que envolve a metodologia empregada em Amparo, e qual a importância de o Condephaat referendá-la?
ADALBERTO A base da investigação que colocou a categoria Morfotipo Urbano no centro do debate tem na sua origem uma interrogação tipomorfológica baseada no lastro operativo característico da Escola Morfológica Muratoriana (Veneza, It) que, a partir dos anos de 1950, se ligava aos questionamentos de superação dos princípios da Carta de Atenas e redescoberta de uma “nova urbanidade”. Esta linha de investigação, tipologia e estudo tipológico explora a relação entre forma da cidade (e do território) e planificação urbana e territorial, e colocou a tipologia como instrumento para o estudo dos fenômenos urbanos. Na linha do estudo tipológico, há uma clara indagação projetual que busca entender a lógica das disposições espaciais mais do que sua aparência formal.

Dado que a cidade contemporânea é uma cidade formada por acúmulo de tempos (CORBOZ, 1983:33), o grande desafio do início dos trabalhos, em Amparo, foi o de explorar as camadas de tempo e as coerências espaciais da arquitetura, em sua inserção urbana e territorial, buscando entender as consequências nas operações de regeneração e requalificação, muito mais de que as coerências temporais.

 

O grande desafio do início dos trabalhos, em Amparo, foi o de explorar as camadas de tempo e as coerências espaciais da arquitetura

 

Porém, a entrada do projeto nesse cenário permite apresentar a lógica quantitativa da acumulação das coisas e a coerência qualitativa de sua “disposição” (localização), que consiste em dar ao projeto o valor exploratório da especificidade e potencialidade dos lugares, e também apontar a viabilidade das escolhas. Portanto, não se trata somente de colocar empecilhos ou limites, mas de inovar com os novos modelos de natureza espaço-temporal que produzam ambientes originadores de tempo e valor estético.

O fato de o Condephaat ter chancelado tal metodologia não significa que as indagações tenham cessado, pois as diversas perspectivas de estudo e de intervenção não parecem, no entanto, estar em condição de serem resolvidas de forma completa. Como descrito acima, a noção de Morfotipo Urbano possui variantes, que demonstram diferentes registros e contextos de ação e colocam as experimentações em torno do patrimônio como recurso estratégico para o desenvolvimento.

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