Uma história moral no mundo luso-brasileiro

texto ◘ Jean Marcel Carvalho França

imagem ◘ Império luso-brasileiro no século XVIII. “Coroação de D. Pedro I” (1828) é uma das famosas aquarelas do pintor francês Jean-Baptiste Debret

Conheça o trabalho do grupo de pesquisa nascido na Unesp que reúne escritos do século XIII ao século XIX

Em que medida os princípios que orientam as ações do brasileiro e o seu modo de organizar a vida social são devedores do cristianismo lusitano? É possível traçar uma história da construção dessa moral cristã, dos caminhos que a trouxeram à colônia portuguesa da América e dos contornos que adquiriu aqui, neste mundo novo? Qual a extensão e a duração de sua presença? Ainda é possível notá-la neste Brasil do século XXI? Foi em busca de respostas para essas e outras indagações correlatas que, há quase uma década, em 2011, nasceu o grupo de pesquisa Escritos sobre os novos mundos.

A princípio, tínhamos propósitos muito modestos: pretendíamos organizar uma base de dados, contendo escritos em língua portuguesa (manuscritos e impressos) produzidos entre os séculos XIII e XIX, que pudessem ser úteis para a composição de uma história da moral luso-brasileira. Instalado no Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa Histórica (CEDAPH), laboratório vinculado ao Departamento e à Pós-graduação de História da Unesp (Franca), e apoiado pelo CNPq, pela FAPESP e pela PROPG, o grupo, ao longo de um triênio, montou as bases de um detalhado banco de dados – que continua a ser alimentado e a incorporar novas temáticas – dividido em quatro áreas de interesse: a) escritos relativos ao processo de expansão marítima portuguesa e ao início de colonização das terras de além mar (a leste e a oeste), redigidos entre os séculos XIII e XV; b) escritos com menções à colônia americana, publicados em Portugal entre os séculos XVI e XVIII; c) escritos sobre a escravidão, sobretudo aqueles relativos às suas implicações jurídicas e religiosas, vindos a público entre os séculos XVII e XIX; d) e escritos de literatos (críticas e romances) e historiadores editados ao longo do século XIX. Os resultados deste período de implantação, que vão para além do banco de dados, podem ser melhor conhecidos no site mantido pelo grupo e por meio das publicações de seus membros entre 2012 e 2015 (ver quadro).

Em 2015, diante dos resultados obtidos, o grupo resolveu mudar a sua estrutura e pretensões: incorporou novos membros, alterou a dinâmica de encontros – que se tornaram mais regulares e passaram a receber convidados externos para debates –, integrou as pesquisas realizadas pelos seus membros e respectivos orientandos e colaboradores (graduandos, mestrandos, doutorandos, doutores e pós-doutorandos), montou um projeto temático e, finalmente, obteve a chancela da FAPESP (Processo: 2013/14786-6). A partir de então, paralelamente a um intenso trabalho de formação de novos pesquisadores e de estabelecimento de parcerias com grupos e instituições de pesquisas estrangeiras (portuguesas e francesas, sobretudo), temos atuado em três frentes.

 

O mapa-múndi que representa os dois hemisférios conhecidos o Oriente e o Ocidente, extraídos dos quatro mapas gerais do falecido professor Hosius, de 1746.

 

A primeira delas é o site e o banco de dados aí disponibilizado, que são, desde a criação do grupo, constantemente atualizados (inclusão de novos itens nos quatro acervos existentes, divulgação de eventos, livros, palestras, etc.) e ampliados (criação de novos acervos e serviços). Ambos permitem que coloquemos à disposição dos interessados (especialistas e não especialistas) informações sobre as pesquisas e atividades dos membros (publicações, conferências, eventos, vídeos, programas de rádio, etc.) e cópias da documentação utilizada nas pesquisas que temos desenvolvido. Permitem também que exploremos meios ainda pouco usuais nas humanidades para dar a conhecer o material bruto utilizado pelos historiadores nas suas pesquisas, os documentos. A propósito dessas possibilidades de interação com o público, vale mencionar duas experiências que estamos em vias de realizar. Lançaremos, em breve, em formato livro, uma edição crítica do catálogo de uma biblioteca do Brasil colonial (1766) com cerca de 3 mil títulos; o leitor que quiser conhecer os livros listados no catálogo poderá recorrer ao site do grupo, onde encontrará links para acessar cópias digitais da quase totalidade deles. Outra experiência que estamos em vias de realizar diz respeito a um catálogo jesuíta setecentista de receitas médicas, intitulado Coleção de várias receitas e segredos de nossa Companhia…, a ser lançado também em 2019 pela Edições Loyola. O manuscrito original traz muitas imagens curiosas que, lamentavelmente, se reproduzidas no livro, encareceriam demasiado a edição. Optamos, então, por colocá-las à disposição do interessado no site do grupo, como uma espécie de anexo eletrônico do livro. Tais experiências ainda estão no início, mas serão intensificadas com a reformulação do site que estamos promovendo.

 

Dois volumes abriram a coleção, lançada em novembro de 2018 e disponível para download gratuito no site da Cultura Acadêmica

 

A segunda frente são as pesquisas individuais e coletivas do grupo. Temos optado, sempre pensando na ampliação do público consumidor de história, por divulgá-las por meio de livros, autorais ou coletivos. Destaca-se, na já longa série de estudos publicados (ver quadro), de um lado, a pluralidade de temas relativos à constituição de uma moral luso-brasileira (cuidados com corpo e com o espírito, relações com a morte e com o pecado, conduta das mulheres cristãs, normas para o trato dos escravos, formação intelectual dos colonos, hábitos da vida urbana, princípios de governação, etc.), de outro, a complementariedade que guardam entre si, integrando uma história variada – com muitos detalhes – e de longa duração das condutas e da sua regulação no mundo luso-brasileiro.
A terceira e última frente, que atualmente tem absorvido a maior parte dos nossos esforços, são as reedições e edições críticas de obras raras e de manuscritos produzidos em língua portuguesa, dos lados de lá e de cá do Atlântico, entre os séculos XIII e XVIII. Desde a sua criação, o grupo tem se dedicado a tão importante atividade, todavia, a partir de 2018, ela ganhou constância e sistematicidade: demos início à coleção Memória Atlântica, uma parceria do grupo com a FEU (Fundação Editora da Unesp) e com a Academia Portuguesa da História, que tem como propósito oferecer gratuitamente ao público, especializado ou não, acesso a edições digitais de documentos e obras raras da cultura luso-brasileira.

Dois volumes abriram a coleção, lançada em novembro de 2018 e disponível para download no site da Cultura Acadêmica (vide quadro): o Tratado sobre Medecina que fez o Doutor Zacuto para seu filho levar consigo quando se foy para o Brazil. Disposto e Copeado por hordem de Ishack de Matatia Aboab, escrito em 1540 por B. Godines, um manuscrito inédito preparado pelos historiadores Ana Carolina Viotti e Gabriel Ferreira Gurian; e o Ensino Cristão, um manual catequético de 1539, editado e comentado pelo historiador Leandro Alves Teodoro.

Mais dois títulos virão a público: A Livraria de Frei Gaspar da Madre de Deus (1766), um catálogo também inédito, contendo a mais detalhada descrição do acervo de uma biblioteca colonial brasileira de que se tem notícia, preparado e introduzido pelo historiador Jean Marcel Carvalho França; e o Breve compêndio e declaração de Gutierrez de Torres de Toledo contidos no Sumário das maravilhosas e espantáveis coisas que aconteceram no mundo, uma obra de 1524, escrita em espanhol, mas muito consultada na Portugal quinhentista; a versão portuguesa foi traduzida e introduzida pela historiadora Simone Ferreira Gomes de Almeida.

Eis um pouco do que fazemos. Esperamos que se interessem e que prestigiem os trabalhos do grupo; pois quem dá sentido ao ofício de historiador são os leitores.

 

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QUADRO

ESCRITOS SOBRE OS NOVOS MUNDOS: UMA HISTÓRIA DA CONSTRUÇÃO DE VALORES MORAIS EM LÍNGUA PORTUGUESA <http://Unesp.br/escritos/>

membros
pesquisadores principais
Dr. Jean Marcel Carvalho França (coordenador) (FCHS – Unesp)
Drª Susani Silveira Lemos França (FCHS – Unesp)
Dr. Ricardo Alexandre Ferreira (FCHS – Unesp)
Drª Maria Cristina Correia Leandro Pereira (FFLCH – USP)

outros pesquisadores
Historiógrafa (Doutora): 1
Pós-doutorandos: 4
Doutores: 5
Doutorandos: 18
Mestrandos: 7
Graduandos em Iniciação Científica: 8

alguns títulos para conhecer as pesquisas do grupo
FRANÇA, Jean Marcel Carvalho; VIOTTI, Ana Carolina Carvalho. Coleção de várias receitas e segredos de nossa Companhia […] (No prelo). São Paulo: Edições Loyola, 2019.

ALMEIDA, Simone F. G. Influxos do céu na existência dos homens. Uma história das Previsões. São Paulo: Unifesp, 2018.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. Ilustres Ordinários do Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2018.

SANTOS, Clara Braz dos. O exercício moral de memória da morte. Escritos religiosos do Brasil colonial. São Paulo: Unifesp, 2018.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho; SILVEIRA, Milena P. (Org.). Por escrito. Lições e relatos do mundo luso-brasileiro. São Carlos: EdUFSCar, 2018.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. História da maconha no Brasil. São Paulo: Três Estrelas, 2 ed., 2018.

ALVARADO, Thiago H. Vestidas e afeitas para serem virtuosas: as mulheres na Castela dos séculos XIV e XV. São Carlos, SP: EdUFSCar, 2017.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho; FERREIRA, R. A. Etíope resgatado, empenhado, sustentado, corrigido, instruído e libertado. (Edição preparada, introduzida e comentada por Jean Marcel Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira). São Paulo: Editora da Unesp, 2017.

FRANÇA, Susani Silveira Lemos; NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa; LIMA, Marcelo Pereira. Peregrinos e peregrinação na Idade Média. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. – (Série A Igreja na História).

VIOTTI, A. C. C. As práticas e os saberes médicos no Brasil colonial (1677-1808). São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2017. 210p.

PEREIRA, Maria Cristina C. L. Pensamento em imagem. Montagens topo-lógicas no claustro de Moissac. São Paulo: Intermeios, 2016.

TEODORO, Leandro Alves. Lições para o homem casado. Portugal – sécs. XIV-XVI. São Paulo: Editora Unifesp, 2016.

FRANCA, Susani Silveira Lemos. Mulheres dos outros. Os viajantes cristãos nas terras a oriente (séculos XIII-XV). São Paulo: Editora da Unesp, 2015.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho; HUE, Sheila M. Piratas no Brasil: as incríveis histórias dos ladrões dos mares que pilharam nosso litoral. São Paulo: Editora Globo, 2014.

MAINENTE, Renato Aurélio. Música e Civilização: a atividade musical no Rio de Janeiro oitocentista (1808-1863). São Paulo: Alameda, 2014.

GAGLIARDO, V. C. Uma Paris dos trópicos? Perspectivas da europeização do Rio de Janeiro oitocentista. São Paulo: Alameda, 2014.

GONÇALVES, Rafael Alonso. Cristãos nas terras do Cã. As viagens dos frades mendicantes nos séculos XIII e XIV. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

FRANCA, Susani S. L. Questões que incomodam o historiador. São Paulo: Alameda, 2013.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. Viajantes estrangeiros no Rio de Janeiro Joanino (1809-1818). Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2013.

SOUZA E SILVA, Michelle. Ler e ser virtuoso no século XV. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

Coleção Memória Atlântica
<http://www.culturaacademica.com.br/categoria-produto/historia/>

ALMEIDA, Simone Ferreira Gomes de. Breve compêndio e declaração de Gutierrez de Torres de Toledo contidos no Sumário das maravilhosas e espantáveis coisas que aconteceram no mundo (No prelo). 1. ed. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2019. Coleção Memória Atlântica, vol. 4.

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. A Livraria de Frei Gaspar da Madre de Deus (No prelo). 1. ed. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2019. Coleção Memória Atlântica, vol. 3.

VIOTTI, A. C. C.; GURIAN, G. F. (Org.). Tratado sobre medicina que fez o Doutor Zacuto para seu filho levar consigo quando se foi para o Brasil.1 ed. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2018. Coleção Memória Atlântica, vol. 2.

TEODORO, Leandro Alves. Ensino Cristão (Edição, estudo e notas). 1. ed. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2018. Coleção Memória Atlântica, vol. 1.

 

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