O momento literário

texto ◘ Genira Chagas

Coletânea de entrevistas com escritores publicada no século XX resgata o papel da imprensa como suporte para as produções literárias

O momento literário, obra de João do Rio lançada em 1909 pela Garnier, foi reedita neste 2019 por Rafael Copetti Editor. A ideia de organizá-la é das professoras Silvia Maria Azevedo e Tania Regina de Luca, ambas da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp, Câmpus de Assis, após terem oferecido um curso de pós-graduação em que trabalharam temas das disciplinas de História e Literatura. O objeto de estudo do curso foi a imprensa como suporte para as produções literárias. “É quase impossível pensar o campo intelectual brasileiro do começo do século XX sem levar em conta a imprensa,” diz Tania de Luca. “Particularmente O momento literário nos interessou porque o trabalho de João do Rio colocou os escritores como personagens da narrativa,” enfatiza Silvia Azevedo.

O livro é uma coletânea de 36 entrevistas, realizadas com importantes escritores brasileiros no decorrer do ano de 1905, originalmente publicadas no conceituado jornal Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro. Ter a intimidade dos literatos como foco da informação era uma novidade aqui nos trópicos. Nesse sentido, o escritor fluminense inspirou-se no trabalho do jornalista francês Jules Huret, que em 1891 realizou para o jornal L’Écho de Paris uma série de entrevistas com importantes escritores, publicadas no ano seguinte no livro Enquête sur l’évolution littéraire, a fim de averiguar, desde problemas sociais de seu país, até as tendências do campo literário. Com esse projeto, a que chamou de “reportagem experimental,” Huret destacou-se no cenário midiático da época.

João do Rio, pseudônimo do escritor João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, deu a mesma denominação para sua série de entrevistas. Ele justificava a iniciativa afirmando que “a imprensa que fala de toda gente, só não falou ainda dos literatos. Entretanto nós somos um país de poetas!” Para o escritor e jornalista carioca, o interesse do público não eram as obras, mas a vida dos autores.

 

João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (João do Rio), em 1909

 

Os convites aos literatos acerca do inquérito foram enviados por carta. As respostas foram colhidas por carta ou pessoalmente. Os escritores que aceitaram o chamado figuravam entre os nomes de grande prestígio na época, embora muitos deles estejam totalmente esquecidos na atualidade. Coroada de sucesso, a iniciativa pioneira de João do Rio foi bem aceita pela prestigiosa editora Garnier, que quatro anos depois publicou em livro as entrevistas com Coelho Neto, João Ribeiro, Silva Ramos, Júlia Lopes de Almeida e Francisco Felinto de Almeida, Inglês de Sousa, Rocha Pombo, Magnus Söndhal, Medeiros e Albuquerque, Garcia Redondo, Félix Pacheco, Osório Duque-Estrada, Guimarães Passos, Afonso Celso, Sílvio Romero, Mário Pederneiras, Clóvis Beviláqua, Rodrigo Otávio, Fábio Luz, Padre Severiano de Resende, Alberto Ramos, Augusto Franco, Júlio Afrânio, Sousa Bandeira, Lima Campos, Frota Pessoa, Laudelino Freire, Pedro do Couto, Gustavo Santiago, Elísio de Carvalho. Acrescente-se os escritores que não responderam ao inquérito, mencionados por João do Rio no final do livro: nomes como Machado de Assis, Graça Aranha, Aluízio Azevedo, Arthur Azevedo, Alberto de Oliveira, Gonzaga Duque, Emílio de Meneses e José Veríssimo.

Os participantes foram inquiridos a comentar suas leituras de formação, indicar a principal obra entre as próprias produções e sobre o estado atual da poesia e da prosa no Brasil. Também foram instados a se posicionar a respeito da formação de centros literários nos Estados. Foi a última pergunta – o jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mal para a arte literária? – que motivou a escolha de O momento literário pelas docentes da Unesp, quando ministraram o curso de pós-graduação. Elas avaliam, na introdução do livro, que a questão sobre jornalismo inscreve-se no contexto da modernização da imprensa, da profissionalização, visibilidade e consagração do escritor, assim como da massificação da produção veiculada em jornais e revistas, temas que podem ser abordados a partir do inquérito de João do Rio. “A imprensa da época teve um papel fundamental para a visibilidade dos intelectuais. Era um apelo a mais junto aos leitores para que se tornassem conhecidos,” comenta Silva Azevedo.

 

O inquérito atendia ao interesse do leitor, que desejava saber o que pensavam os escritores que dominavam a cena cotidiana da época,
que figuravam em revistas e nos jornais

 

No âmbito de um curso de pós-graduação que envolveu duas áreas, o inquérito é importante não somente pelo seu caráter documental, uma vez que fornece uma fotografia de como a produção literária era compreendida na época, mas também por colocar em cena dois narradores: o entrevistado e o entrevistador, que igualmente se converte em escritor. “João do Rio ficcionaliza a narrativa de cada entrevista,” explica a docente Tania de Luca. O jornalista não publicava as respostas tal como as havia colhido. As entrevistas eram enriquecidas com descrições romanceadas acerca da figura do entrevistado, do lugar onde ocorria o encontro, aspectos que iam ao encontro do imaginário do leitor sobre os seus ídolos. O encontro com Olavo Bilac, cuja entrevista só aparece no livro, resultou em uma narrativa com o seguinte preâmbulo: “A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aramas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n’alma um certo temor.” “Isso é uma criação literária,” comenta a professora Tania de Luca.

Com suas múltiplas abordagens, O momento literário ilustra bem o espírito de seu tempo. O inquérito atendia ao interesse do leitor, que desejava saber o que pensavam os escritores que dominavam a cena cotidiana da época, que figuravam em revistas e nos jornais cotidianos, então elemento indispensáveis à formação cultural e intelectual da sociedade. Com tantas possibilidades de estudo, a obra de João do Rio tornou-se bibliografia obrigatória do curso.

 

Anúncio de lançamento O momento literário.
Fonte: Gazeta de Notícias, ano XXXV, n. 21, 21 jan. 1909, p. 6; A Notícia, ano XVI, n. 23, 27 jan. 1909, p. 4

 

As respostas
Dentre as cinco perguntas propostas, vale ressaltar as respostas relativas aos efeitos da imprensa na literatura. Para alguns, ela era um fator fundamental para a cultura nacional. Outros, principalmente os poetas, não compartilhavam da mesma opinião. Silvia Azevedo explica: “Dada a agilidade da imprensa, os poetas tinham de compor a toque de caixa, sem tanto cuidado, particularmente no que diz respeito ao estilo”.

Na introdução do livro, as organizadoras destacaram a opinião de alguns entrevistados. Por exemplo, para Garcia Redondo o jornal “estimula o cultivo das letras.” Otimista, Curvelo de Mendonça assinalou que a imprensa “é a vida do país.” Sílvio Romero enfatizou que “o jornalismo tem sido o animador, o protetor, e, ainda mais, o criador da literatura brasileira há cerca de um século.” Para Medeiros e Albuquerque, “em nenhum país de grande literatura deixa de haver grande jornalismo.”

Dentre os aspectos desfavoráveis à literatura, os entrevistados mencionaram principalmente a falta de tempo, mercantilização e banalização. Osório Duque-Estrada, autor da letra do Hino Nacional Brasileiro, resumiu bem o sentimento: “Atualmente é um péssimo fator. Dominou o espírito prático da época; o jornalista está quase substituído pelo repórter; as redações, de focos intelectuais, converteram-se em casas de negócios; as colunas da imprensa estão quase trancadas às produções intelectuais; os talentos reais, que ainda colaboram nela, já refletem o espírito prático dessas empresas mercantis: a crônica política, o comentário sobre os assuntos da vida burguesa e conservadora, a chalaça pérfida, o verso mordaz e a invectiva sórdida ou desabalada substituíram a obra forte da intelectualidade.”

Olavo Bilac tinha opiniões ambíguas sobre a questão. De um lado assinalava que “o jornalismo é para todo escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal – porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade.” Por outro, resumiu seu lado negativo: “Oh, sim é um bem. Mas se o moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono eu lhe diria apenas: ama a tua arte sobre todas as coisas a tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!”

Do jornal ao livro
Desde a primeira edição, em 1909, O momento literário trazia apenas uma reunião de entrevistas, não necessariamente na mesma ordem das publicações em a Gazeta de Notícias, em 1905. Faltavam informações para contextualizar a obra no seu período histórico. Para corrigir essa necessidade, as professoras empreenderam uma pesquisa de fonte que resultou na atual edição de O momento literário. “A introdução funciona nesse sentido. As edições que conhecemos traziam a obra com uma apresentação muito sucinta,” informa Silvia Azevedo.

Além de uma introdução bem detalhada sobre a mudança de suporte na realização do inquérito – do jornal ao livro –, o momento da assinatura do contrato entre João do Rio e a editora Garnier, as autoras trazem informações sobre o autor e o projeto, falam das entrevistas, da organização do livro e das questões propostas aos escritores. A data correta da primeira edição do livro – 1909 – é outra importante contribuição. “A edição original da Garnier não tem data. Nós a descobrimos a partir de anúncios de jornal,” esclarece Tania de Luca.

Outras novidades da atual edição são as notas de rodapé com informações sobre autores, obras e referências históricas mencionadas durante as entrevistas. Também se descobriu que o livro traz sete entrevistas que não foram publicadas em a Gazeta de Notícias, dentre elas, a do então popular escritor Olavo Bilac, que abre o inquérito.

A capa reproduz uma imagem do Real Gabinete Português de Leitura, com sede no Rio de Janeiro, local escolhido pela mãe de João do Rio para doar a biblioteca do filho falecido. A escolha da imagem também remete às ligações do jornalista e escritor carioca com Portugal. “Quando João do Rio faz a primeira viagem para Lisboa, ele tornou-se amigo de João de Barro, com quem editou a revista Atlântida (1915 – 1920) e realizou outras atividades para difundir no Brasil a literatura produzida em Portugal e vice-versa,” detalha Tania de Luca.
[Imagem da capa: Real Gabinete Português de Leitura – iStock 2010]

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