O comércio de resíduos

texto ◘ Sandro Donnini Mancini

Decisões recentes indicam que transferir resíduos plásticos para outros países não é mais uma opção. Seria bom se o impasse fosse encarado como uma oportunidade para coleta seletiva e reciclagem

Pode parecer estranho, mas alguns países importam resíduos de outros. Menos mal quando é para a reciclagem, mas não é raro que seja para se livrar do problema. Só que isso está mudando desde julho de 2017, quando a China notificou ao mundo, durante uma reunião da Organização Mundial do Comércio, a entrada em vigor no ano seguinte de uma restrição à importação de 24 tipos de resíduos, entre eles os resíduos plásticos não industriais. Cópia da notificação pode ser obtida em <https://bit.ly/2YYT7SA> e a lista completa dos resíduos em <https://bit.ly/2WfjEtb>.

Um artigo científico publicado no ano passado por pesquisadores da Universidade da Geórgia-EUA (<https://bit.ly/2Z2Q2Rj>) calcula que existiam 28 milhões de toneladas de resíduos plásticos para se reciclar no mundo em 2016 e 14,1 milhões de toneladas desse total foram recebidas por 123 países. A China pegou metade disso, 7,3 milhões de toneladas, de 43 países. Só que os chineses geraram internamente, no mesmo ano, outras 60,9 milhões de toneladas de resíduos plásticos e, segundo dados oficiais, recicla no máximo 22% disso. Aí vem a pergunta: por que um país que enterra 47 milhões de toneladas de plástico importa outras 7 milhões?

Ainda segundo o artigo, de 1992 a 2016 a China importou 106 milhões de toneladas de resíduos plásticos, ou seja, 45% do total mundial. Juntos, China e Hong Kong importaram no período 72,4% de todo o resíduo plástico global e, sabendo que Hong Kong é uma porta de entrada para a China, dá para perceber o estrago que a lei chinesa causou, está causando e vai causar. Até 2030 a proibição chinesa deverá atingir outras 111 milhões de toneladas de resíduos plásticos.

Grandes exportadores, como Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália já reportam prejuízos milionários, problemas sérios na gestão interna de resíduos e quedas enormes no preço da sucata. Outros países, notadamente asiáticos, aumentaram as importações de resíduos, mas isso tende a acabar, pois a pressão é grande e legislações, inclusive globais, estão sendo feitas para restringir tais importações. No último dia 10 de maio, ao fim de uma reunião da Organização das Nações Unidas, 187 países aceitaram incluir os plásticos na Convenção da Basiléia, acordo internacional que tenta, desde 1989, disciplinar a movimentação e a disposição de resíduos perigosos pelo mundo. Pela decisão, países exportadores agora têm de conseguir consentimento dos países importadores para o envio de plásticos contaminados, misturados ou não recicláveis <https://bit.ly/2Z3Mbn8>.

Mas foram reportadas confusões diplomáticas antes e após esse acordo. Em 28 de maio, a Malásia avisou que vai devolver 9 contêineres cheios de resíduos plásticos (impróprios para a reciclagem, segundo o governo) para seus respectivos exportadores, quais sejam Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Japão, Arábia Saudita, Bangladesh, Holanda, Singapura e, na linha do aqui-se-fez-aqui-se-paga, a China (<https://cnn.it/312FYJW>). Antes, no dia 24 de abril, o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, ameaçou o Canadá de guerra se o país não pegasse de volta toneladas de lixo, importadas por uma companhia canadense como sendo resíduos plásticos (<https://cnn.it/2WlvXJk>).

E o Brasil nisso tudo? Assiste de camarote, pois nem compra nem vende resíduos que não sejam para a reciclagem e, quando esse comércio ocorre, se dá geralmente com países que fazemos fronteira.

Enfim, seria muito bom que esse impasse seja encarado como uma oportunidade para que se fortaleça a coleta seletiva e a reciclagem em cada país e que se repense globalmente o uso de produtos descartáveis e de não recicláveis. Pois transferir resíduos para outros países não é mais uma opção.

Cada um com os seus problemas.

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imagem ◘ Hong Kong, China – 8 de outubro de 2012: Lixo sendo transportado no barco para o porto de Victoria Harbour (© iStock/ SeanPavonePhoto)

 

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